Por Eneida Roberta Bonanza
Há quem acredite que procrastinar é apenas falta de força de vontade. Um certo “depois eu faço” repetido por preguiça. Mas, quando observamos pela lente da bioquímica e das neurocorrelações, percebemos que a procrastinação muitas vezes é o corpo pedindo socorro.
Ela pode ser sinal de exaustão. De um organismo que perdeu sua capacidade de regular estímulos. De um sistema nervoso que está tentando sobreviver.
Procrastinar, em muitos casos, não é evitar a ação.
É biologia tentando economizar energia.
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O Eixo HPA e o Corpo em Sobrevida
O eixo HPA – hipotálamo, pituitária (hipófise) e adrenal – é responsável pela resposta ao estresse. Quando ativado de forma prolongada (por preocupações, pressões emocionais, traumas ou sobrecarga), produz uma descarga constante de cortisol.
Inicialmente, o cortisol aumenta para preparar o corpo para “lutar ou fugir”. Mas quando esse processo se mantém cronicamente ativado, o organismo entra em fadiga.
Dados aproximados:
– O cortisol matinal ideal varia entre 6 e 23 mcg/dL.
– Em pessoas sob estresse prolongado, ele pode superar esse valor ou apresentar queda abrupta após períodos de hiperprodução, gerando exaustão adrenal.
– Estudos mostram que até 40% das pessoas com procrastinação crônica apresentam irregularidades no eixo HPA, relacionadas à dificuldade de tomada de decisão e baixa motivação.
O corpo entende que qualquer ação representa gasto energético. Logo, paralisa para “proteger”. E é nesse mecanismo que a procrastinação se instala.
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O Intestino e o Cérebro em Diálogo
Cerca de 90% da serotonina é produzida no intestino — neurotransmissor essencial para motivação, foco e sensação de capacidade.
Quando há disbiose intestinal, alimentação inadequada, inflamações ou estresse prolongado, essa produção cai, afetando diretamente o estado emocional.
Pesquisas demonstram que indivíduos com disfunções intestinais têm até 70% mais chances de apresentar sintomas como apatia, procrastinação e sensação de incapacidade.
Procrastinação, nesse cenário, não é negligência. É inflamação.
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Quando o Corpo Quer Mover, mas o Sistema Travou
A procrastinação pode ser um sintoma de:
– Hiperativação do eixo HPA;
– Desregulação do cortisol;
– Baixos níveis de serotonina, dopamina e noradrenalina;
– Inflamação intestinal;
– Deficiência de nutrientes envolvidos na via bioquímica da energia celular.
Não é falta de querer.
É falta de condições bioquímicas para ser.
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Há Caminhos
E aqui mora a boa notícia: há tratamentos possíveis.
– Acompanhamento médico especializado, para avaliar níveis hormonais, cortisol, neurorregulação e marcadores inflamatórios;
– Reposicionamento nutricional e reorganização intestinal;
– Terapias integrativas, como microfisioterapia, leitura biológica, frequenciais, constelação familiar e outras práticas que liberam a sobrecarga do sistema;
– Protocolos de regulação do sistema nervoso autônomo, para devolver ao corpo a permissão de agir;
– Psicoterapia ou abordagens de reorganização emocional, para tratar crenças e padrões inconscientes de autoproteção.
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A Cura Começa no Entender
Procrastinar não é fracasso.
É um pedido silencioso de reequilíbrio interno.
Quando reconhecemos a raiz, abrimos caminho para o movimento.
E movimento é vida.
Talvez não seja sobre produzir mais.
Seja sobre reorganizar-se por dentro para ter energia de sustentar o movimento por fora.
Porque, quando o corpo deixa de sobreviver e reaprende a viver, a procrastinação cede, e a ação se torna natural.



