{"id":23571,"date":"2020-07-18T15:53:55","date_gmt":"2020-07-18T15:53:55","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/?p=23571"},"modified":"2020-07-18T15:53:55","modified_gmt":"2020-07-18T15:53:55","slug":"a-dimensao-educadora-da-cancao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-dimensao-educadora-da-cancao\/","title":{"rendered":"A dimens\u00e3o educadora da can\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Walter Silva<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual o potencial educador da can\u00e7\u00e3o? Essa quest\u00e3o, sem querer, ressurgiu numa conversa que tive com o meu brother-orientador ontem, via chamada de v\u00eddeo, sem nenhuma pretens\u00e3o acad\u00eamica formal, apenas porque n\u00e3o t\u00ednhamos nada para fazer a n\u00e3o ser \u201ccurtir\u201d a quarentena tomando cerveja (ele) e caipirinha (eu).<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o verificada entre a dimens\u00e3o educadora e o universo da can\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m presente em outras \u00e1reas da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica humana, \u00e9 algo que volta e meia surge nas escolas quando, por exemplo, professores das mais diversas disciplinas buscam \u201catrativos metodol\u00f3gicos\u201d para as suas pr\u00e1ticas docentes. \u201cVamos trazer \u2018Protesto Olodum\u2019, de Tatau, para provocar a discuss\u00e3o sobre a dimens\u00e3o pol\u00edtica do carnaval?\u201d \u201cE que tal \u2018Firme e forte\u2019, do Psirico, para falar do planejamento urbano de Salvador?\u201d \u201cCaramba, como \u2018Covardia\u2019, gravada por Igor Kan\u00e1rio, revela a complexidade da viol\u00eancia imposta \u00e0s periferias?\u201d. Tenho certeza de que muitos professores e coordenadores j\u00e1 pensaram nesse sentido, praticamente esgotando as possibilidades de algu\u00e9m ainda querer trazer alguma novidade sobre o assunto. Mas, calma, eu falei pra-ti-ca-men-te; e por que isso? Bem, primeiro porque a dial\u00e9tica, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 argumento pra l\u00e1 de suficiente para duvidarmos da tese do esgotamento tem\u00e1tico. Segundo, porque, curiosamente, apesar das can\u00e7\u00f5es serem recorrentemente utilizadas nas escolas, nas reminisc\u00eancias dos cancioneiros, expressas nas letras das can\u00e7\u00f5es, a escola e o seu universo quase nunca est\u00e3o presentes ou, quando est\u00e3o, raramente aparecem de forma positiva. Essa sacada acabou sendo o objeto de reflex\u00e3o para o ensaio que eu, Jason Mafra (o brother-orientador) e Edina Ferreira, uma colega do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Nove de Julho (Uninove), acabamos de escrever e que ser\u00e1, em breve, publicado em um livro organizado pela querida professora Ana Maria Haddad.<br \/>\nNo ensaio, a partir de algumas metacan\u00e7\u00f5es (can\u00e7\u00f5es que trazem nas letras elementos do pr\u00f3prio universo da can\u00e7\u00e3o) convidamos o leitor a perceber o car\u00e1ter dial\u00f3gico, cr\u00edtico e did\u00e1tico da poesia cancioneira, como verificamos em Sintonia, um sucesso gravado pelo saudoso Moraes Moreira em 1986; em Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei das flores, can\u00e7\u00e3o que deu a Geraldo Vandr\u00e9 o segundo lugar no II Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1968; e em Meu refr\u00e3o, samba gravado por Chico Buarque em 1966.<br \/>\nA dimens\u00e3o educadora das experi\u00eancias vividas e das can\u00e7\u00f5es foram inicialmente destacadas em duas metacan\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de Belchior: Apenas um rapaz latino-americano e Como nossos pais, ambas gravadas no vinil Anuncia\u00e7\u00e3o (1976). Na primeira, o compositor cearense traz a can\u00e7\u00e3o Divino e Maravilhoso (GIL; VELOSO, 1969) para, a partir das experi\u00eancias e conversas com amigos, constatar que a vida por ele vivida n\u00e3o tinha nada de divina e muito menos de maravilhosa; nada de secreta ou de misteriosa. Para ele, \u201ca vida realmente \u00e9 diferente, quer dizer, ao vivo \u00e9 muito pior\u201d (BELCHIOR, 1986a). J\u00e1 em Como os nossos pais, Belchior (1986b) cria uma intencional contradi\u00e7\u00e3o quando informa ao grande amor que n\u00e3o vai lhe contar o que aprendeu nos discos \u2013 ou seja, nas can\u00e7\u00f5es \u2013, mas como viveu e as coisas que aconteceram com ele. Acontece, que o universo onde ele se encontra \u00e9 o da can\u00e7\u00e3o. Portanto, o que ele de fato faz a partir desse momento n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o cantar o que ele viveu.<br \/>\nUm tra\u00e7o comum nas obras citadas de Belchior e de Chico Buarque \u00e9 que ambas destacam muito mais a vida do que a escola, enquanto espa\u00e7o de aprendizagem \u2013 em Meu refr\u00e3o o compositor disse que teve de fugir da escola para aprender (HOLANDA, 1966). A indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola vai ganhar for\u00e7a com dois outros compositores, que agora apontam as suas palavras tamb\u00e9m para o sistema educacional: Roger Waters, quando na can\u00e7\u00e3o \u201cAnother brick in the wall\u201d avisa aos professores que as crian\u00e7as n\u00e3o precisam de uma educa\u00e7\u00e3o controladora de mentes (WATERS, 1979), e Renato Russo, ao apontar que \u201c[porque a escola dele n\u00e3o tem personagens, mas gente de verdade] O sistema \u00e9 mau, mas minha turma \u00e9 legal\u201d (RUSSO, 1993). Ao chutarem \u201co pau da barraca\u201d da escola, Belchior, Chico Buarque, Roger Waters e Renato Russo demonstraram que essa falta de reminisc\u00eancias positivas n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade brasileira, n\u00e3o pode ser facilmente datada e nem est\u00e1 presa a estilos musicais espec\u00edficos.<br \/>\nPois \u00e9, como disse, ainda tem muita coisa para ser compreendida no universo da can\u00e7\u00e3o, mas se tem um ponto pac\u00edfico em todas as discuss\u00f5es que certamente ainda est\u00e3o por vir \u00e9 a sua dimens\u00e3o educadora. Longe de ser um assunto esgotado, estudar profundamente a can\u00e7\u00e3o, nas suas rela\u00e7\u00f5es com outras dimens\u00f5es da cultura e com o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais, pode nos permitir compreender intencionalidades encobertas por narrativas e subjetividades historicamente constru\u00eddas. Fiquemos atentos a isso, mas sempre \u201ccaminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o\u201d, esse parece ser um bom caminho.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>BARRETO, Zeca; G\u00d3ES, Fred; MOREIRA, Moraes. Sintonia. Moraes Moreira. In: Hipertens\u00e3o. Interpretes: A Cor do Som (part. de Gilberto Gil), Anne Perec, Armandinho, Cl\u00e1udio Zoli, Engenheiros do Hawaii, Her\u00f3is da Resist\u00eancia, Jo\u00e3o Bosco, Jo\u00e3o Gilberto, Moraes Moreira, Rosana, S\u00e1 &amp; Guarabira, Tit\u00e3s e Zeca Pagodinho. Rio de Janeiro: Som Livre, 1986. Long play. Lado A. Faixa 3. (trilha sonora nacional de novela).<\/p>\n<p>BELCHIOR. Apenas um rapaz latino-americano. Belchior. In: BELCHIOR. Alucina\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Polygram, 1976a. Long play. Lado A. Faixa 1.<\/p>\n<p>BELCHIOR. Como nossos pais. Belchior. In: BELCHIOR. Alucina\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Polygram, 1976b. Long play. Lado A. Faixa 3.<\/p>\n<p>FERREIRA, Fagner; MENDON\u00c7A, S\u00e1; NOBRE, Ed; SANTANA, Magno. Firme e forte. M\u00e1rcio Vitor. In: PSIRICO. Psirico 10 anos: ao vivo em Salvador. Salvador: Maur\u00edcio Musikal, 2012. CD e download digital, Faixa 5. Grava\u00e7\u00e3o ao vivo.<\/p>\n<p>GIL, Gilberto; VELOSO, Caetano. Divino e Maravilhoso. Gal Costa. In: COSTA, Gal. Gal Costa. S\u00e3o Paulo: Phillips, 1969. Long play. Lado B. Faixa 2.<\/p>\n<p>TATAU. Protesto Olodum. Bet\u00e3o. In: OLODUM. N\u00fabia Axum Eti\u00f3pia. S\u00e3o Paulo: Continental, 1988. Long play. Lado B. Faixa 5.<\/p>\n<p>HOLLANDA, Chico Buarque de. Meu refr\u00e3o. Chico Buarque de Hollanda. In: HOLLANDA, Chico Buarque de. Chico Buarque de Hollanda. S\u00e3o Paulo: RGE, 1966. Long play. Lado B. Faixa 5.<\/p>\n<p>KANN\u00c1RIO, Igor; TELES, J.; [?], Fagner. Covardia. Igor Kann\u00e1rio. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/youtu.be\/XbGx9V70eH4&gt;. Acesso em: 13 de jul de 2020.<\/p>\n<p>RUSSO, Renato. Vamos fazer um filme. Renato Russo. In: LEGI\u00c3O URBANA. Descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1993. CD. Faixa 8.<\/p>\n<p>VANDR\u00c9, Geraldo. Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei das flores (Caminhando). Geraldo Vandr\u00e9. S\u00e3o Paulo: Som Maior. 1968. Compacto simples. Gravado ao vivo no II Festival da Can\u00e7\u00e3o Popular. Visualizado em https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/pt\/f\/f3\/Pra_n%C3%A3o_dizer_que_n%C3%A3o_falei_das_flores.jpg<\/p>\n<p>WATERS, Roger. Another brick in the wall (part II). Int\u00e9rpretes: David Gilmour. Roger Waters. In: PINK FLOYD. The wall. Londres: Harvest Records. 1979. \u00c1lbum duplo. Primeiro vinil. Lado A. Faixa 5.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Walter Silva Qual o potencial educador da can\u00e7\u00e3o? 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