{"id":24388,"date":"2020-09-12T13:07:31","date_gmt":"2020-09-12T13:07:31","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=24388"},"modified":"2020-09-12T13:08:18","modified_gmt":"2020-09-12T13:08:18","slug":"a-bahia-de-paulo-cesar-pinheiro-parte-2-ou-edil-e-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-bahia-de-paulo-cesar-pinheiro-parte-2-ou-edil-e-paulo\/","title":{"rendered":"A Bahia de Paulo C\u00e9sar Pinheiro- Parte 2-ou Edil e Paulo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Walter Silva<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filhos de Gandhy, Badau\u00ea, Il\u00ea Ay\u00ea, Mal\u00ea Debal\u00ea, Oju Ob\u00e1. Quando ouvimos o nome desses afox\u00e9s e blocos afros, exatamente nessa ordem, o que v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a do leitor? Uma sequ\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es carnavalescas afro-baianas, onde caberiam outros tantos afox\u00e9s e blocos afros, ou \u201ctem um mist\u00e9rio que cabe no cora\u00e7\u00e3o, for\u00e7a de uma can\u00e7\u00e3o que tem o dom de encantar\u201d? Aposto na segunda op\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEssa provoca\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 s\u00f3 para lembrar o naipe do compositor baiano que, pela identifica\u00e7\u00e3o da sua obra com o pr\u00f3prio povo, certamente deve ter apresentado a Paulo C\u00e9sar Pinheiro uma Bahia diferente, uma Bahia produtora e recriadora ativa de cultura (notem que eu n\u00e3o escrevi reprodutora). Refiro-me, evidentemente, a Edil Pacheco, um sambista que conhece essa Bahia que recria, porque vive, e por isso pode ensinar um modo espec\u00edfico de ler o mundo; essa Bahia que, denunciando, resiste e, resistindo, enuncia. Enfim, falo aqui do registro de \u201cAfros e Afox\u00e9s da Bahia\u201d, o nome dado ao LP gravado em 1988 pela dupla.<br \/>\nSe \u00e9 verdade que a gente n\u00e3o pode medir as pessoas com a mesma r\u00e9gua, o que implica em reconhecer e dialogar com as diversas vis\u00f5es de mundo, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que devemos reconhecer e destacar as a\u00e7\u00f5es que enunciam e permitem as pessoas serem mais. \u00c9 bonito e emocionante perceber quando isso acontece. Quem quiser que discorde, mas foi exatamente isso o que eu percebi quando ouvi a can\u00e7\u00e3o \u201cMal\u00ea Debal\u00ea\u201d, composta por Edil Pacheco e Paulo C\u00e9sar Pinheiro, gravada magistralmente por Lazzo Matumbi.<br \/>\nN\u00e3o recordo precisamente quando foi a primeira vez que ouvi essa can\u00e7\u00e3o, mas tenho certeza de que faz mais de dez anos, tempo que estou longe da terrinha, do Mal\u00ea, bloco afro do meu cora\u00e7\u00e3o, e dos afox\u00e9s, principalmente o Filhos do Congo, outra paix\u00e3o certamente ancestral. E por que ela jamais saiu da minha mem\u00f3ria? Explico: a produ\u00e7\u00e3o cultural desenvolvida pelas e a partir das entidades carnavalescas afro-baianas fundaram e reelaboraram, sobretudo nos \u00faltimos 50 anos, essa coisa que muitos insistem em afirmar ser a maior express\u00e3o do car\u00e1ter festivo-criativo da cultura baiana, o carnaval. Mesmo assim, s\u00e3o, na sua maioria, entidades invisibilizadas, discriminadas e expostas a uma l\u00f3gica autof\u00e1gica e predat\u00f3ria de incentivos financeiros, tanto p\u00fablicos como privados. Esse foi o pano de fundo que provocou a minha emo\u00e7\u00e3o quando ouvi a can\u00e7\u00e3o pela primeira vez: o \u201cmeu bloco\u201d havia inspirado dois dos mais importantes sambistas do Brasil \u2013 e, pela beleza da can\u00e7\u00e3o, como haviam inspirado!<br \/>\nCom um arranjo que posiciona o berimbau como elemento estruturante da can\u00e7\u00e3o, na medida em que ele anuncia e ponteia aquele t\u00edpico samba de roda de capoeira \u2013 na minha opini\u00e3o o mais primoroso do trabalho, mas posso estar sendo tendencioso \u2013, a letra da can\u00e7\u00e3o \u201cMal\u00ea Debal\u00ea\u201d n\u00e3o \u00e9 modesta, e isso \u00e9 bom, pois \u00e9 verdadeira: \u201c\u00e9 l\u00e1 que Ogum fez o seu cong\u00e1, \u00e9 l\u00e1 que se vai bater pra esse Orix\u00e1\u201d \u2013 para quem n\u00e3o \u00e9 familiarizado com as express\u00f5es das religi\u00f5es de matrizes africanas, \u201ccong\u00e1\u201d \u00e9 o espa\u00e7o sagrado dentro do terreiro por onde fluem as energias dos Orix\u00e1s. E como n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil resistir ao som do Mal\u00ea, pedem aos Orix\u00e1s para que des\u00e7a toda a falange de Ogum e, tamb\u00e9m, \u201clicen\u00e7a e permiss\u00e3o para dan\u00e7ar\u201d.<br \/>\nTanto \u201cMal\u00ea Debal\u00ea\u201d quanto as demais can\u00e7\u00f5es do LP s\u00e3o composi\u00e7\u00f5es de Edil Pacheco e Paulo C\u00e9sar Pinheiro, exceto \u201cIjex\u00e1\u201d (a can\u00e7\u00e3o que abre esta coluna), de autoria apenas do baiano Edil Pacheco. Assim, ao \u201cbatizar\u201d as can\u00e7\u00f5es com os nomes dos blocos afros, os compositores acabaram realizando uma respeitosa e bela homenagem aos afox\u00e9s e blocos afros, aos seus percussionistas, cantores e, principalmente, a todos que se conectam com essa cultura t\u00e3o bem representada pela percussividade que produziu. Al\u00e9m da grava\u00e7\u00e3o de Lazzo Matumbi, que foi cantor do Il\u00ea Ay\u00ea antes de firmar-se como uma refer\u00eancia do reggae nacional, o LP conta com os pr\u00f3prios compositores interpretando as can\u00e7\u00f5es \u201cOlori\u201d (Paulo C\u00e9sar Pinheiro) e \u201cMuzenza\u201d (Edil Pacheco). Paulinho Feij\u00e3o, ainda cantor do Il\u00ea Ay\u00ea, Paulinho Araketu e Gilson Nascimento, cantor do extinto afox\u00e9 Afrequet\u00ea, interpretaram as homenagens feitas aos \u201cseus blocos\u201d, inclusive quem n\u00e3o lembra da grava\u00e7\u00e3o que Alcione fez de \u201cAra-ketu\u201d, no LP \u201cFogo da Vida\u201d (1985), e \u201cAfrequet\u00ea\u201d, em \u201cNosso nome: Resist\u00eancia\u201d (1987)? Continuando, Luis Caldas gravou \u201cBadau\u00ea\u201d, Gilberto Gil fez um bel\u00edssimo e suave registro de \u201cOju-Ob\u00e1\u201d e, ao interpretar \u201cOlodum\u201d, Margareth Menezes confirmou a conex\u00e3o que mantinha com o bloco, pois havia acabado de gravar a can\u00e7\u00e3o de Luciano Gomes, \u201cFara\u00f3 Divindade do Egito\u201d (1987). Por fim, \u201cIjex\u00e1\u201d, esse cl\u00e1ssico de Edil Pacheco, gravado primeiramente por Clara Nunes no LP \u201cNa\u00e7\u00e3o\u201d (1982), \u00e0 \u00e9poca casada com Paulo C\u00e9sar Pinheiro, foi reservada \u00e0 \u201cTribo Na\u00e7\u00e3o Ijex\u00e1\u201d para finalizar o LP.<br \/>\nAssim como o CD \u201cCapoeira de Besouro\u201d (2010), tema da coluna \u201cA Bahia de Paulo C\u00e9sar Pinheiro \u2013 I\u201d, \u201cAfros e Afox\u00e9s da Bahia\u201d tamb\u00e9m \u00e9 um trabalho tem\u00e1tico e, por isso, pode ser percebido como uma grande homenagem \u00e0s entidades afro-carnavalescas. \u00c9 um trabalho que consagra a baianidade do carioca Paulo e reafirma a versatilidade do \u201csambismo\u201d do maragogipano Edil, que h\u00e1 muito j\u00e1 ensinou que Afox\u00e9 \u00e9 uma coisa (institui\u00e7\u00e3o) e ijex\u00e1 \u00e9 outra (ritmo), mas a\u00ed j\u00e1 \u00e9 uma outra conversa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LP Afros e Afox\u00e9s da Bahia<br \/>\nProduzido por Durval Ferreira e Paulo C\u00e9sar Pinheiro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00fasicos:<br \/>\nCarlos Augosto: viol\u00e3o, baixo, vocais e arranjos<br \/>\nL\u00e1zaro: percuss\u00e3o e vocais<br \/>\nPaulo S\u00e9rgio: flauta<br \/>\nRenan, Edil Pacheco, Ramiro, Mabel, Cl\u00e1udia, F\u00e1tima, Paulo Jos\u00e9 Caldas, Claudete Macedo, Marcos Ant\u00f4nio: vocais<br \/>\nLuiz Caldas: viol\u00e3o em \u201cBadau\u00ea\u201d<br \/>\nGilberto Gil: viol\u00e3o em \u201cOju-Ob\u00e1\u201d<\/p>\n<p>Fonte da imagem: discosbrasil2.blogspot.com\/2010\/10\/afros-e-afoxes-da-bahia-edil-pacheco-e.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Walter Silva Filhos de Gandhy, Badau\u00ea, Il\u00ea Ay\u00ea, Mal\u00ea Debal\u00ea, Oju Ob\u00e1. 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