{"id":26126,"date":"2021-03-25T14:58:27","date_gmt":"2021-03-25T14:58:27","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=26126"},"modified":"2021-03-25T14:58:27","modified_gmt":"2021-03-25T14:58:27","slug":"brasil-e-o-teatro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/brasil-e-o-teatro\/","title":{"rendered":"Brasil e o teatro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Heberti Hipollito<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As representa\u00e7\u00f5es teatrais no Brasil se \u201ciniciam&#8221; ainda no per\u00edodo de coloniza\u00e7\u00e3o, com os Jesu\u00edtas que tinham como foco converter os ind\u00edgenas ao catolicismo, j\u00e1 que os mesmos acreditavam que os povos nativos viviam numa vida de pecado, por n\u00e3o seguir os mesmos costumes e deuses.<br \/>\nO maior nome que esteve na frente da cria\u00e7\u00e3o dessas pe\u00e7as foi o Jos\u00e9 de Anchieta, um padre que desembarcou no pais ainda como novi\u00e7o aos 19 anos, de sua autoria um dos textos mais conhecidos \u00e9 o \u201cAuto de S\u00e3o Louren\u00e7o \u201d que \u00e9 escrito em portugu\u00eas e espanhol, trazendo na sua hist\u00f3ria figuras da cultura local. Os Jesu\u00edtas criaram a companhia de Jesus, na qual o Jos\u00e9 de Anchieta fazia parte, os Jesu\u00edtas foram expulsos do pais no final do s\u00e9culo XVI.<br \/>\nNo Brasil, o teatro passou por v\u00e1rias fases como a dos s\u00e9culos XVII e XVIII, nos quais pela falta de documenta\u00e7\u00e3o ocorre algo chamado de \u201cvazio de dois s\u00e9culos\u201d, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o ocorreram representa\u00e7\u00f5es teatrais nesta \u00e9poca os poucos registros que existem desse per\u00edodo s\u00e3o de cerim\u00f4nias c\u00edvicas-religiosas.<br \/>\nA luta na costa brasileira contra os franceses e holandeses, assim como o bandeirantismo s\u00e3o apontados como motivos para o \u201csumi\u00e7o\u201d do teatro no Brasil.<br \/>\nNo s\u00e9culo XVIII a maioria dos elencos eram formados por negros e pardos, j\u00e1 que ser atriz ou ator era considerado algo para classes inferiores. Uma das grandes curiosidades desse per\u00edodo era que os atores cobriam suas peles com p\u00f3 branco, j\u00e1 que os textos aos quais encenavam era espanh\u00f3is e italianos, onde a sua imagem como corpo negro, n\u00e3o era bem quista e por isso escondiam suas peles.<br \/>\nDois s\u00e9culos depois, j\u00e1 no s\u00e9culo XX a presen\u00e7a nos palcos j\u00e1 e predominantemente branca, e onde ocorria frequentemente n\u00e3o s\u00f3 no teatro como na TV o \u201cblack face\u201d, pratica de colocar atores e atrizes brancos para interpretarem pap\u00e9is de personagens negros, onde pintava-se os atores para a encena\u00e7\u00e3o, pr\u00e1tica que foi abolida ap\u00f3s muitos anos. Ainda nesse per\u00edodo surge o Teatro experimental do Negro, que levou muitos atores negros aos palcos do Brasil e exterior.<br \/>\nChegando no s\u00e9culo XXI o fazer teatral ainda tem uma predomin\u00e2ncia branca e o consumo do teatro \u00e9 bem relativo, em muitos situa\u00e7\u00f5es a plateia \u00e9 constitu\u00edda apenas por outros artistas. No pais n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, encontrar pessoas que nunca foram ao teatro, muitos deles por ter uma vis\u00e3o classicista do consumir teatro, acreditam que teatro n\u00e3o \u00e9 para pessoas de classes \u201cinferiores&#8221;, que n\u00e3o \u00e1 teatro acess\u00edvel as suas condi\u00e7\u00f5es financeiras e que existe uma vestimenta exata\/adequada para se ir aos espet\u00e1culos, que n\u00e3o teriam nos seus guarda-roupas.<br \/>\nEssa predomin\u00e2ncia e tamb\u00e9m a dificuldade para forma\u00e7\u00e3o de plateia, tonar viver de teatro uma batalha di\u00e1ria. Atores baianos assim como eu, sabem bem o que \u00e9 isso, pagar para trabalhar, trabalhar de gra\u00e7a, muito esfor\u00e7o e pouco dinheiro, dificuldades para se profissionalizar e ter amigos e parentes que nunca v\u00e3o te prestigiar por \u201cn\u00e3o ter roupa para ir ao teatro&#8221;.<br \/>\nAo ser perguntado sobre o fazer teatral no Brasil\/Bahia o jovem Khalil Emmanuel ator, escritor, estudante de Licenciatura em Teatro na UFBA e morador da cidade de Candeias relata o seguinte. \u201cSer ator no Brasil \u00e9 enfrentar dificuldades e estar sempre diante de desafios, e eu, sem titubear, afirmo que ser ator em Candeias \u00e9 um desafio dobrado.<br \/>\nA pr\u00e1tica teatral foi se deteriorando com o tempo e o descaso do poder p\u00fablico. A antiga Academia de Artes Dram\u00e1ticas de Candeias, fundada pelo professor Rolmar Duarte, n\u00e3o existe mais, bem como os diversos grupos de teatro que n\u00e3o s\u00f3 se apresentavam, mas tamb\u00e9m ofereciam oficinas para as comunidades. Nos \u00faltimos anos, pela falta de espa\u00e7os, a falta de profissionais, a falta de investimento do poder p\u00fablico, se algu\u00e9m quiser ter uma experi\u00eancia com o teatro deve recorrer a capital e isso \u00e9, sem d\u00favidas, um privil\u00e9gio para poucos.<br \/>\nEntretanto eu tenho em mim a esperan\u00e7a de que est\u00e1 situa\u00e7\u00e3o mude, os artistas candeenses est\u00e3o em movimento e exigindo seus direitos e cobrando o poder p\u00fablico, e a atual gest\u00e3o parece estar interessada em contribuir e ajudar. O que nos resta \u00e9 seguir em frente e n\u00e3o lamentar, nem se acomodar. \u00c9 preciso continuar e lutar pela mudan\u00e7a\u201d.<br \/>\nAs dificuldades no sonho de viver de teatro n\u00e3o s\u00e3o encontradas apenas no interior da Bahia, mas tamb\u00e9m na capital como relata Val\u00e9ria Fernandes atriz, estudante de Licenciatura em Teatro na UFBA e moradora do bairro da Massaranduba, na Cidade baixa em Salvador. \u201cNo Brasil, sonhar \u00e9 um ato de ousadia extrema. E o fazer teatro \u00e9 um sonho no qual pretendo nunca despertar. Apesar das in\u00fameras dificuldades que implicam a minha jornada art\u00edstica e tenho certeza que a isso ocorre com outras pessoas. \u00c9 comum compartilhamos das mesmas dores quando fazemos um tipo de teatro mais vulner\u00e1vel. Por conta dessas problem\u00e1ticas, alguns acabam seguindo outros caminhos profissionais por falta do recurso financeiro e psicol\u00f3gico. O que \u00e9 lament\u00e1vel, pois tenho certeza de que tais pessoas estariam contribuindo para o crescimento da arte e cultura em nosso pa\u00eds. Que tragicamente encaminha-se para o abismo quando governantes se empenham na sabotagem da cultura. E estimulam o retrocesso de uma arte que h\u00e1 muitos anos \u00e9 considerada burguesa. Dentro desses pensamentos, busco uma forma de sobreviver de maneira saud\u00e1vel em meio ao caos. E gra\u00e7as a Dion\u00edsio estou gozando de momentos espetaculares atrav\u00e9s e por causa do teatro. Coisas que sempre me disseram que seria imposs\u00edvel, pois venho da periferia, mais precisamente da comunidade de Alagados. Como: apresentar no palco principal do teatro Castro Alves com o aprendiz em cena, curso t\u00e9cnico de teatro do qual fui aluna em 2019.<br \/>\nE esses pensamentos negativos dos outros muitas vezes acabam contribuindo para a fragilidade da minha sa\u00fade mental. Por sofre com essas quest\u00f5es, n\u00e3o recuso a oportunidade de ser gentil com um artista\u201d.<br \/>\nO teatro \u00e9 uma arte livre e n\u00e3o pertence apenas a uma classe social, uma ra\u00e7a, n\u00e3o importa se voc\u00ea \u00e9 do interior ou da capital. Para ir ao teatro, sim! \u00e9 preciso muitas vezes dinheiro, mas tamb\u00e9m existem programa\u00e7\u00f5es gratuitas ou de menor valor. N\u00e3o importa se voc\u00ea vai de chinelo ou salto alto, s\u00f3 v\u00e1, o teatro ou melhor a arte pertence a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Heberti Hipollito As representa\u00e7\u00f5es teatrais no Brasil se \u201ciniciam&#8221; ainda no per\u00edodo de coloniza\u00e7\u00e3o, com os Jesu\u00edtas que tinham como foco converter os ind\u00edgenas ao catolicismo, j\u00e1 que os mesmos acreditavam que os povos nativos viviam numa vida de pecado, por n\u00e3o seguir os mesmos costumes e deuses. 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