{"id":28844,"date":"2022-02-10T10:00:32","date_gmt":"2022-02-10T13:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=28844"},"modified":"2022-01-26T15:19:40","modified_gmt":"2022-01-26T18:19:40","slug":"me-deixem-cantar-ate-o-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/me-deixem-cantar-ate-o-fim\/","title":{"rendered":"\u201cMe deixem cantar at\u00e9 o fim&#8230;\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Paulinho Goetze<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-28845 aligncenter\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/foto-1-elza-soares.jpg\" alt=\"\" width=\"794\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/foto-1-elza-soares.jpg 794w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/foto-1-elza-soares-300x170.jpg 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/foto-1-elza-soares-768x435.jpg 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/foto-1-elza-soares-696x394.jpg 696w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/foto-1-elza-soares-741x420.jpg 741w\" sizes=\"(max-width: 794px) 100vw, 794px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oi, gente! Muito feliz em estar de volta ao Portal e mais feliz ainda em saber que foi uma demanda do p\u00fablico leitor. Com muita satisfa\u00e7\u00e3o recebi o convite para retomar a coluna sobre arte e cultura, dessa vez apenas uma vez por m\u00eas por conta do meu doutorado. Ent\u00e3o estaremos juntes sempre nas \u00faltimas sextas-feiras de cada m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o convite chegou, logo comecei a pensar sobre o que poderia escrever. Confesso que muitos temas vieram \u00e0 mente, mas durante a escrita perdemos a voz gigante de Elza Soares. Como Elza \u00e9 uma cantora que eu amo muito e que representa tanto o nosso pa\u00eds, resolvi escrever sobre ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elza Soares tinha tudo \u201cpra dar errado\u201d na vida. Nasceu mulher na d\u00e9cada de 1930, preta, pobre, na favela onde atualmente \u00e9 a Vila Vint\u00e9m, no Rio de Janeiro. Desde cedo precisou aprender a lidar com o racismo e o machismo. Foi obrigada a se casar aos 13 anos com um amigo de seu pai que tentara lhe violentar, aos 14 anos teve seu primeiro filho e aos 15 perdeu o segundo filho para a fome. Desse casamento, Elza levou o sobrenome Soares, que a acompanharia pelo resto da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ou a cantar e, para conseguir dinheiro, se apresentava na noite, a contragosto de sua fam\u00edlia, e em programas de televis\u00e3o. Foi em um desses programas, um apresentado por Ary Barroso, que Elza mostrou que viera ao mundo para ser uma interventora ao ser questionada pelo apresentador:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O que voc\u00ea veio fazer aqui?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vim cantar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E quem disse que voc\u00ea canta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu, seu Ary.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ent\u00e3o, agora, me responda, menina, de que planeta voc\u00ea veio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Do seu planeta, seu Ary!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E posso perguntar que planeta \u00e9 esse?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Do planeta fome!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Planeta Fome, inclusive, \u00e9 o t\u00edtulo do \u00faltimo \u00e1lbum lan\u00e7ado por Elza em vida, em 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elza tamb\u00e9m ficou conhecida pelo relacionamento conturbado com Garrincha, famoso jogador da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol \u00e0 \u00e9poca. O casamento com Garrincha foi marcado por muita viol\u00eancia dom\u00e9stica e eles tiveram apenas um filho que morreu aos 9 anos em um acidente de carro. No total, Elza teve oito filhos, dos quais enterrou quatro. Sobre essas perdas ela falou ao portal UOL em 2018: \u00a0&#8220;A \u00fanica coisa do passado que ainda me machuca \u00e9 a perda dos meus quatro filhos. O resto tiro de letra. Mas filho \u00e9 uma ferida aberta que n\u00e3o cicatriza. Estar\u00e1 sempre presente!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando vivia com Garrincha, a casa em que moravam foi metralhada em uma madrugada e eles precisaram se asilar na It\u00e1lia. Se separaram em 1982 e ele morreu 1 ano depois, v\u00edtima de uma cirrose hep\u00e1tica decorrente do v\u00edcio em \u00e1lcool:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Foram 17 anos juntos. Hoje \u00e9 chique ser mulher de jogador, \u00e9 uma promessa de futuro. Mas, quando se faz por amor, a pessoa n\u00e3o se arrepende nunca. N\u00e3o tenho m\u00e1goas, passado \u00e9 passado. Passou! Eu vivo o agora. O futuro n\u00e3o sei&#8221;, afirmou em entrevista para a revista &#8220;Quem&#8221; em 2016.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz peculiar de Elza \u00e9 apontada como uma das mais belas vozes do mundo e, na d\u00e9cada de 1960, Louis Armstrong tentou lev\u00e1-la para os Estados Unidos. Apesar de todo sucesso, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1984, Elza estava no ostracismo e, deprimida, havia resolvido parar de cantar. Foi Caetano Veloso quem n\u00e3o permitiu que isso acontecesse lhe prometendo uma can\u00e7\u00e3o, \u201cL\u00edngua\u201d, com quem gravou em dueto em 1984 e ent\u00e3o n\u00e3o parou mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Em 1999, Elza foi eleita pela BBC de Londres como a cantora brasileira do mil\u00eanio. Em 2003, foi indicada ao Grammy Latino pelo trabalho &#8220;Do C\u00f3ccix ao Pesco\u00e7o&#8221;. Quatro anos depois, se emocionou ao cantar o Hino Nacional \u00e0 capela na abertura dos Jogos Panamericanos no Rio. Por\u00e9m, foi &#8220;A Mulher do Fim do Mundo&#8221;, primeiro \u00e1lbum s\u00f3 de in\u00e9ditas lan\u00e7ado ap\u00f3s mais de seis d\u00e9cadas de carreira, que se tornou seu trabalho mais premiado. Com ele, a cantora recebeu o Trof\u00e9u APCA da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte, o Pr\u00eamio da M\u00fasica Brasileira e o Grammy Latino de Melhor \u00c1lbum de MPB. <\/em>(UOL, 2018)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elza Soares entoava na can\u00e7\u00e3o \u201cMulher do Fim do Mundo\u201d os versos: <strong>\u201cEu quero \u00e9 cantar, eu vou cantar at\u00e9 o fim, me deixem cantar at\u00e9 o fim\u201d<\/strong>, e de fato cantou at\u00e9 o fim. Dois dias antes de morrer, Elza gravou um DVD no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e em est\u00fadio deixou um novo \u00e1lbum in\u00e9dito em produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida de Elza Soares \u00e9 inspiradora. Em um pa\u00eds t\u00e3o racista, machista, sexista, sua voz ecoou por todas as classes, por todos os espa\u00e7os, por todas as pessoas. Morreu no mesmo dia que Garrincha, com 29 anos de diferen\u00e7a, cercada pela fam\u00edlia e amigos. Sobre sua morte, Caetano escreveu: \u201cMorreu na gl\u00f3ria a que fazia jus, numa idade respeit\u00e1vel, afirmando a grandeza poss\u00edvel do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma voz como Elza Soares n\u00e3o morre, ela \u00e9 semente e se multiplica todos os dias em meninas e mulheres pretas que tem na exist\u00eancia de Elza o seu exemplo de vida e a certeza de que essa porta, aberta por ela, n\u00e3o voltar\u00e1 a se fechar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elza vive!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viva Elza!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(foto 1 \u2013 Divulga\u00e7\u00e3o UOL 2018)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(foto 2 \u2013 CNN Brasil)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bacharel em Estudos de G\u00eanero e Diversidade pela Universidade Federal da Bahia, Mestre em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, G\u00eanero e Feminismo, Doutorando no mesmo programa. Autor do livro \u201cDaniela Mercury: trajet\u00f3ria, produ\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulinho Goetze Oi, gente! Muito feliz em estar de volta ao Portal e mais feliz ainda em saber que foi uma demanda do p\u00fablico leitor. Com muita satisfa\u00e7\u00e3o recebi o convite para retomar a coluna sobre arte e cultura, dessa vez apenas uma vez por m\u00eas por conta do meu doutorado. 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