{"id":36120,"date":"2024-06-02T08:52:43","date_gmt":"2024-06-02T11:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=36120"},"modified":"2024-06-02T08:52:43","modified_gmt":"2024-06-02T11:52:43","slug":"fulano-e-louco-de-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/fulano-e-louco-de-pedra\/","title":{"rendered":"Fulano \u00e9 louco de pedra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Paulo Roberto Reis<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Instagram: @psipaulorobertoreis<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cFulano \u00e9 louco de pedra\u201d carrega consigo dicotomias hist\u00f3ricas sobre a loucura, que ora traz refer\u00eancias positivas ora negativas. O louco j\u00e1 assumiu v\u00e1rios papeis sociais. Louco era o \u201cmendigo\u201d [pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua]; louco era o pobre; louco era o fil\u00f3sofo; louca era a bruxa [sobretudo, na Idade M\u00e9dia]; louco era o leproso; louco era o m\u00edstico que conversava com os deuses; louco era quem n\u00e3o respeitava as normas morais; louco era quem n\u00e3o correspondia os padr\u00f5es e expectativas da sociedade. Atualmente, quem \u00e9 o louco de pedra? Penso eu, que o fulano ou fulana louca pode assumir qualquer uma das formas acima citadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, o fato \u00e9 que a figura do louco continua sendo um problema na nossa sociedade. Na maioria das vezes, o louco \u00e9 visto como algu\u00e9m desajustado, desequilibrado, descontrolado e perigoso. \u00c9 o fulano que \u00e9 capaz de cometer atos violentos e \u201cinsanos\u201d ou simplesmente que n\u00e3o possui uma raz\u00e3o l\u00f3gica padronizada. Ideias assim, no s\u00e9culo XIX, fizeram surgir a psiquiatria enquanto ci\u00eancia. O tratamento dado ao louco foi variando ao longo do tempo, mas, certamente, os manic\u00f4mios revelam experi\u00eancias bastante negativas sobre a forma de tratar a loucura. Foucault, na sua obra Hist\u00f3ria da Loucura, afirma que o fen\u00f4meno da loucura nada mais \u00e9 do que uma estrutura da exclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje em dia, h\u00e1 pessoas e estruturas que continuam se utilizando da narrativa da loucura na tentativa de justificar os sistemas de exclus\u00e3o da nossa sociedade. Aplica-se, ent\u00e3o, o dito: \u201cfulano (a) \u00e9 louco de pedra\u201d, pra quem foge das expectativas padr\u00f5es. Assim, surgem algumas quest\u00f5es: ser diferente \u00e9 ser louco? Todo mundo \u00e9 igual a todo mundo? Perguntas complexas, mas as respostas podem ser simples quando s\u00e3o observadas sem hipocrisia e com honestidade intelectual. A pluralidade n\u00e3o deveria ser crit\u00e9rio para loucura, ou se considerada, todo mundo deveria ser representado em sua loucura. Pensando assim, vale a m\u00e1xima de outro dito popular: \u201c[&#8230;] de louco, todo mundo tem um pouco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo ap\u00f3s o in\u00edcio do Movimento de Luta Antimanicomial (1970) &#8211; caracterizada pela luta por direitos das pessoas em estado de sofrimento mental &#8211; continuamos excluindo e encarcerando pessoas em estado de sofrimento ps\u00edquico. H\u00e1, ainda, manic\u00f4mios cl\u00e1ssicos em nosso meio, e existe tamb\u00e9m os manic\u00f4mios revestidos de comunidades terap\u00eauticas, que, por vezes, perpetuam pr\u00e1ticas de segrega\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e nega\u00e7\u00e3o de direitos. Obviamente, n\u00e3o estou me referindo a todas as casas terap\u00eauticas, mas, infelizmente, boa parte delas. O problema central \u00e9 que o modelo permanece manicomial: tirar o indiv\u00edduo de circula\u00e7\u00e3o e afast\u00e1-lo da vida social, ou criar uma vida social paralela, onde se imagina \u201cestar entre os pares\u201d \u2013 os outros \u201cloucos de pedra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, os Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS) oferecem modalidades de servi\u00e7os interdisciplinares mais amplos \u00e0 comunidade, inclusive \u00e0s pessoas que enfrentam desafios relacionados ao uso prejudicial de drogas. Os equipamentos CAPS s\u00e3o parte da Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (RAPS), ambos integram o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). As atividades nos CAPS n\u00e3o se limitam apenas ao atendimento cl\u00ednico, mas atividades de grupos, visitas domiciliares e interven\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es de crise numa perspectiva de inser\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e0 sociedade. Admitimos que ainda h\u00e1 muito o que fazer. Enquanto sociedade organizada, precisamos continuar ampliando as redes de aten\u00e7\u00e3o psicossocial, bem como outros equipamentos. Contudo, antes de mais nada, devemos mudar de mentalidade. Sairmos de nossos preconceitos. O \u201cFulano (a) louco de pedra\u201d pode ser eu ou at\u00e9 mesmo voc\u00ea!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reflex\u00e3o autoral de Paulo Roberto Santos Reis Soares, mestrando em Estudos de Linguagens (UNEB), graduado em Psicologia e Teologia (UCSAL), p\u00f3s-graduado em Gerontologia e Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC), e p\u00f3s-graduando em Neuropsicologia. Atua como psic\u00f3logo cl\u00ednico, com foco na sa\u00fade mental da pessoa idosa prestando atendimento online e presencial; psic\u00f3logo das organiza\u00e7\u00f5es e do trabalho e palestrante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brasil, Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS), 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gov.br\/saude\/pt-br\/composicao\/saes\/desmad\/raps\/caps Acesso em 31 de maio de 2024.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foucault, Michel. A \u00e1gua e a loucura (1963). In: ________. Problematiza\u00e7\u00e3o do sujeito: Psicologia, psiquiatria e psican\u00e1lise. Ditos e Escritos I.Org.Manoel Barros da Motta. Trad. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera L\u00facia Avelar Ribeiro. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2006, p. 205-209.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________. A casa dos loucos. In: Foucault, Michel. Microf\u00edsica do poder. Org. e trad. Roberto Machado. S\u00e3o Paulo: Graal, 2008, p. 113-128.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______. Hist\u00f3ria da loucura na idade cl\u00e1ssica. Trad. Jos\u00e9 Teixeira Coelho Neto. 9. ed.. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IMAGEM: Louco de pedra. | Sketches, Humanoid sketch, Illustration<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Roberto Reis Instagram: @psipaulorobertoreis A express\u00e3o \u201cFulano \u00e9 louco de pedra\u201d carrega consigo dicotomias hist\u00f3ricas sobre a loucura, que ora traz refer\u00eancias positivas ora negativas. O louco j\u00e1 assumiu v\u00e1rios papeis sociais. 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