{"id":38790,"date":"2024-09-05T15:58:05","date_gmt":"2024-09-05T18:58:05","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=38790"},"modified":"2024-09-05T16:01:01","modified_gmt":"2024-09-05T19:01:01","slug":"zelia-duncan-como-tudo-comecou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/zelia-duncan-como-tudo-comecou\/","title":{"rendered":"Z\u00e9lia Duncan: como tudo come\u00e7ou?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por T\u00e9o Gelson&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos 30 aos 40 anos, Z\u00e9lia Duncan passou de cantora desconhecida de timbre grave a uma das mais aclamadas, doces e espirituosas representantes da cultura brasileira. Em 1997, prestes a completar 33, ela celebrava o Disco de Ouro pelas primeiras 100 mil c\u00f3pias vendidas do \u00e1lbum Intimidade (Warner Music, 1996) quando subiu ao palco do Sesc Pompeia, em S\u00e3o Paulo, para um show do projeto Ouvindo Estrelas. Nele, a cantautora teve a oportunidade de mostrar que j\u00e1 eram consolidadas e potentes as suas diversas vozes: a que canta (grave), a que comp\u00f5e (doce) e a que fala (espirituosa). Isso est\u00e1 claro no registro que, em 2023, o Selo Sesc, atrav\u00e9s do projeto Relic\u00e1rio, transforma em mais um trabalho ao vivo da artista. Intitulado Relic\u00e1rio: Z\u00e9lia Duncan (Ao Vivo no Sesc 1997) (Selo Sesc, 2023), o \u00e1lbum re\u00fane can\u00e7\u00f5es de dois dos discos lan\u00e7ados por Z\u00e9lia Duncan at\u00e9 ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1997, eu era apenas uma adolescente roqueira de 16 para 17 anos que amava Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan e The Byrds e rec\u00e9m havia descoberto a MPB. Aos 12, um disco de Caetano Veloso me apresentara \u00e0 Tropic\u00e1lia, a seus expoentes e \u00e0 sonoridade que tinha muito do rock que eu escutava em casa atrav\u00e9s de meu pai e de meu irm\u00e3o. Rita Lee logo foi eleita a tropicalista com a qual mais identifiquei caracter\u00edsticas comuns. \u00c0s v\u00e9speras de completar 14, um disco novo de Marisa Monte me levou a outros universos, como o do samba, e me permitiu resgatar em mim refer\u00eancias que sa\u00edam da vitrola e do piano de minha av\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz grave de Z\u00e9lia Duncan, que eu j\u00e1 conhecia de uma trilha sonora de novela, entrou na minha casa quando eu estava prestes a completar 16 anos, em um CD trazido pelo meu pai e autografado por ela para n\u00f3s dois. Com sua clara influ\u00eancia do folk e do rock, Intimidade arrebatou a fam\u00edlia toda com um som que continha algo dos Beatles e\/ou algo dos Byrds. Ali, eu j\u00e1 sabia que \u00e9ramos conterr\u00e2neas, ambas nascidas em Niter\u00f3i, e passei a seguir \u201cZD\u201d \u2013 apelido dado por seus f\u00e3-clubes \u2013 e a comprar os discos de antes, os que vieram depois, a ir aos shows e, quando virei jornalista, a buscar motivos para fazer boas entrevistas com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1997, eu ainda n\u00e3o tinha liberdade para ir sozinha a um show fora de minha cidade, e sabe-se l\u00e1 por que meu pai foi naquele de Niter\u00f3i sem mim. A S\u00e3o Paulo que tanto frequento hoje era um destino distante naquela \u00e9poca. Os tempos eram outros e n\u00e3o existiam telefones celulares registrando tudo da plateia, muito menos plataformas de v\u00eddeos oferecendo trechos ou espet\u00e1culos inteiros. Portanto, o show realizado em 15 de julho no Sesc Pompeia foi um dos tantos de Z\u00e9lia que perdi, mas que agora \u2013 pelo menos em forma de \u00e1udio \u2013 posso ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo mat\u00e9rias publicadas pelos jornais paulistanos que divulgaram o show de Z\u00e9lia Duncan no Sesc Pompeia, o carro-chefe era Intimidade, mas o setlist ficou bem equilibrado entre esse e o outro trabalho autoral da artista, Z\u00e9lia Duncan (Warner Music, 1994). Divertido e em tom confessional, um bate-papo \u00edntimo com o saudoso Zuza Homem de Mello, o curador do projeto Ouvindo Estrelas, \u00e9 a primeira faixa do novo disco que vem \u00e0 luz depois de 26 anos e prova que a cantora j\u00e1 era uma \u00f3tima entrevistada muito antes de 2001, quando lan\u00e7ou Sortimento (Universal Music, 2001) e eu, ainda estagi\u00e1ria, pude comandar a primeira de muitas entrevistas que fiz com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, eu j\u00e1 amava Acesso (Warner Music, 1998) e j\u00e1 vinha atravessando a ponte Rio-Niter\u00f3i em busca de bons shows, mas ainda n\u00e3o havia come\u00e7ado a escrever profissionalmente e vivia intensamente minha fase tiete. Dessa turn\u00ea, eu n\u00e3o tenho uma foto com Z\u00e9lia, porque, apesar de tirada no camarim de uma casa de shows no Rio, nunca me foi entregue pela fot\u00f3grafa. E o CD Acesso que tenho at\u00e9 hoje tem o encarte autografado apenas para meu pai, porque ele acabou indo ao show de Z\u00e9lia Duncan em nossa cidade antes de mim. Sei l\u00e1 por qu\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certeza do ser<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a conversa com Zuza que se ouve na abertura de Relic\u00e1rio: Z\u00e9lia Duncan (Ao Vivo no Sesc 1997), Z\u00e9lia deu a entender que sempre teve muito definido o que j\u00e1 era e continuaria sendo a sua jornada na m\u00fasica: \u201cMinha m\u00fasica tem elementos de folk, de blues, de funk, de soul\u2026 O que eu digo \u00e9 muito importante no meu trabalho!\u201d, declarou ela nesse papo inicial que sempre abria as edi\u00e7\u00f5es do projeto. A mistura de sons, ritmos, g\u00eaneros e refer\u00eancias j\u00e1 servia como pano de fundo para o que a partir de seu segundo \u00e1lbum, o primeiro levando Z\u00e9lia Duncan como assinatura, faz a maior diferen\u00e7a em seu trabalho: a composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em seu disco de estreia, Outra Luz (Eldorado, 1990), Z\u00e9lia Cristina \u2013 como assinava \u2013 incluiu apenas uma can\u00e7\u00e3o de sua autoria no repert\u00f3rio, a partir de 1994, com Z\u00e9lia Duncan, o que ela escreve e \u201cdiz\u201d ao microfone passou de fato a ser \u201cmuito importante\u201d. N\u00e3o \u00e0 toa, saiu desse segundo \u00e1lbum, e com versos de Z\u00e9lia e Christiaan Oyeens, o primeiro hit de sua carreira, \u201cCatedral\u201d, que foi parar na trilha sonora da novela \u201cA Pr\u00f3xima V\u00edtima\u201d, em 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A faixa arrebatou o Brasil todo, e eu cheguei a aprender os acordes para toc\u00e1-la nas rodas de viol\u00e3o com amigos. Mas, como eu nunca fui pautada por hits, n\u00e3o foi ela que me levou a procurar saber mais sobre Z\u00e9lia Duncan. Eu gostei mesmo quando conheci aquele som que tinha algo de Byrds e que acabou virando hit: \u201cEnquanto Durmo\u201d (Duncan e Oyens) foi inclu\u00edda na trilha de \u201cSalsa e Merengue\u201d, em 1997. Em uma entrevista realizada por mim em 2009 para uma revista e que acabou n\u00e3o sendo publicada, Z\u00e9lia confessou que Intimidade foi um desafio que serviu para fidelizar seus f\u00e3s, entre eles eu. Disse ela:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAcho que o disco Intimidade tem uma import\u00e2ncia enorme para mim. Foi um momento crucial, talvez a primeira coragem, pois n\u00e3o repeti \u2018Catedral\u2019, que era do anterior e era a m\u00fasica mais pedida at\u00e9 em r\u00e1dios de dance music. O sucesso \u00e9 gostoso, sedutor, ardiloso, tentador! Mas eu tentei seguir adiante. Mais ing\u00eanua do que hoje, achava que por ter sido ouvida antes, seria depois, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim, n\u00e3o. As pessoas quase que exigem a repeti\u00e7\u00e3o! Mas foi uma confirma\u00e7\u00e3o da parceria com Christiaan e Lucina e uma afirma\u00e7\u00e3o como autora. Perdi a fatia de p\u00fablico que ama mais o sucesso do que o artista, mas ganhei a confian\u00e7a dos que me ouvem at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de j\u00e1 atuar como compositora, Z\u00e9lia Duncan estourou com uma vers\u00e3o. O caminho natural seria o dos hits, mas algo que sempre pautou a carreira de Z\u00e9lia foi a honestidade consigo mesma: \u201cEu disse muitos \u2018n\u00e3os\u2019 depois de \u2018Catedral\u2019, desde fazer vers\u00e3o de m\u00fasica italiana com vaga certa em novela das oito, at\u00e9 gravar um disco inteiro em Los Angeles, com m\u00fasicos feras americanos. Eu preferi tentar descobrir quem eu era. E, sim, as escolhas sempre foram minhas e eu arco com as consequ\u00eancias disso. O caminho \u00e9 mais solit\u00e1rio por um lado e mais recompensador por outro, creio eu\u201d, disse Z\u00e9lia na mesma entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compor n\u00e3o foi uma decis\u00e3o t\u00e3o simples quanto cantar. Z\u00e9lia costuma creditar a seguran\u00e7a que foi conquistando a \u201cc\u00famplices\u201d como Christiaan Oyens e Lucina. No palco, sempre foi bem acompanhada por m\u00fasicos de peso. Na mesma entrevista que trago \u00e0 luz agora, ela tamb\u00e9m exp\u00f4s, em tom confessional: \u201cCom o tempo, fui me impondo coragens\u2026 isso foi importante, pois n\u00e3o sabia exatamente onde pisava\u2026 s\u00f3 sabia que podia perder o que tinha de espa\u00e7o. Mas meu medo de embotar sempre foi maior do que o medo de arriscar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arriscando-se e sem medo da solid\u00e3o, em Intimidade, seu terceiro trabalho, Z\u00e9lia viu nascerem outros sucessos \u2013 \u201cIntimidade\u201d, \u201cBom pra voc\u00ea\u201d, entre outras \u2013 e a cantora e compositora se estabeleceu de vez entre as grandes vozes da MPB, sem ser uma porta-voz s\u00f3 de ritmos brasileiros. \u201cQuando eu comecei como Z\u00e9lia Duncan, quem me conhecia h\u00e1 mais tempo falava: \u2018Voc\u00ea tem uma voz assim, devia cantar mais MPB\u2019. Eu t\u00f4 cantando o que eu gosto, quero dizer pela minha boca as coisas. Foi assim que eu arranjei c\u00famplices, falando o que eu queria falar\u201d, declarou ela a Zuza no palco do Sesc Pompeia em 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trajet\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Z\u00e9lia Cristina Gon\u00e7alves Moreira nasceu em Niter\u00f3i, em 28 de outubro de 1964, e galgou diversas fases at\u00e9 chegar ao ponto de encher uma casa de shows com tantos f\u00e3s repetindo os versos de suas m\u00fasicas. Criada em Bras\u00edlia, quando pequena, ouvia a m\u00e3e soltando a voz em casa para cantar Elizeth Cardoso. A mem\u00f3ria a fez cantar em shows por muitos anos de sua carreira \u201cDoce de Coco\u201d, um choro de Jacob do Bandolim que recebeu letra do Herm\u00ednio Bello de Carvalho, conforme relembrou Zuza no bate-papo com Z\u00e9lia. Sozinha, apaixonou-se por Elis Regina. Com os irm\u00e3os, pirou no peso do Led Zeppelin e do Pink Floyd. At\u00e9 que alcan\u00e7ou os timbres de Joni Mitchell, Ella Fitzgerald e tantos outros que fizeram sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Z\u00e9lia Cristina cantou na noite por muitos anos. Depois, migrou para os palcos como atriz, participando at\u00e9 de musical dirigido por Oswaldo Montenegro. Aos 22 anos, voltou para Niter\u00f3i, onde foi morar com a verdadeira Z\u00e9lia Duncan, a av\u00f3 de quem pegou \u2013 com autoriza\u00e7\u00e3o \u2013 o nome art\u00edstico: ela mudou de nome para ter Duncan em seus registros. A uma certa altura, j\u00e1 depois do lan\u00e7amento de seu disco de estreia, aceitou um convite para cantar em Abu Dhabi, nos Emirados \u00c1rabes, e passou oito meses fora do Brasil, experi\u00eancia que mudou sua forma de cantar: \u201cFui para l\u00e1 como apenas mais uma cantora brasileira, mas eu consegui personalizar aquilo e sa\u00ed de l\u00e1 como Z\u00e9lia\u201d, contou a Zuza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E personalizou para valer. Basta dizer que o deserto \u00e1rabe a inspirou durante a escrita da vers\u00e3o da letra de \u201cCathedral Song\u201d (Tanita Tikaram). No entanto, n\u00e3o foi de primeira que Z\u00e9lia conseguiu mostrar o seu talento como compositora. Como Z\u00e9lia Cristina, gravou um disco em que s\u00f3 a faixa \u201cOutra Luz\u201d era assinada por ela e Oyens: \u201cEu acho que a coisa mais importante pra mim, at\u00e9 hoje, \u00e9 ser cantora, interpretar, dizer as palavras, sejam elas minhas ou n\u00e3o\u201d, declarou a Zuza logo no in\u00edcio da conversa, antes de se soltar e assumir que seu texto \u00e9, sim, um diferencial em sua m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: https:\/\/www.sescsp.org.br\/<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por T\u00e9o Gelson&nbsp; &nbsp; Dos 30 aos 40 anos, Z\u00e9lia Duncan passou de cantora desconhecida de timbre grave a uma das mais aclamadas, doces e espirituosas representantes da cultura brasileira. 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