{"id":39021,"date":"2024-09-22T08:20:09","date_gmt":"2024-09-22T11:20:09","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=39021"},"modified":"2024-09-22T08:20:09","modified_gmt":"2024-09-22T11:20:09","slug":"estao-todos-bem-e-nao-precisam-mais-de-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/estao-todos-bem-e-nao-precisam-mais-de-mim\/","title":{"rendered":"Est\u00e3o todos bem e n\u00e3o precisam mais de mim"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Paulo Roberto Reis<br \/>\nInstagram: @psipaulorobertoreis<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mudan\u00e7a no perfil epidemiol\u00f3gico do envelhecimento est\u00e1 produzindo demandas que requerem respostas das pol\u00edticas sociais e implicam em a\u00e7\u00f5es de enfrentamento dos problemas sociais e de sa\u00fade que afetam esse segmento populacional. Novos desafios emergem, a partir do aumento significativo da popula\u00e7\u00e3o envelhecida, um deles, o suic\u00eddio. No Brasil, a taxa de suic\u00eddio entre pessoas idosas \u00e9 de 47% maior do que em outras faixas et\u00e1rias (IBGE, 2019). A problem\u00e1tica necessita de aten\u00e7\u00e3o e maior visibilidade, al\u00e9m de novas estrat\u00e9gias de enfrentamento.<br \/>\nO suic\u00eddio \u00e9 um evento complexo e multifatorial, no qual o indiv\u00edduo intenciona tirar a pr\u00f3pria vida. Dessa maneira, temos a idea\u00e7\u00e3o suicida, enquanto desejo e elabora\u00e7\u00e3o de um plano de autoexterm\u00ednio; e o comportamento suicida, que \u00e9 o ato em si. Atualmente, o suic\u00eddio \u00e9 visto como um problema de sa\u00fade p\u00fablica, j\u00e1 que as rela\u00e7\u00f5es causais perpassam por uma s\u00e9rie de sintomas psicossociais. Em rela\u00e7\u00e3o aos idosos, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, s\u00e3o um grupo populacional de maior risco para o suic\u00eddio. Visto que, h\u00e1 alguns elementos que corroboram para o aparecimento de doen\u00e7as, como, as dem\u00eancias, bem como transtornos mentais.<br \/>\nPara al\u00e9m de doen\u00e7as, na velhice, os indiv\u00edduos est\u00e3o mais propensos \u00e0s perdas reais e simb\u00f3licas. As perdas est\u00e3o associadas \u00e0 morte de amigos, c\u00f4njuges e familiares, mas, tamb\u00e9m, as mudan\u00e7as significativas de sentido de vida, viv\u00eancias e experi\u00eancias psicossociais. S\u00e3o universos que se transformam com o passar do tempo, tanto no corpo quanto na alma. Assim, a dimens\u00e3o da finitude da vida surge e imp\u00f5e quest\u00f5es existenciais complexas, como, \u201cpara onde vou\u201d, \u201conde estou \u201c, ou \u201co que fiz\/o que vou fazer\u201d.<br \/>\nAs quest\u00f5es exist\u00eancias quando n\u00e3o encontram conson\u00e2ncia de sentido de vida podem desencadear um colapso mental, tendo como consequ\u00eancia uma queda de humor, aumento da ansiedade e at\u00e9 mesmo um sentimento de vazio. Um dos problemas dessa realidade \u00e9 a invisibilidade. Geralmente, h\u00e1 cren\u00e7as sobre as pessoas idosas que n\u00e3o corroboram para o enfrentamento desses dilemas. Acredita-se que idoso n\u00e3o sofre, que \u00e9 fofinho e que n\u00e3o espera mais nada da vida. Esse fen\u00f4meno chama-se mito do idoso feliz, onde prevalece uma ideia preconcebida de que todo idoso \u00e9 feliz e que est\u00e1 na melhor idade. O mito do idoso feliz pode ocasionar viol\u00eancias de v\u00e1rias naturezas, retirando do indiv\u00edduo o seu direito de expressar os seus descontentamentos e expectativas.<br \/>\nEssas representa\u00e7\u00f5es sociais apagam o sofrimento ps\u00edquico que muitas pessoas idosas vivenciam. \u00c9 preciso notarmos que existe uma cultura tendenciosa de minimiza\u00e7\u00e3o da dor f\u00edsica, quando \u00e9 justificada por \u201ccoisas da idade\u201d ou \u201cnaturais do envelhecimento\u201d; e invisibilidade do desconforto psicol\u00f3gico, no sentido de falta de reconhecimento e valida\u00e7\u00e3o de sentimentos e percep\u00e7\u00f5es sobre a vida. Nesse ensejo, pode aparecer a quest\u00e3o do comportamento suicida como tentativa de eliminar o sofrimento.<br \/>\nAssim, o desejo de antecipar o fim da vida parece ser uma resposta razo\u00e1vel diante das perdas de sa\u00fade, autonomia, independ\u00eancia e sentido de vida. Sabe aquelas famosas express\u00f5es: \u201cn\u00e3o quero dar trabalho\u201d, \u201cminha vida n\u00e3o tem mais sentido\u201d, \u201cj\u00e1 completei a minha jornada\u201d, \u201ctodo mundo j\u00e1 est\u00e1 criado\u201d, e \u201cest\u00e3o todos bem e n\u00e3o precisam mais de mim\u201d? Ent\u00e3o, essas s\u00e3o algumas das frases mais comuns que podem indicar a presen\u00e7a de pensamentos suicidas em idosos. Quantas vezes escutamos uma pessoa \u2013 sobretudo, idosos \u2013 falarem sobre elas, e quantas vezes paramos para dar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o devida?<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 incomum conversas em tom de despedida, express\u00e3o pela falta de desejo em viver, neglig\u00eancia nos cuidados com a higiene pessoal, desist\u00eancia em atividades l\u00fadicas, doa\u00e7\u00e3o de bens e tantos outros comportamentos que fazem jus a determinadas cren\u00e7as sobre a vida. Aqui, vou me deter na express\u00e3o: \u201ctodos est\u00e3o bem e n\u00e3o precisam mais de mim\u201d. Esse dito pode carregar consigo a falta de novos sentidos de vida. Numa sociedade extremamente selvagem, a pessoa \u00e9 aquilo que consegui produzir, mesmo no \u00e2mbito da fam\u00edlia.<br \/>\nOra, se a pessoa n\u00e3o tem mais o que produzir e ningu\u00e9m para cuidar, ela pode ter a impress\u00e3o que sua vida j\u00e1 est\u00e1 encerrada. Perceba aquela pessoa que passou uma vida inteira dedicada \u00e0 fam\u00edlia, e que agora como idosa fica realizada apenas com a cria\u00e7\u00e3o de filhos e netos. \u00c9 preciso desenvolver uma cultura que coloque o indiv\u00edduo, independente da idade, como protagonista da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Alguns comportamentos de pessoas de outras faixas et\u00e1rias podem legitimar essa cren\u00e7a que a pessoa s\u00f3 tem sentido se estiver produzindo algo para algu\u00e9m. \u00c9 preciso desmistificar ideias que relacionam a velhice apenas como finitude e capital de produ\u00e7\u00e3o. A pessoa \u00e9 capaz de construir novos sentidos e rela\u00e7\u00f5es em qualquer idade, mesmo considerando os desafios e fragilidades de cada etapa da vida.<br \/>\nPara al\u00e9m disso, precisamos falar mais sobre oportunidades e novas experi\u00eancias para as pessoas mais velhas. Desse modo, n\u00e3o temos como fugir da necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas e sociais efetivas que ajudem a sociedade a se organizar para amparar, proteger e estender os direitos de todas as pessoas idosas. Dessa forma, poder\u00edamos substituir a cren\u00e7a \u201ctodos est\u00e3o bem e n\u00e3o precisam mais de mim\u201d por \u201cvoc\u00ea pode viver bem e construir novos sentidos de vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reflex\u00e3o autoral de Paulo Roberto Santos Reis Soares, mestrando em Estudos de Linguagens (UNEB), graduado em Psicologia e Teologia (UCSAL), p\u00f3s-graduado em Gerontologia e Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC), e p\u00f3s-graduando em Neuropsicologia. Atua como psic\u00f3logo cl\u00ednico, com foco na sa\u00fade mental da pessoa idosa prestando atendimento online e presencial; psic\u00f3logo das organiza\u00e7\u00f5es e do trabalho e palestrante.<br \/>\nRefer\u00eancias<br \/>\nCorentino, Jamille Mamed Bomfim; Viana, Terezinha de Camargo. A Velhice e a Morte: reflex\u00f5es sobre o processo de luto. REV. BRAS. GERIATR. GERONTOL., RIO DE JANEIRO, 2011; 14(3):591-600.<br \/>\nInstituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. S\u00edntese de indicadores sociais: uma an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o brasileira: 2016 [Internet]. Rio de Janeiro: IBGE; 2016 [citado 2019 jun. 15]. Dispon\u00edvel em: https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/ liv98965.pdf 2.<br \/>\nOrganiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. Relat\u00f3rio Mundial de Envelhecimento e Sa\u00fade. Genebra: OMS; 2015 [citado 2019 jun. 15]. Dispon\u00edvel em: http:\/\/sbgg.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/OMS-ENVELHECIMENTO-2015-port.pdf 3.<br \/>\nSousa GS, Silva RM, Figueiredo AEB, Minayo MCS, Vieira LJES. Circunst\u00e2ncias que envolvem o suic\u00eddio de pessoas idosas. Interface (Botucatu). 2014;18(49):389-402. doi: http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/1807-57622013.0241 4.<br \/>\nIMAGEM: Autoria desconhecida. Dispon\u00edvel em: https:\/\/humancarebrasil.com.br\/artigos\/suicidio-entre-idosos-e-a-importancia-do-setembro-amarelo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Roberto Reis Instagram: @psipaulorobertoreis A mudan\u00e7a no perfil epidemiol\u00f3gico do envelhecimento est\u00e1 produzindo demandas que requerem respostas das pol\u00edticas sociais e implicam em a\u00e7\u00f5es de enfrentamento dos problemas sociais e de sa\u00fade que afetam esse segmento populacional. 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