{"id":42784,"date":"2025-06-15T09:13:23","date_gmt":"2025-06-15T12:13:23","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=42784"},"modified":"2025-06-15T09:13:23","modified_gmt":"2025-06-15T12:13:23","slug":"quando-o-riso-fere-o-humor-toxico-e-o-adoecimento-de-quem-e-alvo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-o-riso-fere-o-humor-toxico-e-o-adoecimento-de-quem-e-alvo\/","title":{"rendered":"Quando o Riso fere: o humor t\u00f3xico e o adoecimento de quem \u00e9 alvo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Dr. Paulo Roberto Reis<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Psic\u00f3logo Cl\u00ednico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso do humorista Leo Lins, amplamente repercutido nas redes e na imprensa, acende um alerta importante que vai muito al\u00e9m dos limites do palco. Em suas piadas, Lins debochou de pessoas com defici\u00eancia, crian\u00e7as com c\u00e2ncer, popula\u00e7\u00f5es racializadas e minorias sociais, transformando a dor do outro em entretenimento. O epis\u00f3dio gerou revolta, a\u00e7\u00f5es judiciais e um debate urgente: at\u00e9 que ponto o humor pode se escorar na crueldade? Como psic\u00f3logo, afirmo com clareza: esse tipo de \u201chumor\u201d tem impacto direto e devastador na sa\u00fade mental das pessoas atingidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso do \u201c\u00e9 s\u00f3 uma piada\u201d tem sido usado para justificar pr\u00e1ticas de viol\u00eancia simb\u00f3lica disfar\u00e7adas de liberdade de express\u00e3o. Mas a Psicologia j\u00e1 sabe \u2014 e os consult\u00f3rios confirmam \u2014 que palavras t\u00eam poder. O riso que ridiculariza corpos, realidades e viv\u00eancias espec\u00edficas n\u00e3o liberta ningu\u00e9m: ele reafirma opress\u00f5es hist\u00f3ricas, reabre feridas e adoece subjetividades j\u00e1 fragilizadas. Quando uma plateia aplaude o esc\u00e1rnio contra crian\u00e7as com hidrocefalia, por exemplo, ela valida o preconceito e legitima o desprezo pelo sofrimento humano. Isso n\u00e3o \u00e9 liberdade. Isso \u00e9 crueldade socialmente aceita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sa\u00fade mental de pessoas com defici\u00eancia, de pessoas racializadas ou que vivem situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade j\u00e1 est\u00e1 sob amea\u00e7a constante em uma sociedade excludente. O humor que refor\u00e7a estigmas atua como gatilho de dor ps\u00edquica, refor\u00e7ando sentimentos de inadequa\u00e7\u00e3o, vergonha e desamparo. O psicanalista Contardo Calligaris escreveu certa vez que o humor genu\u00edno \u201crevela contradi\u00e7\u00f5es, mas jamais humilha\u201d. H\u00e1, portanto, uma diferen\u00e7a profunda entre provocar reflex\u00e3o e promover o esc\u00e1rnio. A com\u00e9dia que bate em quem j\u00e1 est\u00e1 ca\u00eddo n\u00e3o \u00e9 arte: \u00e9 covardia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso reconhecer que vivemos em uma era em que o \u00f3dio se traveste de ironia e a viol\u00eancia ganha curtidas sob a desculpa da autenticidade. E esse cen\u00e1rio se agrava com as redes sociais, onde v\u00eddeos como os de Leo Lins viralizam, ampliando a exposi\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas e refor\u00e7ando uma cultura de zombaria que isola, adoece e exclui. Muitos adolescentes, por exemplo, s\u00e3o alvo constante de bullying digital que imita esses modelos \u201chumor\u00edsticos\u201d, naturalizando agress\u00f5es verbais, racismo e capacitismo em nome do riso. O dano psicol\u00f3gico, nesses casos, \u00e9 imenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Psicologia nos ensina que o sofrimento precisa de acolhimento, n\u00e3o de piada. Que o trauma n\u00e3o \u00e9 amenizado pelo riso da plateia. E que rir da dor do outro \u00e9 um dos atos mais violentos e desumanizadores que existem. Um pa\u00eds que permite esse tipo de humor sem responsabiliza\u00e7\u00e3o contribui para o aumento da dor ps\u00edquica de grupos j\u00e1 vulner\u00e1veis e abre espa\u00e7o para a legitima\u00e7\u00e3o da crueldade como espet\u00e1culo. N\u00e3o se trata de censura, mas de responsabilidade \u00e9tica e emp\u00e1tica diante da vida do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Coluna Sa\u00fade do Portal Som de Papo n\u00e3o pode se calar diante desse tipo de \u201chumor\u201d que machuca. Falar sobre o impacto do riso t\u00f3xico \u00e9 tamb\u00e9m lutar por uma sociedade mais justa e mentalmente saud\u00e1vel. Porque o riso que oprime n\u00e3o \u00e9 leveza \u2014 \u00e9 viol\u00eancia disfar\u00e7ada. E quem j\u00e1 sofre, quem luta para existir com dignidade, n\u00e3o pode mais ser usado como alvo f\u00e1cil de um palco constru\u00eddo sobre o sil\u00eancio da empatia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Roberto Reis \u00e9 psic\u00f3logo cl\u00ednico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental e idealizador da Longevos Psicologia, uma cl\u00ednica voltada para o cuidado da sa\u00fade mental e longevidade. Graduado em Psicologia pela Universidade Cat\u00f3lica do Salvador (UCSAL), Paulo \u00e9 tamb\u00e9m mestrando em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, \u00e9 p\u00f3s-graduado em Gerontologia, Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia. Al\u00e9m de sua pr\u00e1tica cl\u00ednica, Paulo \u00e9 colunista do Portal Som de Papo, onde escreve sobre sa\u00fade mental aos domingos, contribuindo com informa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre o bem-estar psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagem: emoji triste, chorando. Autoria desconhecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dr. Paulo Roberto Reis Psic\u00f3logo Cl\u00ednico &nbsp; O caso do humorista Leo Lins, amplamente repercutido nas redes e na imprensa, acende um alerta importante que vai muito al\u00e9m dos limites do palco. 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