{"id":42818,"date":"2025-06-17T09:21:52","date_gmt":"2025-06-17T12:21:52","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=42818"},"modified":"2025-06-17T09:21:52","modified_gmt":"2025-06-17T12:21:52","slug":"fogueira-morna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/fogueira-morna\/","title":{"rendered":"Fogueira Morna"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Eneida Roberta Lima&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo \u00e9 um mist\u00e9rio que assovia no vento, dan\u00e7a entre os estalos da lenha e se embara\u00e7a nos passos do forr\u00f3. Meu av\u00f4, An\u00edsio Hon\u00f3rio, j\u00e1 dizia \u2014 com aquele olhar que atravessava d\u00e9cadas e desertos \u2014 que o tempo andava apressado demais. \u201cA fogueira nem mornou e j\u00e1 \u00e9 S\u00e3o Jo\u00e3o de novo, minha fia.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">An\u00edsio n\u00e3o falava s\u00f3 de datas, falava de alma. Era caatingueiro. Homem do cerrado. Do tempo em que o c\u00e9u ainda guiava os homens e o cora\u00e7\u00e3o se media pelo compasso do vento e da f\u00e9. Sabia das esta\u00e7\u00f5es pelo cheiro da terra molhada, pelo canto do galo, pelo sil\u00eancio do sert\u00e3o. E sabia do tempo olhando as estrelas, como quem decifra poesia antiga escrita no c\u00e9u.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o, pra ele, era mais que um festejo. Era a renova\u00e7\u00e3o do sagrado. A comunh\u00e3o dos vivos com os que partiram. A mem\u00f3ria acesa nas brasas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando era menino, dizia que o S\u00e3o Jo\u00e3o era a melhor \u00e9poca da vida dele. Se enchia de alegria com os bal\u00f5es no c\u00e9u, o milho cozido na palha, o riso espalhado no terreiro\u2026 e se alegrava ainda mais quando tinha uma nega sabor\u00f3 pra dan\u00e7ar forr\u00f3 at\u00e9 as pernas cansarem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quando a festa acabava, a saudade chegava ligeira, batendo no peito com gosto de aus\u00eancia. \u201cPai, quando \u00e9 que vai ser S\u00e3o Jo\u00e3o de novo?\u201d perguntava ele. E o pai dele \u2014 meu bozav\u00f4 Gustavo \u2014 respondia com paci\u00eancia: \u201cVai demorar, meu fio\u2026\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, dizia meu v\u00f4, n\u00e3o demora mais nada. O tempo voa, escorre, escapa. A fogueira nem mornou\u2026 e j\u00e1 passou. O mundo anda ligeiro demais pra quem foi criado no passo do boi e no sil\u00eancio do sert\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mesmo com toda essa sabedoria do ch\u00e3o, meu av\u00f4 nunca teve vergonha de demonstrar o amor. Era um homem de bra\u00e7os abertos, de palavra doce, de abra\u00e7o inteiro. Um homem da terra que amava com grandeza, com liberdade, com entrega. Um homem que olhava nos olhos e dizia \u201ceu te amo\u201d como quem planta raiz. Porque no sert\u00e3o, amor tamb\u00e9m \u00e9 verbo forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se meu av\u00f4 era o fogo da festa, minha av\u00f3 era o ch\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edith Lima n\u00e3o era mulher de arraial. Era mulher de alicerce. Mulher de f\u00e9, de for\u00e7a, de panela no fogo e voz firme no comando. Para ela, S\u00e3o Jo\u00e3o era a casa dela. Era preparar a ab\u00f3bora pra Beninha, a farofa pra Rosinha, a leitoa assada pro fiin. Era cuidar dos detalhes, um a um, como quem borda uma hist\u00f3ria no pano da eternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha av\u00f3 tinha um jeito pr\u00f3prio de agradar cada neto. E da forma dela, conseguia alcan\u00e7ar os 24 netos que existiam na minha inf\u00e2ncia. Cada um se sentia visto, acolhido, lembrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela era dura nas opini\u00f5es, forte na personalidade, mas doce nos gestos. Foi com ela que aprendi muito sobre uma casa. E ela sempre dizia:<\/p>\n<p>\u201cUm dia, minha fia, tu vai precisar disso.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E precisou. Porque a vida pede tudo. Pede trabalho, pede f\u00e9, pede resili\u00eancia, pede ternura. A vida n\u00e3o permite que a gente escolha s\u00f3 uma parte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha av\u00f3 me ensinou o valor da completude. Do que \u00e9 simples e do que \u00e9 essencial. E S\u00e3o Jo\u00e3o, na minha casa, era isso: o brilho nos olhos do meu av\u00f4\u2026 e o cuidado silencioso da minha av\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os anos, eu ia na gruta da Mangabeira, acender uma vela de sete dias, em agradecimento por tudo o que havia vivido. E minha av\u00f3 sempre repetia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMinha fia, se acender uma vela de sete dias, tem que passar sete dias velando ela.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E toda vez que ela falava isso, a gente ria juntas. R\u00edamos como quem partilha segredo, como quem sabe que, ali, mora uma eternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha av\u00f3 era casa. Era retorno. Era morada. Era seguran\u00e7a. Era a b\u00ean\u00e7\u00e3o que eu buscava em todos os momentos. Eu ligava e dizia:<\/p>\n<p>\u201cBen\u00e7a, v\u00f3.\u201d<\/p>\n<p>E ela respondia com a firmeza da f\u00e9:<\/p>\n<p>\u201cDeus te aben\u00e7oe, Rosinha\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eneida Roberta Lima&nbsp; &nbsp; O tempo \u00e9 um mist\u00e9rio que assovia no vento, dan\u00e7a entre os estalos da lenha e se embara\u00e7a nos passos do forr\u00f3. 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