{"id":43019,"date":"2025-07-04T09:50:29","date_gmt":"2025-07-04T12:50:29","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=43019"},"modified":"2025-07-04T09:50:29","modified_gmt":"2025-07-04T12:50:29","slug":"a-economia-invisivel-do-cuidado-o-silencio-quer-sustenta-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-economia-invisivel-do-cuidado-o-silencio-quer-sustenta-o-mundo\/","title":{"rendered":"A economia invis\u00edvel do cuidado: o sil\u00eancio quer sustenta o mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Eneida Bonza<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o mundo corre, apressado em suas reuni\u00f5es, metas e entregas, h\u00e1 um tipo de trabalho que n\u00e3o se registra em ponto eletr\u00f4nico, nem aparece nas colunas do PIB \u2014 mas que sustenta a base da economia real. \u00c9 o trabalho de cuidar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cuidar \u00e9 preparar o caf\u00e9 enquanto o outro dorme. \u00c9 atender o choro no meio da noite. \u00c9 acompanhar o idoso ao m\u00e9dico. \u00c9 reorganizar a vida quando uma crian\u00e7a adoece. \u00c9 segurar o mundo com as m\u00e3os, mesmo que o mundo n\u00e3o veja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, esse trabalho n\u00e3o \u00e9 gratuito \u2014 ele apenas n\u00e3o \u00e9 pago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a Oxfam, mulheres e meninas no mundo dedicam diariamente mais de 12,5 bilh\u00f5es de horas a cuidados n\u00e3o remunerados. Se fossem pagas com um sal\u00e1rio-m\u00ednimo por hora, isso equivaleria a US$\u202f10,8 trilh\u00f5es por ano \u2014 mais que tr\u00eas vezes o valor do mercado global de tecnologia. Uma cifra colossal sustentada por afeto, obriga\u00e7\u00e3o, desigualdade e sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o cen\u00e1rio \u00e9 igualmente gritante e silencioso. Em m\u00e9dia, mulheres gastam mais que o triplo do tempo dos homens em atividades dom\u00e9sticas e de cuidado. O IBGE aponta que essa diferen\u00e7a \u00e9 de 21,4 horas semanais para elas contra 11 horas para eles. Um fardo invis\u00edvel que impede o avan\u00e7o profissional, o descanso e at\u00e9 o direito de existir para al\u00e9m do servi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado \u00e9 que 42% das mulheres em idade produtiva n\u00e3o conseguem ingressar no mercado formal de trabalho por estarem sobrecarregadas com cuidados familiares \u2014 um n\u00famero seis vezes maior que o dos homens. Isso n\u00e3o \u00e9 acaso. \u00c9 sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa economia invis\u00edvel representa uma parte significativa da riqueza que circula no pa\u00eds, embora n\u00e3o esteja nas planilhas dos minist\u00e9rios. Estudos do PNUD e da Cepal indicam que, na Am\u00e9rica Latina, o trabalho dom\u00e9stico e de cuidado equivale a entre 21% e 24% do PIB. Um valor maior que o de muitos setores formais da economia, mas que segue oculto sob o v\u00e9u do \u201cnatural\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque quando o cuidado \u00e9 feito por amor, a sociedade entende que n\u00e3o precisa ser pago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas amor e explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cuidar \u00e9 sagrado. Mas romantizar o sacrif\u00edcio de mulheres \u2014 m\u00e3es, filhas, esposas, irm\u00e3s \u2014 \u00e9 perpetuar uma estrutura que adoece. O corpo feminino vem sendo h\u00e1 s\u00e9culos o templo do esfor\u00e7o silencioso, da ren\u00fancia n\u00e3o escolhida, da exaust\u00e3o invisibilizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aus\u00eancia de creches, centros de apoio a idosos, licen\u00e7as parentais igualit\u00e1rias e pol\u00edticas p\u00fablicas estruturadas n\u00e3o \u00e9 uma falha ocasional. \u00c9 um reflexo direto da invisibilidade dessa economia. O cuidado n\u00e3o entra nos c\u00e1lculos porque quem cuida raramente \u00e9 ouvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, pa\u00edses que reconheceram e integraram a economia do cuidado \u00e0s suas pol\u00edticas t\u00eam colhido frutos de maior equidade e crescimento. Um estudo da McKinsey estimou que compensar legalmente esse trabalho adicionaria US$\u202f12 trilh\u00f5es ao PIB global \u2014 o equivalente \u00e0 economia da China em um ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 utopia. \u00c9 urg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cuidado precisa deixar de ser um dom privado e se tornar uma responsabilidade coletiva. Um compromisso social. Porque s\u00f3 haver\u00e1 rede de apoio quando houver reconhecimento. E s\u00f3 haver\u00e1 reconhecimento quando a sociedade inteira enxergar que, por tr\u00e1s de cada profissional produtivo, existe algu\u00e9m que cuidou para que ele pudesse produzir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pessoa, quase sempre, \u00e9 uma mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que sigamos, ent\u00e3o, com o compromisso de tornar vis\u00edvel o que por tempo demais foi ignorado. Porque a verdadeira transforma\u00e7\u00e3o social come\u00e7a na base. E a base \u00e9 quem cuida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se essa reflex\u00e3o tocou voc\u00ea, te convido a continuar a jornada comigo no integram @eneidabonanza, onde trago temas como esse com o olhar da sa\u00fade humanizada&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eneida Bonza &nbsp; Enquanto o mundo corre, apressado em suas reuni\u00f5es, metas e entregas, h\u00e1 um tipo de trabalho que n\u00e3o se registra em ponto eletr\u00f4nico, nem aparece nas colunas do PIB \u2014 mas que sustenta a base da economia real. \u00c9 o trabalho de cuidar. 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