{"id":43248,"date":"2025-07-21T07:52:04","date_gmt":"2025-07-21T10:52:04","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=43248"},"modified":"2025-07-21T10:58:49","modified_gmt":"2025-07-21T13:58:49","slug":"dissidencia-historia-e-cisheteronorma-estariamos-hoje-reinventando-o-genero-ou-apenas-recuperando-o-que-foi-apagado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/dissidencia-historia-e-cisheteronorma-estariamos-hoje-reinventando-o-genero-ou-apenas-recuperando-o-que-foi-apagado\/","title":{"rendered":"Dissid\u00eancia, hist\u00f3ria e cisheteronorma: estariamos hoje reinventando o g\u00eanero,  ou apenas recuperando o que foi apagado?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Eduardo Marques, Psic\u00f3logo Cl\u00ednico e Pesquisador.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Instagram: @edumarquespsi<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje em dia, muito se discute acerca da influ\u00eancia das redes sociais, das comunidades online e da rela\u00e7\u00e3o com o aumento das demandas por transi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Temos, inclusive, uma tentativa, dentro do Conselho Federal de Medicina, de reduzir o alcance da popula\u00e7\u00e3o trans a direitos conquistados por meio da milit\u00e2ncia e de reivindica\u00e7\u00f5es legais perante a sociedade civil, atrav\u00e9s da limita\u00e7\u00e3o do acesso a bloqueadores hormonais e do aumento da idade requerida para realiza\u00e7\u00e3o de procedimentos cir\u00fargicos e hormonais de afirma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa discuss\u00e3o, no entanto, remonta a muito tempo. A transfobia estrutural que vivenciamos hoje \u00e9 um desdobramento do que Michel Foucault conceitua como biopoder. O fil\u00f3sofo franc\u00eas aponta a funcionalidade presente no pensamento dualista da divis\u00e3o entre os sexos. A chamada perspectiva naturalista ou cientificista, ancorada em uma cosmovis\u00e3o eurocrist\u00e3, opera como t\u00e9cnica de governo ao normatizar os comportamentos sexuais das massas, visando \u00e0 reprodutibilidade e ao aumento populacional. Mas, afinal, o que isso tem a ver com o que vivemos hoje? Bom\u2026 tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com essa l\u00f3gica, a divis\u00e3o dicot\u00f4mica entre feminino e masculino estabelece-se, tanto em Foucault quanto em Butler, como um dispositivo de hierarquiza\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es subjetivas e das experi\u00eancias sociais, atravessadas pelo lugar do corpo \u2014 este que se constitui como um territ\u00f3rio profundamente pol\u00edtico. Soma-se a isso a valoriza\u00e7\u00e3o de certos saberes, como o biom\u00e9dico, posicionado no topo de uma cadeia hier\u00e1rquica que estrutura a produ\u00e7\u00e3o de verdade. O saber-poder, nesse caso, se concentra em uma elite que manipula discursos, regula corpos e perpetua desigualdades hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao observarmos a persegui\u00e7\u00e3o a pessoas que escapam \u00e0 cisheteronorma \u2014 especialmente no campo pol\u00edtico e no imagin\u00e1rio social brasileiro \u2014, compreendemos, a partir dessa leitura, que as narrativas que buscam patologizar essas exist\u00eancias funcionam como mecanismos de manuten\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1tica necropol\u00edtica de exterm\u00ednio e apagamento. Segundo a ANTRA (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais), pelo 18\u00ba ano consecutivo o Brasil ocupa o 1\u00ba lugar mundial em assassinatos de pessoas trans. Ao mesmo tempo, figura entre os pa\u00edses com os maiores \u00edndices de consumo de pornografia com essa popula\u00e7\u00e3o. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 brutal assim como reveladora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fundamental, nesse debate, reconhecer tamb\u00e9m que o binarismo de g\u00eanero n\u00e3o foi uma constante hist\u00f3rica ou universal nas formas de organiza\u00e7\u00e3o social no Brasil. Popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias possuem repert\u00f3rios culturais nos quais o corpo, o desejo e a identidade n\u00e3o obedecem a uma l\u00f3gica dual. O antrop\u00f3logo Rafael Estev\u00e3o Fernandes, em seu livro Existe \u00cdndio Gay? A coloniza\u00e7\u00e3o das sexualidades ind\u00edgenas no Brasil, revela que o comportamento sexual e social de povos ind\u00edgenas pr\u00e9-coloniais n\u00e3o se restringia a uma representa\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria das possibilidades de g\u00eanero, pr\u00e1ticas sexuais ou pap\u00e9is sociais. Fernandes demonstra que muitas dessas viv\u00eancias, se lidas fora da l\u00f3gica anacr\u00f4nica ocidental, poderiam ser compreendidas hoje como express\u00f5es leg\u00edtimas de dissid\u00eancia sexual e de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao discutir as narrativas hegem\u00f4nicas sobre esses corpos e exist\u00eancias, Fernandes resgata tamb\u00e9m uma lenda tupi: o mito de Tibira e Nhander\u00fa. Nele, Tibira, um homem que se apaixona por outro homem, engravida e \u00e9 acolhido por Nhander\u00fa, que o presenteia com um reino para ele e seus filhos. Esse mito, presente em algumas tradi\u00e7\u00f5es, atua como um referencial simb\u00f3lico e afirmativo para aqueles que se identificam com essa hist\u00f3ria \u2014 em contraste com a tradi\u00e7\u00e3o eurocrist\u00e3, que historicamente desloca tais experi\u00eancias para o lugar do \u201cOutro\u201d, do abjeto, do inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise tamb\u00e9m tem algo a dizer sobre essa posi\u00e7\u00e3o de alteridade radical. O conceito de Das Unheimliche (o infamiliar ou o estranho), desenvolvido por Freud, refere-se \u00e0quilo que \u00e9, ao mesmo tempo, \u00edntimo e inquietante \u2014 familiar e, paradoxalmente, assustador. Trata-se da nega\u00e7\u00e3o de algo que \u00e9 pr\u00f3prio, mas que retorna como estrangeiro. \u00c9 exatamente esse o lugar que a cisheteronorma reserva \u00e0s dissid\u00eancias: o lugar do estranho familiar, do sujeito que amea\u00e7a a ordem por lembrar aquilo que o sujeito normativo insiste em reprimir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de tudo isso, volto \u00e0 pergunta proposta no t\u00edtulo deste texto: estar\u00edamos hoje reinventando o g\u00eanero com as novas nomenclaturas e express\u00f5es LGBTQIAPN+, ou apenas recuperando, com dor e coragem, o que foi sistematicamente apagado pelo coloniais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ANTRA \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais. (2024). Dossi\u00ea dos assassinatos e viol\u00eancias contra travestis e transexuais brasileiras em 2023. https:\/\/antrabrasil.org\/<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Butler, J. (2003). Problemas de g\u00eanero: Feminismo e subvers\u00e3o da identidade (T. M. dos Santos, Trad.). Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. (Obra original publicada em 1990)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernandes, R. E. (2021). Existe \u00edndio gay?: A coloniza\u00e7\u00e3o das sexualidades ind\u00edgenas no Brasil. P\u00f3len Livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foucault, M. (1976). Hist\u00f3ria da sexualidade I: A vontade de saber (M. A. Galv\u00e3o, Trad.). Graal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud, S. (1919). O infamiliar (Das Unheimliche). In Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XVII). Imago. (Trabalho original publicado em 1919)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mbembe, A. (2018). Necropol\u00edtica (Renata Santini, Trad.). N-1 Edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagem gerada por intelig\u00eancia artificial. Criada com ChatGPT da OpenAI (modelo DALL\u00b7E). https:\/\/chat.openai.com\/<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eduardo Marques, Psic\u00f3logo Cl\u00ednico e Pesquisador. Instagram: @edumarquespsi &nbsp; Hoje em dia, muito se discute acerca da influ\u00eancia das redes sociais, das comunidades online e da rela\u00e7\u00e3o com o aumento das demandas por transi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. 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