{"id":43540,"date":"2025-08-15T09:17:36","date_gmt":"2025-08-15T12:17:36","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=43540"},"modified":"2025-08-15T09:17:36","modified_gmt":"2025-08-15T12:17:36","slug":"adultizacao-censura-e-neoliberalismo-seria-o-mundo-virtual-a-propria-realidade-sob-disfarce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/adultizacao-censura-e-neoliberalismo-seria-o-mundo-virtual-a-propria-realidade-sob-disfarce\/","title":{"rendered":"Adultiza\u00e7\u00e3o, censura e neoliberalismo: seria o mundo virtual a pr\u00f3pria realidade sob disfarce?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Eduardo Marques, Psic\u00f3logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@edumarquespsi<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos dias, viralizou um v\u00eddeo do influenciador Felca nas redes sociais, no qual o autor discorre acerca da adultiza\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia nas redes sociais, apontando as \u201cfalhas\u201d na matrix do algoritmo que permitem que ped\u00f3filos acessem e criem redes de distribui\u00e7\u00e3o e consumo de pornografia infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, seriam esses elementos realmente falhas, ou ser\u00e1 que o algoritmo \u00e9 programado para tal? O que foi mostrado no v\u00eddeo \u00e9 a facilidade com a qual a inf\u00e2ncia pode ser explorada atrav\u00e9s das redes, tanto por pessoas mal-intencionadas quanto por pessoas que afirmam desejar o bem da crian\u00e7a em quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As plataformas utilizadas para publica\u00e7\u00f5es de conte\u00fado como Instagram, YouTube e TikTok s\u00e3o, para al\u00e9m de um espa\u00e7o de conex\u00e3o e vincula\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o de consumo e explora\u00e7\u00e3o \u2014 um mercado da aten\u00e7\u00e3o, para definir em poucas palavras. Cada segundo consumido conta. E, de quebra, temos um alcance de p\u00fablicos variad\u00edssimos e, mais importante, an\u00f4nimos. Ou seja: direitos de imagem? Um clique de dist\u00e2ncia de ser s\u00f3 mais um conceito. \u00c9tica na utiliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fado? Uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade tem se encontrado em um estado de adoecimento em massa t\u00e3o grave, que nem percebemos o quanto um post que pode vir a viralizar representa um grande risco para uma crian\u00e7a que ainda est\u00e1 em fase de desenvolvimento cognitivo, social, identit\u00e1rio. E, para al\u00e9m disso, temos uma tend\u00eancia a valorizar a fama vinda dessa exposi\u00e7\u00e3o \u2014 estar nesse lugar gera uma fantasia no imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o, tornando-se um objeto de desejo: almejar estar exposto e visto perante os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessa perspectiva, temos tamb\u00e9m o advento dos \u201cmicroempreendedores\u201d \u2014 termo que chistosamente emprego para falar dos influenciadores mirins e personalidades da internet que s\u00e3o menores de idade. N\u00e3o creio que a exist\u00eancia de um mercado para esse produto seja surpresa para ningu\u00e9m. No entanto, se faz necess\u00e1rio relembrar que trabalho infantil segue sendo contra a lei no Brasil e que ser uma pessoa p\u00fablica, um influencer, se constitui hoje como ocupa\u00e7\u00e3o, sendo o trabalho de muitas pessoas na atualidade. Isso \u00e9 ainda mais grave quando consideramos que a manuten\u00e7\u00e3o de um canal, perfil ou p\u00e1gina online depende diretamente de engajamento e da monetiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, como citei previamente, assim com do manejo parental na grande maioria dos casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa engrenagem n\u00e3o funciona dessa maneira por acidente \u2014 ela \u00e9 parte de um modelo neoliberal em que tudo se torna mercadoria, inclusive a inf\u00e2ncia. A l\u00f3gica do mercado da aten\u00e7\u00e3o treina desde cedo crian\u00e7as e adolescentes para performarem vers\u00f5es \u201cvend\u00e1veis\u201d de si mesmos, transformando likes e visualiza\u00e7\u00f5es em moeda social e, muitas vezes, em fonte de renda. Nesse cen\u00e1rio, a chamada \u201ccensura\u201d das redes \u00e9 seletiva: remove rapidamente conte\u00fados que amea\u00e7am interesses corporativos, mas \u00e9 lenta e ineficaz diante de crimes que ferem diretamente a dignidade humana. Enquanto isso, a hiperexposi\u00e7\u00e3o corr\u00f3i a sa\u00fade mental coletiva, normalizando uma exist\u00eancia em que o valor pr\u00f3prio \u00e9 medido por m\u00e9tricas de engajamento e a esfera privada se dissolve em tempo real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ent\u00e3o entramos com outra parte da discuss\u00e3o: a quem serve esse anonimato? A quem serve a impossibilidade de puni\u00e7\u00e3o por crimes como pedofilia, misoginia, racismo, LGBTfobia etc.? A quem os comete, n\u00e3o \u00e9? A no\u00e7\u00e3o de liberdade de express\u00e3o disseminada no discurso contra a regulamenta\u00e7\u00e3o das redes \u00e9 pautada em uma realidade americana, onde a lei n\u00e3o protege as pessoas de discursos e atos de \u00f3dio, onde ser racista com algu\u00e9m se torna direito protegido por constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em vista que estamos no contexto brasileiro, onde h\u00e1 constitucionalmente uma prote\u00e7\u00e3o contra discursos e atos de \u00f3dio (principalmente os voltados para minorias), \u00e9 importante questionar: seria a regulamenta\u00e7\u00e3o das redes censura, ou um ato de soberania nacional, um dispositivo de manuten\u00e7\u00e3o e cumprimento da lei brasileira perante interesses das Big Techs?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A regulamenta\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m disso, representa uma forma de proteger a sa\u00fade mental e a integridade das pessoas que dessa rede desfrutam. O atual estado da internet representa, em termos bem simples, uma terra de ningu\u00e9m, na qual a moeda \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o \u2014 algo que pode afetar, a longo prazo, diversos aspectos da vida individual e coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o mundo virtual \u00e9 a pr\u00f3pria realidade sob disfarce, talvez o maior truque tenha sido nos convencer de que estamos no controle. A verdade \u00e9 que, enquanto discutimos se a regulamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 censura ou prote\u00e7\u00e3o, vidas \u2014 especialmente as mais jovens \u2014 continuam sendo exploradas como mat\u00e9ria-prima desse grande mercado da aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de atualizar leis ou algoritmos, mas de repensar o tipo de sociedade que queremos ser quando a c\u00e2mera est\u00e1 desligada. Porque, no fim, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a liberdade de express\u00e3o, mas a liberdade de existir fora da l\u00f3gica que transforma tudo \u2014 e todos \u2014 em produto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eduardo Marques, Psic\u00f3logo. @edumarquespsi &nbsp; Nos \u00faltimos dias, viralizou um v\u00eddeo do influenciador Felca nas redes sociais, no qual o autor discorre acerca da adultiza\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia nas redes sociais, apontando as \u201cfalhas\u201d na matrix do algoritmo que permitem que ped\u00f3filos acessem e criem redes de distribui\u00e7\u00e3o e consumo de pornografia infantil. 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