{"id":44095,"date":"2025-09-19T11:39:19","date_gmt":"2025-09-19T14:39:19","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=44095"},"modified":"2025-09-19T11:39:34","modified_gmt":"2025-09-19T14:39:34","slug":"luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/luto\/","title":{"rendered":"Luto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Eduardo Marques, psicologo CRP03\/32029<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@edumarquespsi<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O luto \u00e9 um processo que ocorre para todos em diferentes momentos e circunst\u00e2ncias \u00fanicas. No entanto, ele se apresenta sempre pela promessa distante de um destino comum. Por mais distante que a perda possa parecer, esse momento de nossas vidas se manifesta de forma atemporal, mesmo que em alguns instantes se torne mais vis\u00edvel para a consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vazio, euforia, desconex\u00e3o, tristeza, falta&#8230; algumas das palavras que podem descrever um processo de luto. \u00c9 um processo amb\u00edguo, confuso e real, que pode ser tanto antecipado quanto p\u00f3stumo, aplicando-se igualmente a momentos de perda de um ente querido em vida, como a uma antecipa\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 comum buscarmos orienta\u00e7\u00e3o nos conhecidos &#8220;est\u00e1gios do luto&#8221; &#8211; nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o &#8211; como se fossem um mapa para navegar pela perda. Mas \u00e9 crucial entendermos: esses est\u00e1gios n\u00e3o s\u00e3o uma escada linear a ser subida, muito menos uma receita com tempo determinado. S\u00e3o antes ondas que v\u00eam e voltam, \u00e0s vezes se sobrepondo, outras vezes dando a ilus\u00e3o de que retrocedemos. A nega\u00e7\u00e3o pode nos visitar meses depois de acharmos que a t\u00ednhamos superado; a raiva pode surgir onde esper\u00e1vamos resigna\u00e7\u00e3o. A aceita\u00e7\u00e3o, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 um ponto final, mas um porto do qual \u00e0s vezes nos afastamos para depois voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O luto antecipado, t\u00e3o elusivo quanto o n\u00e3o classificado, pode se construir a partir de uma perda gradual de algu\u00e9m que sofre de alguma doen\u00e7a cr\u00f4nica ou degenerativa, da mesma forma que pode emergir de uma situa\u00e7\u00e3o completamente fantasiosa, trazendo uma caracter\u00edstica interessante: a dissolu\u00e7\u00e3o de uma representa\u00e7\u00e3o da pessoa perdida. Em outras palavras, uma perda de quem a pessoa fora outrora, ou de quem o sujeito enlutado atribu\u00eda ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 justamente nessa n\u00e3o-linearidade que alguns de n\u00f3s podemos encontrar uma experi\u00eancia particularmente desafiadora: a paralisia perante a perda. N\u00e3o \u00e9 raro que o luto se manifeste como uma impossibilidade de seguir adiante &#8211; um congelamento do tempo interno, onde at\u00e9 as tarefas mais simples parecem intranspon\u00edveis. O mundo continua girando, mas para quem est\u00e1 paralisado, h\u00e1 uma desconex\u00e3o profunda com o movimento da vida. Esse estado n\u00e3o \u00e9 sinal de fraqueza: \u00e9 o psiquismo dizendo que precisa de tempo para assimilar o inassimil\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua diversidade, o luto nos ensina sobre tempo, cura e perda. Em termos de an\u00e1lise cl\u00ednica, nunca se consegue mensurar o que aquele Outro representou para quem perde, algo que podemos apenas imaginar e aproximar de uma ideia quantitativa. No entanto, h\u00e1 a possibilidade de se classificar a experi\u00eancia de perda como algo que indique um processo de luto estendido, algo que excede o per\u00edodo estimado de processamento da perda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em alguns manuais diagn\u00f3sticos \u00e9 poss\u00edvel encontrar essa descri\u00e7\u00e3o, mas como tratar uma dor que n\u00e3o apresenta objeto de queixa, uma dor na qual a pr\u00f3pria queixa \u00e9 um objeto perdido? A fala \u00e9 um caminho, claro, assim como outras formas de catarse, mas onde est\u00e1 a linha entre o patol\u00f3gico e o subjetivo? O que determina um processo de luto como fator pass\u00edvel de medicaliza\u00e7\u00e3o e diagn\u00f3stico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se me permitem aprofundar a reflex\u00e3o, gostaria de questionar essa mesma linha t\u00eanue. A medicaliza\u00e7\u00e3o do sofrimento surge como resposta a uma sociedade que perdeu a capacidade de acolher a dor alheia em seu tempo pr\u00f3prio. Quando transformamos luto em transtorno, corremos o risco de negar o trabalho ps\u00edquico fundamental que a perda exige: o de reconfigurar nossa exist\u00eancia em torno da aus\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de negar a exist\u00eancia de casos que demandem interven\u00e7\u00e3o &#8211; h\u00e1 paralisa\u00e7\u00f5es que precisam de apoio especializado. Mas a pergunta que fica \u00e9: apoiar para qu\u00ea? Para eliminar a dolor ou para capacitar o sujeito a carregar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria? O verdadeiro trabalho do luto n\u00e3o \u00e9 superar, mas integrar. N\u00e3o \u00e9 esquecer, mas aprender a lembrar sem se despeda\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cura, quando falamos de luto, talvez seja mais sobre ressignifica\u00e7\u00e3o do que sobre elimina\u00e7\u00e3o de sintomas. \u00c9 sobre encontrar um lugar para a saudade que n\u00e3o impe\u00e7a o novo de acontecer. \u00c9 a coragem de continuar existindo quando fazer sentido parece imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psicologia n\u00e3o deveria oferecer prazos ou roteiros, mas sim acompanhar cada travessia em seu tempo \u00fanico. Pois o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 cumprir etapas, mas revisitar mem\u00f3rias, ressignificar exist\u00eancias e &#8211; principalmente &#8211; aprender a viver com o que ficou para tr\u00e1s e com o que ainda pode vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eduardo Marques, psicologo CRP03\/32029 @edumarquespsi &nbsp; O luto \u00e9 um processo que ocorre para todos em diferentes momentos e circunst\u00e2ncias \u00fanicas. No entanto, ele se apresenta sempre pela promessa distante de um destino comum. 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