{"id":48842,"date":"2026-05-08T04:55:37","date_gmt":"2026-05-08T07:55:37","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=48842"},"modified":"2026-05-02T21:49:54","modified_gmt":"2026-05-03T00:49:54","slug":"a-mae-que-prepara-para-a-vida-um-olhar-arquitetipico-sobre-o-conto-de-vasalisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-mae-que-prepara-para-a-vida-um-olhar-arquitetipico-sobre-o-conto-de-vasalisa\/","title":{"rendered":"A m\u00e3e que prepara para a vida: um olhar arquitetipico sobre o conto de Vasalisa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Instagram:@biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">YouTube: @biaterapeuta929&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da leitura de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Est\u00e9s, o arqu\u00e9tipo materno revela que amar tamb\u00e9m \u00e9 ensinar a atravessar a floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pensamos na figura da m\u00e3e, quase sempre a primeira imagem que surge \u00e9 a do acolhimento: o colo, a prote\u00e7\u00e3o, o cuidado, a presen\u00e7a que conforta. Mas, no campo simb\u00f3lico e arquet\u00edpico, a fun\u00e7\u00e3o materna vai al\u00e9m desse lugar de abrigo. A m\u00e3e, em sua dimens\u00e3o mais profunda, n\u00e3o apenas protege a vida \u2014 ela prepara a vida para seguir. E \u00e9 justamente essa compreens\u00e3o que emerge com for\u00e7a no conto de Vasalisa, recontado por Clarissa Pinkola Est\u00e9s em Mulheres que Correm com os Lobos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No conto, antes de morrer, a m\u00e3e de Vasalisa entrega \u00e0 filha uma pequena boneca e orienta que ela a mantenha em segredo, a alimente e a consulte sempre que estiver perdida ou precisar de ajuda. Esse gesto, aparentemente simples, concentra uma das imagens mais poderosas da maternidade arquet\u00edpica: a transmiss\u00e3o de um recurso interno que continuar\u00e1 guiando a filha mesmo na aus\u00eancia da m\u00e3e concreta. A b\u00ean\u00e7\u00e3o materna, nesse sentido, n\u00e3o se reduz \u00e0 prote\u00e7\u00e3o imediata; ela se transforma em dire\u00e7\u00e3o interior, em presen\u00e7a ps\u00edquica, em for\u00e7a silenciosa capaz de sustentar a travessia da vida.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que a fun\u00e7\u00e3o arquet\u00edpica da m\u00e3e n\u00e3o pode ser entendida apenas como cuidado afetivo. Ela \u00e9 tamb\u00e9m inicia\u00e7\u00e3o. \u00c9 a m\u00e3e que ama o suficiente para nutrir, mas tamb\u00e9m para preparar. A m\u00e3e que n\u00e3o impede a entrada na floresta, mas deixa na filha aquilo que ser\u00e1 necess\u00e1rio para atravess\u00e1-la. Em vez de criar depend\u00eancia, ela fortalece o eixo. Em vez de aprisionar pelo medo, ela transmite discernimento, escuta e confian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na leitura simb\u00f3lica do conto, a boneca representa exatamente essa dimens\u00e3o interior da sabedoria. Em an\u00e1lise inspirada na obra da autora, ela aparece como uma esp\u00e9cie de \u201cpequena alma\u201d, uma presen\u00e7a \u00edntima ligada ao saber profundo, \u00e0 percep\u00e7\u00e3o instintiva e \u00e0 voz interior que orienta a filha em momentos decisivos. No entanto, est\u00e1 ben\u00e7\u00e3o na vida \u00e9 estendida a todos os filhos, independente de seu g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que um objeto m\u00e1gico, ela simboliza a intui\u00e7\u00e3o alimentada, cultivada e ouvida.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa imagem \u00e9 especialmente significativa porque desloca a ideia de maternidade de um papel exclusivamente externo para uma realidade ps\u00edquica mais ampla. Nem sempre a m\u00e3e arquet\u00edpica coincide com a m\u00e3e biol\u00f3gica ideal. Em muitas trajet\u00f3rias, essa fun\u00e7\u00e3o pode ser exercida por uma av\u00f3, uma tia, uma professora, uma terapeuta, uma mestra ou qualquer mulher que, em algum momento, ajude algu\u00e9m a reencontrar sua pr\u00f3pria voz interior. E, em outros casos, essa fun\u00e7\u00e3o precisa ser reconstru\u00edda dentro de si, sobretudo quando o materno vivido foi fr\u00e1gil, ausente ou ferido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao refletir sobre o conto, algumas leituras destacam uma passagem importante: chega um momento em que a \u201cm\u00e3e excessivamente protetora\u201d j\u00e1 n\u00e3o pode ser o centro orientador da vida instintiva futura. A jornada de amadurecimento exige que a personagem desenvolva sua pr\u00f3pria consci\u00eancia sobre o perigo, o discernimento e a sobreviv\u00eancia ps\u00edquica. Ou seja, a travessia pede a morte simb\u00f3lica de uma depend\u00eancia infantil para o nascimento de um(a) filho(a) capaz de confiar na pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 justamente a\u00ed que a grandeza da m\u00e3e arquet\u00edpica se revela. Seu amor n\u00e3o busca manter o outro pequeno para continuar sendo necess\u00e1rio. Seu amor n\u00e3o sufoca, n\u00e3o infantiliza, n\u00e3o se perpetua pelo controle. Ao contr\u00e1rio: sua for\u00e7a est\u00e1 em deixar sementes de autonomia, coragem e orienta\u00e7\u00e3o interna. A m\u00e3e arquet\u00edpica \u00e9 aquela que, mesmo na aus\u00eancia, continua presente como consci\u00eancia viva. Ela se torna mem\u00f3ria que protege, sabedoria que avisa, intui\u00e7\u00e3o que alerta, ternura que fortalece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No conto de Vasalisa, a menina s\u00f3 consegue seguir adiante porque foi iniciada nesse v\u00ednculo com sua pr\u00f3pria escuta interior. A boneca n\u00e3o substitui sua jornada, mas a ajuda a n\u00e3o se perder de si mesma. Essa \u00e9 uma imagem preciosa para pensar os v\u00ednculos maternos na vida real: m\u00e3es que n\u00e3o vivem no lugar dos filhos, mas os ajudam a desenvolver recursos para enfrentar o mundo com mais verdade e inteireza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez por isso esse conto toque algo t\u00e3o profundo em tantas mulheres, em especial as que j\u00e1 s\u00e3o m\u00e3es. Porque ele fala da passagem entre a menina que espera ser conduzida e a mulher que aprende a discernir por si. E nessa passagem, a imagem da m\u00e3e tamb\u00e9m se transforma: sai do lado de fora e passa a habitar dentro. O cuidado recebido, quando amadurecido, torna-se presen\u00e7a interior. A prote\u00e7\u00e3o se converte em consci\u00eancia. O amor, em raiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar da fun\u00e7\u00e3o arquet\u00edpica da m\u00e3e \u00e9, portanto, falar de um amor que n\u00e3o se mede apenas pelo quanto acolhe, mas tamb\u00e9m pelo quanto prepara. \u00c9 honrar a maternidade n\u00e3o s\u00f3 como abrigo, mas como b\u00ean\u00e7\u00e3o para a autonomia. N\u00e3o s\u00f3 como ternura, mas como transmiss\u00e3o de alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos em que tantas rela\u00e7\u00f5es oscilam entre a aus\u00eancia e o excesso, essa reflex\u00e3o nos convida a perguntar: o que o materno deixou em n\u00f3s? Medo ou confian\u00e7a? Depend\u00eancia ou eixo? Silenciamento ou escuta interior? E mais do que isso: como podemos cultivar em n\u00f3s essa boa m\u00e3e interna, capaz de acolher, orientar e fortalecer a pr\u00f3pria vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez essa seja uma das maiores heran\u00e7as do arqu\u00e9tipo materno: ensinar que o amor mais profundo n\u00e3o \u00e9 o que impede a travessia, mas o que acende uma chama para que possamos atravessar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bia Rossatti \u00e9 terapeuta familiar, autora e pesquisadora de temas ligados a relacionamentos interpessoais, ao feminino e masculino saud\u00e1veis, aos arqu\u00e9tipos, ao desenvolvimento humano e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sentido por meio da palavra. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada pelo compromisso com uma comunica\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, acess\u00edvel e transformadora, capaz de tocar quest\u00f5es contempor\u00e2neas com delicadeza, consist\u00eancia e densidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti Instagram:@biarossattiterapeuta YouTube: @biaterapeuta929&nbsp; &nbsp; A partir da leitura de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Est\u00e9s, o arqu\u00e9tipo materno revela que amar tamb\u00e9m \u00e9 ensinar a atravessar a floresta. 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