{"id":49616,"date":"2026-05-27T05:45:39","date_gmt":"2026-05-27T08:45:39","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=49616"},"modified":"2026-05-26T17:51:01","modified_gmt":"2026-05-26T20:51:01","slug":"todo-corpo-e-um-caminho-para-o-belo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/todo-corpo-e-um-caminho-para-o-belo\/","title":{"rendered":"Todo corpo \u00e9 um caminho para o Belo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Paula Silveira*<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Autor: Fabrizio Martins Tavoni \u00e9&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Doutorando em Educa\u00e7\u00e3o na Unicamp,&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFSCar,&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais pela UEL<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&nbsp;e \u00e9 naturista.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@fbrn_oficial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine um ser humano nu diante do mar. A luz toca a pele da mesma forma como toca a areia. O vento n\u00e3o distingue o corpo da paisagem. Por alguns segundos, a fronteira entre o que \u00e9 humano e o que \u00e9 natureza simplesmente desaparece&#8230; Assim como foi um dia&#8230; Assim como deveria ser desde sempre&#8230; por mil\u00eanios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem j\u00e1 teve essa experi\u00eancia sabe o quanto ela \u00e9 forte. H\u00e1 algo ali que vai al\u00e9m do conforto f\u00edsico ou da liberdade de n\u00e3o usar roupa. H\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha e am\u00e1vel de pertencimento, como se por um momento, voc\u00ea estivesse exatamente onde deveria estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fil\u00f3sofos gregos tinham um nome para esse instante. Chamavam de encontro com o Belo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o impulso de representar esse encontro \u00e9 muito mais antigo do que qualquer fil\u00f3sofo grego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 cerca de 25 mil anos, algu\u00e9m esculpiu em pedra calc\u00e1ria uma figura feminina de onze cent\u00edmetros, hoje conhecida como V\u00eanus de Willendorf, ou Mulher de Willendorf. N\u00e3o sabemos o nome de quem a fez, nem a inten\u00e7\u00e3o exata por tr\u00e1s do gesto. Sabemos apenas que o gesto aconteceu. E ele diz uma coisa enorme: o ser humano persegue o Belo desde sempre. Muito antes de ter palavras para isso. O impulso de pegar uma pedra e fazer dela um corpo parece ser t\u00e3o antigo quanto a pr\u00f3pria consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-49617\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-01.jpeg\" alt=\"\" width=\"732\" height=\"1140\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-01.jpeg 732w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-01-193x300.jpeg 193w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-01-658x1024.jpeg 658w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-01-150x234.jpeg 150w\" sizes=\"(max-width: 732px) 100vw, 732px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00eanus de Willendorf. Museu de Hist\u00f3ria Natural de Viena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O naturismo entende isso instintivamente. Antes de qualquer argumento filos\u00f3fico, h\u00e1 o simples reconhecimento de que o corpo humano, tal como veio ao mundo, j\u00e1 \u00e9 forma. J\u00e1 \u00e9 express\u00e3o. J\u00e1 \u00e9, em algum sentido que antecede a linguagem, Belo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Plat\u00e3o acreditava que o Belo n\u00e3o era uma opini\u00e3o. Era uma realidade t\u00e3o real quanto a Verdade e o Bem, as outras faces da tr\u00edade do absoluto. Quando nos deparamos com algo verdadeiramente Belo, n\u00e3o estamos tendo um gosto pessoal. Estamos reconhecendo algo. Como quem encontra, na n\u00e9voa, no lusco-fusco, uma forma que j\u00e1 conhecia sem saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso explica por que o naturismo, para quem o pratica com consci\u00eancia, tem uma dimens\u00e3o contemplativa. N\u00e3o se trata de exibicionismo. Trata-se de eliminar os intermedi\u00e1rios entre o ser humano e o mundo; quais sejam: a performance, a imagem, a armadura social que vestimos antes de sair de casa. O naturismo, em seu sentido mais fundo, \u00e9 um exerc\u00edcio de presen\u00e7a. E presen\u00e7a \u00e9 o come\u00e7o do caminho em dire\u00e7\u00e3o ao Belo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte grega cl\u00e1ssica levou esse caminho \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. O escultor Policleto, com o Dor\u00edforo, criou n\u00e3o um retrato, n\u00e3o uma est\u00e1tua, mas uma tese: o corpo nu tem uma l\u00f3gica, uma propor\u00e7\u00e3o, uma harmonia que pode ser descoberta e transmitida. Prax\u00edteles fez o mesmo pelo corpo feminino com a Afrodite de Cnido, a primeira escultura de nu feminino em tamanho natural da arte grega, que causou esc\u00e2ndalo imediato e fasc\u00ednio duradouro. O que um estabeleceu para o masculino, o outro reivindicou para o feminino, n\u00e3o sem resist\u00eancia. O naturismo conhece bem essa resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-49618\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-02.jpeg\" alt=\"\" width=\"611\" height=\"694\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-02.jpeg 611w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-02-264x300.jpeg 264w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-02-150x170.jpeg 150w\" sizes=\"(max-width: 611px) 100vw, 611px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 esquerda est\u00e1 o Dor\u00edforo, de Policleto (Museu de N\u00e1polis) e \u00e0 direita est\u00e1 a V\u00eanus de Cnido, de Prax\u00edteles (Museu do Vaticano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Renascimento voltou a esses mesmos corpos com olhos novos. Michelangelo, ao esculpir o Davi, retomava a conversa de Policleto dois mil anos depois: o ser humano, tal como veio ao mundo, \u00e9 grandioso. N\u00e3o precisou vesti-lo para torn\u00e1-lo poderoso. Precisou apenas revel\u00e1-lo. Botticelli, no Nascimento de V\u00eanus, lembrou que a beleza tem origem e que ela emerge como a deusa do mar, como a consci\u00eancia que desperta numa manh\u00e3 e percebe que o mundo \u00e9 Belo antes mesmo de ter um motivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-49619\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-03.jpeg\" alt=\"\" width=\"497\" height=\"614\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-03.jpeg 497w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-03-243x300.jpeg 243w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-03-150x185.jpeg 150w\" sizes=\"(max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 esquerda, o Davi de Michelangelo (Academia de Belas Artes de Floren\u00e7a) e \u00e0 direita o Nascimento de V\u00eanus, de Botticelli (Galeria Uffizi, Floren\u00e7a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Plat\u00e3o, no Banquete, descreve como o amor pelo Belo funciona. Come\u00e7a com um corpo. Mas quem persiste percebe que a beleza daquele corpo \u00e9 aparentada \u00e0 beleza de outros corpos, depois das almas, das ideias, das obras humanas, at\u00e9 chegar, enfim, ao Belo em si: eterno, que n\u00e3o envelhece, que n\u00e3o depende de luz favor\u00e1vel nem de \u00e2ngulo certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Policleto sabia disso. Prax\u00edteles tamb\u00e9m. E Michelangelo, e Botticelli, todos passaram a vida tentando capturar em pedra ou tinta aquilo que Plat\u00e3o descreveu em palavras. A mesma coisa que algu\u00e9m, h\u00e1 25 mil anos, j\u00e1 tentava segurar nas m\u00e3os ao esculpir uma pequena figura em pedra calc\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma dessas obras representa um corpo perfeito no sentido que o mundo moderno aprendeu a usar essa express\u00e3o, ou seja, sem imperfei\u00e7\u00f5es, sem marcas, sem hist\u00f3ria&#8230; Representam algo muito mais profundo, representam um corpo presente. Inteiro. Que n\u00e3o pede desculpas por existir. \u00c9 isso que a humanidade persegue h\u00e1 25 mil anos, e \u00e9 isso que o naturismo, a seu modo silencioso, continua propondo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo corpo \u00e9 um caminho. O Belo est\u00e1 em percorr\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um corpo humano nu diante do mar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-49620\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-04.jpeg\" alt=\"\" width=\"914\" height=\"579\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-04.jpeg 914w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-04-300x190.jpeg 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-04-768x487.jpeg 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-04-150x95.jpeg 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/27052026-Foto-04-750x475.jpeg 750w\" sizes=\"(max-width: 914px) 100vw, 914px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Acervo pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Paula Silveira \u00e9 presidente da FBrN \u2013 Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associa\u00e7\u00e3o SPNAT \u2013 Naturistas da Grande S\u00e3o Paulo desde 2020. \u00c9 naturista desde 1997 e \u00e9 representa o Brasil na CLANAT \u2013 Comiss\u00e3o Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Regi\u00e3o Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do M\u00e9xico em 2024, no ELAN \u2013 Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Col\u00f4mbia em 2022 e no Equador em 2020.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paula Silveira* Autor: Fabrizio Martins Tavoni \u00e9&nbsp; Doutorando em Educa\u00e7\u00e3o na Unicamp,&nbsp; Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFSCar,&nbsp; Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais pela UEL &nbsp;e \u00e9 naturista.&nbsp; @fbrn_oficial &nbsp; Imagine um ser humano nu diante do mar. A luz toca a pele da mesma forma como toca a areia. 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