{"id":50318,"date":"2026-06-22T05:03:25","date_gmt":"2026-06-22T08:03:25","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=50318"},"modified":"2026-06-16T12:07:05","modified_gmt":"2026-06-16T15:07:05","slug":"quando-o-sao-joao-acorda-memorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-o-sao-joao-acorda-memorias\/","title":{"rendered":"Quando o S\u00e3o Jo\u00e3o acorda Mem\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Eneida Roberta Bonanza<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe algo de profundamente emocional nas festas juninas. Talvez porque elas nunca tenham sido apenas festas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Nordeste, o S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 encontro. \u00c9 pertencimento. \u00c9 identidade cultural. \u00c9 o cheiro da lenha queimando, o milho cozido na panela, o amendoim torrado, o som da sanfona atravessando a noite e a sensa\u00e7\u00e3o de que, por alguns dias, a vida desacelera para celebrar aquilo que realmente importa: os v\u00ednculos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o das festas juninas chegou ao Brasil trazida pelos portugueses, que j\u00e1 celebravam os santos populares na Europa, especialmente S\u00e3o Jo\u00e3o, Santo Ant\u00f4nio e S\u00e3o Pedro. Ao encontrar a riqueza cultural brasileira, principalmente a nordestina, essa celebra\u00e7\u00e3o ganhou novas cores, sabores e significados. O que era uma festa religiosa tornou-se tamb\u00e9m uma manifesta\u00e7\u00e3o afetiva, familiar e comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 por acaso que tantas pessoas aguardam o m\u00eas de junho com tanta emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9rebro humano n\u00e3o armazena apenas fatos. Ele registra experi\u00eancias associadas a emo\u00e7\u00f5es, sons, aromas, sabores e sensa\u00e7\u00f5es corporais. \u00c9 por isso que, d\u00e9cadas depois, uma simples m\u00fasica de Luiz Gonzaga, o cheiro de canjica ou o sabor de um licor artesanal podem transportar algu\u00e9m instantaneamente para uma lembran\u00e7a da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neuroci\u00eancia chama isso de mem\u00f3ria associativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando vivemos experi\u00eancias emocionalmente marcantes, estruturas cerebrais como a am\u00edgdala e o hipocampo trabalham juntas registrando n\u00e3o apenas o acontecimento, mas tamb\u00e9m todo o contexto sensorial ao seu redor. O c\u00e9rebro cria conex\u00f5es. E, no futuro, qualquer elemento semelhante pode reativar aquele registro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim que surgem muitos gatilhos emocionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pessoa pode sentir uma tristeza inexplic\u00e1vel ao ouvir uma m\u00fasica junina sem perceber que aquela can\u00e7\u00e3o tocava nos \u00faltimos S\u00e3o Jo\u00f5es vividos ao lado de algu\u00e9m que j\u00e1 partiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra pode experimentar ansiedade ao participar de uma reuni\u00e3o familiar sem compreender que seu sistema nervoso ainda associa encontros familiares a antigas tens\u00f5es, cr\u00edticas ou conflitos vividos anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gatilho raramente \u00e9 o problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 apenas a porta de entrada para uma mem\u00f3ria emocional que permanece ativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s do cheiro do milho assado pode existir a lembran\u00e7a da av\u00f3 que preparava a mesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s de uma quadrilha pode existir a mem\u00f3ria de uma inf\u00e2ncia feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m pode existir a recorda\u00e7\u00e3o de aus\u00eancias, separa\u00e7\u00f5es, rejei\u00e7\u00f5es ou conflitos que nunca foram verdadeiramente elaborados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, as festas familiares costumam ser t\u00e3o intensas emocionalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elas re\u00fanem pessoas, mas tamb\u00e9m re\u00fanem mem\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentamos \u00e0 mesa com quem est\u00e1 presente, mas muitas vezes carregamos conosco vers\u00f5es antigas de n\u00f3s mesmos, experi\u00eancias passadas e emo\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o encontraram um lugar seguro para serem processadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maturidade emocional n\u00e3o consiste em apagar essas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consiste em permitir que elas sejam ressignificadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando olhamos para nossa hist\u00f3ria com mais consci\u00eancia, deixamos de reagir automaticamente aos gatilhos e passamos a compreender o que eles est\u00e3o tentando nos mostrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele desconforto n\u00e3o surgiu hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela tristeza n\u00e3o nasceu nesta festa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela irrita\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o tenha rela\u00e7\u00e3o com a conversa atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frequentemente, estamos respondendo a experi\u00eancias que ficaram registradas em nosso mundo interno muito antes do momento presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, junho tamb\u00e9m pode ser um convite terap\u00eautico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um convite para observar quais emo\u00e7\u00f5es surgem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais lembran\u00e7as aparecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais aus\u00eancias ainda doem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais hist\u00f3rias ainda precisam ser acolhidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque quando uma mem\u00f3ria \u00e9 integrada, ela deixa de comandar nossas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela passa a fazer parte da nossa hist\u00f3ria sem determinar o nosso presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que possamos celebrar nossas ra\u00edzes, honrar aqueles que vieram antes de n\u00f3s, reconhecer nossas dores e permitir que cada novo S\u00e3o Jo\u00e3o seja vivido como uma experi\u00eancia \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o como a repeti\u00e7\u00e3o das festas passadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como a oportunidade de criar novas mem\u00f3rias, mais leves, mais conscientes e mais amorosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque a vida acontece agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E toda festa merece a chance de ser vivida no tempo presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a autora<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eneida Roberta Bonanza \u00e9 fisioterapeuta, especialista em abordagens integrativas da sa\u00fade, escritora e fundadora da CHER \u2013 Cl\u00ednica de Sa\u00fade Humanizada. Atua no estudo das rela\u00e7\u00f5es entre corpo, emo\u00e7\u00f5es, mem\u00f3ria e comportamento humano, auxiliando pessoas a compreenderem as ra\u00edzes emocionais dos seus sintomas e a constru\u00edrem caminhos de transforma\u00e7\u00e3o e autoconsci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eneida Roberta Bonanza &nbsp; Existe algo de profundamente emocional nas festas juninas. Talvez porque elas nunca tenham sido apenas festas. 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