{"id":50413,"date":"2026-06-19T08:58:21","date_gmt":"2026-06-19T11:58:21","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=50413"},"modified":"2026-06-19T08:58:21","modified_gmt":"2026-06-19T11:58:21","slug":"autonomia-afetiva-e-o-pertencimento-em-terra-estrangeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/autonomia-afetiva-e-o-pertencimento-em-terra-estrangeira\/","title":{"rendered":"Autonomia Afetiva e o Pertencimento em Terra Estrangeira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanalista_jackson_shella<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou te contar uma coisa que talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha sentido na pele, mesmo sem nunca ter fugido de uma guerra: \u00e9 poss\u00edvel morar em outro pa\u00eds, ter um visto, um emprego, um endere\u00e7o fixo\u2026 e ainda assim se sentir um pouco refugiado por dentro. Como se a sua casa tivesse ficado num tempo e num lugar que j\u00e1 n\u00e3o existem mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falamos de refugiados e deslocados, muitas vezes pensamos em estat\u00edsticas, fronteiras, conflitos. Mas, por tr\u00e1s de cada n\u00famero, existe algu\u00e9m tentando fazer algo muito b\u00e1sico e ao mesmo tempo enorme: reconstruir uma vida, um sentido, um \u201cn\u00f3s\u201d. E \u00e9 aqui que entra a autonomia afetiva, n\u00e3o como uma independ\u00eancia fria, do tipo \u201cn\u00e3o preciso de ningu\u00e9m\u201d, mas como a capacidade de reconhecer as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es, buscar apoio e, sobretudo, construir rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a em meio ao desconhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pense em algu\u00e9m que chega a um pa\u00eds novo sem dominar a l\u00edngua, sem entender os c\u00f3digos sociais, sem fam\u00edlia por perto. Cada tarefa simples, pegar um \u00f4nibus, ir ao mercado, pedir ajuda, vira um pequeno teste emocional. H\u00e1 vergonha, medo de errar, medo de n\u00e3o ser compreendido, medo de ser rejeitado. O corpo carrega uma hist\u00f3ria que n\u00e3o se conta s\u00f3 com palavras: perdas, rupturas, despedidas abruptas, saudades que n\u00e3o cabem em foto nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, curiosamente, parte dessa experi\u00eancia emocional tamb\u00e9m \u00e9 vivida por quem se muda \u201cpor escolha\u201d: por trabalho, estudo, amor. Voc\u00ea pode ter passaporte, contrato, visto carimbado\u2026 e mesmo assim sentir um estranhamento fundo, um desenraizamento silencioso. \u00c0s vezes, ao olhar para o pr\u00f3prio reflexo, a pergunta surge: \u201cOnde \u00e9 que eu perten\u00e7o, afinal?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Dia Mundial do Refugiado, a homenagem mais sincera que podemos fazer talvez seja essa: reconhecer que, em algum n\u00edvel, conhecer a dor de se sentir deslocado nos aproxima deles e n\u00e3o nos afasta. N\u00e3o para comparar sofrimentos, porque a viol\u00eancia e o risco de vida que muitos refugiados enfrentam n\u00e3o se relativiza. Mas para abrir um lugar interno de empatia verdadeira: \u201cEu n\u00e3o sei o que voc\u00ea viveu, mas sei um pouco do que \u00e9 n\u00e3o se sentir em casa em lugar nenhum. E, por isso, estou disposto a escutar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autonomia afetiva, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 um luxo; \u00e9 uma ferramenta de sobreviv\u00eancia. Para quem precisa recome\u00e7ar longe de tudo o que conhecia, ela se expressa em gestos simples e profundos: aprender a pedir ajuda sem se sentir menos por isso; permitir-se chorar pela terra deixada para tr\u00e1s; acolher a pr\u00f3pria raiva e o pr\u00f3prio medo sem se julgar fraco; aceitar que criar novas ra\u00edzes leva tempo e n\u00e3o acontece de um dia para o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ela tamb\u00e9m se manifesta na capacidade de construir redes de apoio. Porque ningu\u00e9m atravessa um deslocamento for\u00e7ado sozinho. Uma rede de apoio n\u00e3o \u00e9 apenas uma institui\u00e7\u00e3o ou uma ONG, embora elas sejam fundamentais. Rede de apoio \u00e9 tamb\u00e9m a vizinha que pergunta \u201cvoc\u00ea est\u00e1 bem?\u201d, o colega de trabalho que fala mais devagar para ser compreendido, a pessoa que se oferece para traduzir um documento, o grupo que convida para um caf\u00e9 e, por algumas horas, suspende o peso da solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E voc\u00ea, talvez morando em outro pa\u00eds, ou pensando em morar, ou simplesmente se sentindo estrangeiro dentro da pr\u00f3pria cidade, tamb\u00e9m precisa e merece essa rede. Autonomia afetiva n\u00e3o \u00e9 isolar-se, mas saber escolher com quem dividir a pr\u00f3pria vulnerabilidade. \u00c9 aprender a reconhecer quem oferece presen\u00e7a sincera, e n\u00e3o apenas curiosidade passageira. \u00c9 confiar, pouco a pouco, que existem la\u00e7os poss\u00edveis em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a pergunta ent\u00e3o n\u00e3o seja s\u00f3 \u201ccomo acolher refugiados?\u201d, mas tamb\u00e9m: \u201ccomo podemos, juntos, criar espa\u00e7os em que ningu\u00e9m precise se sentir descart\u00e1vel, invis\u00edvel, silencioso demais para ser ouvido?\u201d. \u00c0s vezes isso come\u00e7a com atitudes muito pequenas: evitar piadas sobre sotaques, n\u00e3o tratar o outro apenas como \u201ca hist\u00f3ria triste\u201d que ouvimos uma vez, perguntar o nome, aprender a pronunci\u00e1-lo com cuidado. Convidar para sentar \u00e0 mesa, perguntar da cultura, da comida, da m\u00fasica, sem ficar perplexo, apenas por genu\u00edna curiosidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea n\u00e3o precisa trabalhar em uma organiza\u00e7\u00e3o internacional para fazer diferen\u00e7a. Pode apoiar projetos s\u00e9rios de acolhimento, doar recursos, tempo, conhecimento. Pode ser aquela pessoa que oferece escuta sem interrogat\u00f3rio, sem exigir que o outro reviva traumas para \u201cjustificar\u201d a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Pode ser o elo entre algu\u00e9m rec\u00e9m-chegado e um servi\u00e7o que ele nem sabia que existia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo, essa \u00e9 a beleza e o desafio da autonomia afetiva em novos contextos: reconhecer que precisamos dos outros para continuar sendo n\u00f3s mesmos. Que a for\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 em endurecer, mas em permanecer sens\u00edvel sem desmoronar. Que criar confian\u00e7a em terra estrangeira, seja essa terra um novo pa\u00eds ou um novo momento da sua vida \u00e9 um exerc\u00edcio di\u00e1rio de coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Dia Mundial do Refugiado, talvez possamos fazer este compromisso silencioso: olhar para quem chega n\u00e3o como \u201cestranho\u201d, mas como algu\u00e9m que carrega consigo um mundo inteiro, prestes a se encontrar, aos poucos, com o nosso. E entender que, quando oferecemos acolhimento, n\u00e3o estamos apenas ajudando o outro a se reconstruir; estamos, tamb\u00e9m, reconstruindo em n\u00f3s a capacidade de amar, confiar e pertencer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e-mail: contato@ashellspsicanalise.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundador da Ashells Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atua\u00e7\u00e3o com depend\u00eancia emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @psicanalista_jackson_shella Vou te contar uma coisa que talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha sentido na pele, mesmo sem nunca ter fugido de uma guerra: \u00e9 poss\u00edvel morar em outro pa\u00eds, ter um visto, um emprego, um endere\u00e7o fixo\u2026 e ainda assim se sentir um pouco refugiado por dentro. 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