{"id":50613,"date":"2026-06-26T05:53:53","date_gmt":"2026-06-26T08:53:53","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=50613"},"modified":"2026-06-24T16:55:55","modified_gmt":"2026-06-24T19:55:55","slug":"eu-existo-eu-sinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/eu-existo-eu-sinto\/","title":{"rendered":"Eu existo, eu sinto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanalista_jackson_shella<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu queria te convidar, hoje, a respirar fundo comigo e olhar para uma pergunta que parece simples, mas que costuma doer l\u00e1 no fundo: quem \u00e9 voc\u00ea quando ningu\u00e9m est\u00e1 olhando?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha sentido na pele o peso de precisar encaixar sua exist\u00eancia em padr\u00f5es que n\u00e3o foram feitos pensando em voc\u00ea. Talvez j\u00e1 tenha ouvido, em sil\u00eancio ou em voz alta, que voc\u00ea \u201cexagera\u201d, que \u00e9 \u201csens\u00edvel demais\u201d, que \u00e9 \u201cconfuso\u201d, que \u201cvai passar\u201d. Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha se perguntado se o problema \u00e9 voc\u00ea, quando, na verdade, o problema \u00e9 um mundo que insiste em ditar quem merece ser amado, respeitado, celebrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que, neste Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, eu quero falar com voc\u00ea sobre algo que atravessa a nossa vida de um jeito muito \u00edntimo: a afirma\u00e7\u00e3o da identidade e a autonomia afetiva. N\u00e3o como um conceito complicado, mas como um movimento de dentro para fora, um jeito de dizer: \u201ceu existo, eu sinto, e eu n\u00e3o vou mais pedir desculpas por ser quem sou\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falo em autonomia afetiva, estou falando daquela capacidade de, pouco a pouco, tirar das m\u00e3os do outro a caneta que escreve a sua hist\u00f3ria emocional. \u00c9 deixar de viver apenas a partir do medo de rejei\u00e7\u00e3o, de culpa, de vergonha, e come\u00e7ar a construir rela\u00e7\u00f5es com voc\u00ea e com o mundo que n\u00e3o sejam baseadas na necessidade de agradar para sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea faz parte da comunidade LGBTQIA+, talvez a sua identidade tenha sido, durante muito tempo, um segredo, um conflito, uma culpa que n\u00e3o era sua, mas que colocaram sobre os seus ombros. E n\u00e3o \u00e9 simples olhar para isso sem romantizar. Orgulho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 festa, bandeira colorida e legenda bonita. Orgulho tamb\u00e9m \u00e9 cicatriz. \u00c9 lembrar que em algum momento voc\u00ea teve que escolher entre se abandonar para ser aceito ou se afirmar correndo o risco de perder pessoas, espa\u00e7os, certezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autonomia afetiva, nesse contexto, \u00e9 aprender \u00e0s vezes bem devagar a n\u00e3o deixar que o medo decida por voc\u00ea. \u00c9 reconhecer que o amor que voc\u00ea merece n\u00e3o \u00e9 aquele condicionado: \u201ceu te aceito, mas\u2026\u201d, \u201ceu te respeito, desde que\u2026\u201d. \u00c9 entender que respeito n\u00e3o vem com asteriscos, e que a sua identidade n\u00e3o \u00e9 uma fase, nem uma negocia\u00e7\u00e3o, nem uma d\u00edvida com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sei que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A gente carrega, muitas vezes, uma hist\u00f3ria de olhares atravessados, piadas, sil\u00eancios pesados em fam\u00edlia, rela\u00e7\u00f5es em que foi preciso se encurtar para caber. E isso vai se infiltrando na forma como a gente ama e se deixa amar. A gente passa a achar normal se contentar com pouco, esconder partes de si, aceitar migalhas emocionais em troca de alguma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu quero te dizer, com toda calma: voc\u00ea n\u00e3o precisa pagar com a pr\u00f3pria identidade para \u201cmerecer\u201d carinho, aten\u00e7\u00e3o ou companhia. Autonomia afetiva \u00e9 justamente o processo de perceber essas trocas injustas e come\u00e7ar a dizer n\u00e3o. Dizer n\u00e3o a rela\u00e7\u00f5es que exigem que voc\u00ea se apague. Dizer n\u00e3o a v\u00ednculos que s\u00f3 funcionam se voc\u00ea finge ser outra pessoa. Dizer n\u00e3o ao pacto silencioso de se trair para n\u00e3o \u201ccausar problema\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirma\u00e7\u00e3o da identidade n\u00e3o \u00e9 um ato \u00fanico, \u00e9 um caminho. \u00c0s vezes \u00e9 discreto: usar uma pe\u00e7a de roupa que te representa, falar uma palavra que antes voc\u00ea evitava, se permitir dizer \u201cmeu namorado\u201d, \u201cminha esposa\u201d, \u201cminhe parceire\u201d, sem engolir o termo no meio da frase. \u00c0s vezes \u00e9 um rompimento: sair de um relacionamento que te invalida, colocar limites numa fam\u00edlia que insiste em apagar quem voc\u00ea \u00e9, procurar espa\u00e7os onde voc\u00ea possa respirar sem se vigiar o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse caminho, a autonomia afetiva vai dizendo, aos poucos: \u201ceu n\u00e3o vou mais me colocar em segundo plano nas minhas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 claro que a gente continua desejando amor, pertencimento, cuidado. Mas a pergunta muda: em vez de \u201co que eu preciso cortar em mim para caber nesse lugar?\u201d, passa a ser \u201cesse lugar tem espa\u00e7o para quem eu sou?\u201d. E, se a resposta for n\u00e3o, talvez n\u00e3o seja voc\u00ea que esteja no lugar errado; talvez seja o lugar que nunca esteve \u00e0 altura de voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orgulho, para mim, tamb\u00e9m \u00e9 isso: n\u00e3o apenas afirmar ao mundo que voc\u00ea existe, mas afirmar a si mesme que voc\u00ea merece viver sem se esconder. Que suas emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00e1lidas, que seus afetos s\u00e3o leg\u00edtimos, que sua forma de amar n\u00e3o \u00e9 um erro a ser corrigido, mas uma express\u00e3o da sua humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto voc\u00ea l\u00ea estas linhas, talvez sinta um misto de identifica\u00e7\u00e3o e estranhamento. Parte de voc\u00ea pode dizer \u201cisso \u00e9 verdade\u201d, e outra parte pode cochichar \u201cmas ser\u00e1 que eu posso mesmo?\u201d. Eu n\u00e3o tenho respostas prontas, nem receitas. O que eu posso te oferecer, aqui, \u00e9 um lembrete: construir autonomia afetiva n\u00e3o significa se isolar nem virar algu\u00e9m \u201cindependente demais para precisar dos outros\u201d. Significa, ao contr\u00e1rio, poder escolher v\u00ednculos que n\u00e3o te violentem, rela\u00e7\u00f5es em que voc\u00ea possa se reconhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste Dia do Orgulho, se tudo ainda parecer confuso, talvez um primeiro passo seja esse: reconhecer, em sil\u00eancio mesmo, que a sua identidade \u00e9 real, que o que voc\u00ea sente importa, e que voc\u00ea merece estar em rela\u00e7\u00f5es onde n\u00e3o precise pedir desculpas por existir. A bandeira que voc\u00ea carrega \u2013 seja ela qual for, vis\u00edvel ou n\u00e3o tamb\u00e9m pode ser a bandeira da sua pr\u00f3pria dignidade emocional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada semana, nesta nossa conversa, vamos seguindo juntos nessa arte de se pertencer: encontrando, na sua hist\u00f3ria, espa\u00e7os de respira\u00e7\u00e3o, de coragem e de cuidado com quem voc\u00ea \u00e9. Porque, no fim das contas, a maior celebra\u00e7\u00e3o de orgulho talvez seja esta: n\u00e3o abrir m\u00e3o de si mesmo para continuar amando e sendo amado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e-mail: contato@ashellspsicanalise.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundador da Ashells Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atua\u00e7\u00e3o com depend\u00eancia emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @psicanalista_jackson_shella Eu queria te convidar, hoje, a respirar fundo comigo e olhar para uma pergunta que parece simples, mas que costuma doer l\u00e1 no fundo: quem \u00e9 voc\u00ea quando ningu\u00e9m est\u00e1 olhando? 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