{"id":50832,"date":"2026-07-03T08:00:14","date_gmt":"2026-07-03T11:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=50832"},"modified":"2026-07-03T08:00:14","modified_gmt":"2026-07-03T11:00:14","slug":"torcer-sem-me-perder-no-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/torcer-sem-me-perder-no-outro\/","title":{"rendered":"Torcer sem me perder no outro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanalista_jackson_shella<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sei que, quando a Copa do Mundo come\u00e7a, alguma coisa em n\u00f3s muda de lugar. De repente, a gente marca compromisso pelo hor\u00e1rio do jogo, discute escala\u00e7\u00e3o como se estivesse no vesti\u00e1rio, sente o peito acelerar como se o nosso cora\u00e7\u00e3o estivesse amarrado na trave. E \u00e9 bonito, sabe? Tem um encanto real em perceber que eu e voc\u00ea, t\u00e3o diferentes, podemos nos encontrar na mesma vibra\u00e7\u00e3o, no mesmo grito de gol. Mas \u00e9 aqui que eu quero te convidar a uma pergunta que talvez ningu\u00e9m fa\u00e7a enquanto a bola est\u00e1 rolando: at\u00e9 onde eu consigo torcer sem me perder no outro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu gosto da ideia de pertencimento, desse \u201cn\u00f3s\u201d que se forma na cal\u00e7ada, no sof\u00e1, no bar, na sala de casa. Pertencer \u00e9 quase um abra\u00e7o coletivo, um lembrete de que a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 boleto e notifica\u00e7\u00e3o. Quando a sele\u00e7\u00e3o entra em campo, tem um peda\u00e7o de n\u00f3s entrando junto. Mas, sem perceber, \u00e0s vezes esse \u201cn\u00f3s\u201d come\u00e7a a ficar grande demais, e o \u201ceu\u201d vai encolhendo quietinho no canto. \u00c9 quando o humor do meu dia inteiro depende de um resultado, quando eu trato quem torce diferente de mim como inimigo, quando eu finjo uma empolga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sinto, s\u00f3 para n\u00e3o ser o \u00fanico da roda que n\u00e3o est\u00e1 vibrando. A\u00ed n\u00e3o \u00e9 mais torcida, \u00e9 desaparecimento. E autonomia emocional tem muito a ver com isso: com n\u00e3o se deixar desaparecer, mesmo quando o mundo te puxa para dentro de um coro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu posso amar a festa, o hino, as cores, a narrativa do \u201c\u00e9 agora ou nunca\u201d, sem entregar a minha identidade inteira para isso. Eu posso fazer parte do grupo sem esquecer de mim. \u00c9 como estar num coro e, ainda assim, reconhecer a minha pr\u00f3pria voz. Torcer sem me perder no outro \u00e9 perceber, com honestidade, at\u00e9 que ponto o que eu sinto \u00e9 meu e at\u00e9 que ponto eu s\u00f3 estou repetindo o que esperam que eu sinta. Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha passado por isso: um jogo acabou, o time perdeu, e voc\u00ea sentiu um vazio que parecia maior do que o placar. Como se algo tivesse sido arrancado de voc\u00ea. Nessas horas, vale respirar fundo e se perguntar: o que exatamente eu perdi? Um jogo, um t\u00edtulo, uma fantasia de perfei\u00e7\u00e3o, uma ideia de pa\u00eds, ou um peda\u00e7o de mim que eu tinha colocado inteiro nessa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paix\u00e3o \u00e9 outro cap\u00edtulo. Paix\u00e3o \u00e9 linda. \u00c9 ela que faz a gente pular do sof\u00e1, abra\u00e7ar desconhecidos, chorar sem vergonha. O problema n\u00e3o \u00e9 sentir muito; o problema \u00e9 quando o \u201cmuito\u201d come\u00e7a a mandar em tudo. Quando eu grito com quem eu amo porque algu\u00e9m errou um passe. Quando eu entro em brigas idiotas na internet para defender um jogador que nem sabe que eu existo. Quando eu gasto um dinheiro que eu n\u00e3o tenho para provar que eu sou um \u201cverdadeiro torcedor\u201d. A\u00ed a paix\u00e3o, que poderia ser express\u00e3o, vira pris\u00e3o. E autonomia emocional \u00e9 essa arte de regular o volume: eu posso aumentar quando quero sentir mais de perto, e posso diminuir quando percebo que estou me atropelando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo, a Copa acende identidades: de pa\u00eds, de torcida, de \u201csomos isso\u201d e \u201cn\u00e3o somos aquilo\u201d. E \u00e9 natural que isso mexa com a gente. Mas eu n\u00e3o sou s\u00f3 a camisa que visto, o hino que canto, o time que apoio. Eu sou uma vida inteira, feita de hist\u00f3rias, dores, afetos, escolhas que n\u00e3o cabem em 90 minutos. Quando eu esque\u00e7o isso, qualquer cr\u00edtica ao meu time vira cr\u00edtica \u00e0 minha exist\u00eancia. E eu come\u00e7o a responder como se estivesse defendendo a minha pr\u00f3pria dignidade, quando, na verdade, estou defendendo algo que \u00e9 s\u00f3 um recorte de quem eu sou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea quiser testar, durante esses dias de Copa, pode tentar alguns exerc\u00edcios discretos, quase invis\u00edveis para quem est\u00e1 de fora, mas muito vis\u00edveis para voc\u00ea. No meio do jogo, presta aten\u00e7\u00e3o no seu corpo: como est\u00e1 a sua respira\u00e7\u00e3o? Seu peito est\u00e1 apertado demais? Seus ombros est\u00e3o na altura da orelha? S\u00f3 de notar, voc\u00ea j\u00e1 volta um pouco para dentro, j\u00e1 lembra que existe um \u201ceu\u201d ali, para al\u00e9m da tela. No intervalo, em vez de s\u00f3 entrar na avalanche de coment\u00e1rios, toma um gole de \u00e1gua em sil\u00eancio e se pergunta: \u201cEu estou me divertindo ou estou s\u00f3 cumprindo um papel?\u201d. Sem julgamento, s\u00f3 curiosidade. Se perceber que est\u00e1 passando do ponto brigando, xingando, saindo do eixo em vez de se culpar, tenta entender: \u201cQue parte de mim est\u00e1 t\u00e3o carente de pertencimento que precisa fazer disso uma guerra?\u201d. \u00c0s vezes, o jogo s\u00f3 revela uma fome que j\u00e1 estava aqui antes do campeonato come\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Torcer sem se perder no outro n\u00e3o \u00e9 virar espectador frio, distante, blas\u00e9. \u00c9 outra coisa: \u00e9 entrar de cabe\u00e7a no momento, mas sem se abandonar durante o processo. \u00c9 poder vibrar, sofrer, comemorar, xingar o juiz (um pouquinho), e, ainda assim, lembrar: a minha vida \u00e9 maior do que esse placar. Quando o apito final toca, o bar esvazia, as ruas desarmam as bandeiras, \u00e9 comigo que eu vou voltar para casa. Eu comigo. A autonomia afetiva que eu trago nesta coluna, essa vontade de te lembrar que voc\u00ea tamb\u00e9m se pertence, passa por aqui: voc\u00ea pode amar, torcer, se jogar\u2026 contanto que n\u00e3o se perca de vista. A Copa vai passar. O que fica \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o silenciosa entre voc\u00ea e voc\u00ea mesmo. E \u00e9 nessa rela\u00e7\u00e3o que eu quero que voc\u00ea seja, sempre, o time da sua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e-mail: contato@ashellspsicanalise.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundador da Ashells Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atua\u00e7\u00e3o com depend\u00eancia emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @psicanalista_jackson_shella Eu sei que, quando a Copa do Mundo come\u00e7a, alguma coisa em n\u00f3s muda de lugar. 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