{"id":50990,"date":"2026-07-10T09:31:46","date_gmt":"2026-07-10T12:31:46","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=50990"},"modified":"2026-07-10T09:31:46","modified_gmt":"2026-07-10T12:31:46","slug":"quando-o-trabalho-atravessa-o-cansaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-o-trabalho-atravessa-o-cansaco\/","title":{"rendered":"Quando o trabalho atravessa o cansa\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@Psicanalista_Jackson_Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanaliseativainpc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Julho sempre me parece um m\u00eas dividido ao meio. Para uns, ele chega com a promessa do recesso, da mala no canto, do caf\u00e9 tomado mais devagar, da sensa\u00e7\u00e3o rara de que o corpo pode finalmente acompanhar o rel\u00f3gio da alma. Para outros, ele vem como uma mar\u00e9 alta: mensagens que n\u00e3o param, demandas que se acumulam, prazos que n\u00e3o entendem f\u00e9rias, urg\u00eancias que se vestem de normalidade. E \u00e9 nesse contraste que eu mais percebo uma verdade silenciosa: descansar, hoje, virou quase um ato de resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vejo isso nas coisas pequenas. Na pessoa que senta \u00e0 mesa do almo\u00e7o com a fam\u00edlia e, antes da primeira garfada, j\u00e1 olha o celular porque \u201c\u00e9 s\u00f3 uma resposta r\u00e1pida\u201d. Na crian\u00e7a que fala com algu\u00e9m que est\u00e1 presente fisicamente, mas com a aten\u00e7\u00e3o presa em outra tela. Naquele momento em que o corpo finalmente encosta no sof\u00e1, mas a mente continua de p\u00e9, revisando pend\u00eancias, antecipando pedidos, ensaiando desculpas. O trabalho atravessa o descanso de um jeito quase educado, quase invis\u00edvel. Ele n\u00e3o arromba a porta. \u00c0s vezes, ele entra em sil\u00eancio e senta na sala como se sempre tivesse morado ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu n\u00e3o digo isso para demonizar o trabalho. H\u00e1 dignidade no que fazemos, h\u00e1 sentido em construir, entregar, sustentar. O problema come\u00e7a quando a vida \u00edntima vira apenas um intervalo entre uma exig\u00eancia e outra. Quando o descanso deixa de ser um lugar e passa a ser uma pausa culpada. Quando a pessoa n\u00e3o consegue mais estar inteira nem no esfor\u00e7o, nem no repouso. Ela trabalha cansada e descansa com pressa. E, aos poucos, vai perdendo a delicadeza de escutar a pr\u00f3pria necessidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu j\u00e1 observei que muita gente n\u00e3o teme o excesso de trabalho em si. O que assusta, no fundo, \u00e9 o vazio que aparece quando o barulho cessa. Porque, sem o fluxo constante de tarefas, sobra o encontro com aquilo que foi sendo adiado: o cansa\u00e7o acumulado, a tristeza mi\u00fada, a saudade de si, a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo o que \u00e9 importante est\u00e1 sempre para depois. E a\u00ed o descanso incomoda, porque ele n\u00e3o serve s\u00f3 para recuperar energia. Ele tamb\u00e9m devolve presen\u00e7a. Ele faz a gente perceber o quanto estava se abandonando em nome da obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja por isso que eu pense tanto em limites emocionais quando julho chega. N\u00e3o como uma cerca dura, nem como um gesto frio, mas como uma forma de preservar o que em mim precisa continuar vivo. Limite, para mim, n\u00e3o \u00e9 dist\u00e2ncia vazia. \u00c9 cuidado. \u00c9 a decis\u00e3o de n\u00e3o responder tudo na hora. \u00c9 aceitar que nem toda urg\u00eancia merece o meu corpo inteiro. \u00c9 reconhecer que eu posso ser comprometido sem ser devorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A virada, para mim, acontece quando eu deixo de perguntar apenas \u201co que o trabalho quer de mim?\u201d e come\u00e7o a perguntar \u201co que eu estou oferecendo sem perceber?\u201d. Porque muitas vezes n\u00e3o \u00e9 o excesso externo que nos destr\u00f3i primeiro. \u00c9 a forma como vamos cedendo, aos poucos, o nosso tempo \u00edntimo, a nossa escuta, o nosso descanso, at\u00e9 n\u00e3o restar mais espa\u00e7o para respirar por dentro. E \u00e9 a\u00ed que a autonomia afetiva ganha sentido: n\u00e3o como um discurso bonito, mas como a coragem de permanecer comigo mesmo enquanto o mundo tenta me puxar para fora o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu gosto de pensar que descansar bem n\u00e3o \u00e9 parar de viver. \u00c9 voltar a habitar a pr\u00f3pria vida com mais verdade. \u00c9 sentar \u00e0 mesa sem culpa. \u00c9 dormir sem o corpo em alerta. \u00c9 olhar o c\u00e9u de julho e n\u00e3o sentir que estou atrasado para ser algu\u00e9m. Talvez o descanso n\u00e3o precise pedir desculpas para existir. Talvez ele seja, justamente, a forma mais discreta e mais firme de dizer: eu tamb\u00e9m sou meu lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e-mail: contato@ashellspsicanalise.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundador da Ashells Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atua\u00e7\u00e3o com depend\u00eancia emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @Psicanalista_Jackson_Shella @psicanaliseativainpc Julho sempre me parece um m\u00eas dividido ao meio. 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