{"id":51139,"date":"2026-07-17T08:36:15","date_gmt":"2026-07-17T11:36:15","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=51139"},"modified":"2026-07-17T08:36:15","modified_gmt":"2026-07-17T11:36:15","slug":"entre-um-emoji-e-um-silencio-a-dor-que-eu-invento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/entre-um-emoji-e-um-silencio-a-dor-que-eu-invento\/","title":{"rendered":"Entre um emoji e um sil\u00eancio, a dor que eu invento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanalista_jackson_shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanaliseativainpc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem mensagem que machuca antes mesmo de a gente entender por qu\u00ea. \u00c0s vezes \u00e9 uma frase curta, um \u201cok\u201d seco, um emoji jogado no fim da conversa. Nada ali, literalmente, diz que a pessoa est\u00e1 com raiva, cansada ou decepcionada. Mas alguma coisa atravessa a tela e acerta direto no peito. E, de repente, n\u00e3o \u00e9 mais sobre o que o outro escreveu, \u00e9 sobre tudo o que eu imaginei nas entrelinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em torno do Dia Mundial do Emoji, eu fico pensando no quanto a nossa comunica\u00e7\u00e3o virou um campo minado de subentendidos. Uma carinha, um cora\u00e7\u00e3o de outra cor, um \u201crs\u201d no lugar do \u201chaha\u201d, e l\u00e1 vou eu, leitor e roteirista da minha pr\u00f3pria novela, preencher os vazios com medos, inseguran\u00e7as e hist\u00f3rias antigas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro de uma cena simples. Uma amiga escreveu para o companheiro: \u201cCheguei bem \u2764\ufe0f\u201d. Ele respondeu, alguns minutos depois: \u201cBlz \ud83d\udc4d\u201d. S\u00f3 isso. Ela me contou que, quando leu, sentiu como se tivesse levado um gelo. \u201cComo assim \u2018blz\u2019? Sem um \u2018que bom\u2019, sem um \u2018tava preocupado\u2019, sem nada?\u201d, ela dizia. Em poucos segundos, aquele \u201cblz \ud83d\udc4d\u201d virou, na cabe\u00e7a dela, sinal de desinteresse, frieza, quase um pren\u00fancio de fim. Eles n\u00e3o estavam discutindo, n\u00e3o havia briga. Havia um polegar para cima e um cora\u00e7\u00e3o ferido pelo caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias depois, conversando com ele, descobri que o \u201cblz \ud83d\udc4d\u201d veio enquanto ele segurava o celular com uma m\u00e3o e as sacolas de mercado com a outra. Era o jeito corrido de dizer: \u201cQue bom, amor, ainda bem que chegou bem, t\u00f4 no meio da rua, j\u00e1 te ligo\u201d. Mas ningu\u00e9m contou isso ao cora\u00e7\u00e3o dela naquele minuto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha passado por algo parecido. Um \u201cvisto e n\u00e3o respondido\u201d que virou rejei\u00e7\u00e3o. Um emoji de risada que pareceu deboche. Um \u00e1udio acelerado em 2x que deu a sensa\u00e7\u00e3o de que a pessoa n\u00e3o tem tempo para te ouvir \u201cno ritmo certo\u201d. E, no meio desse turbilh\u00e3o, a gente se esquece de perguntar: o que de fato aconteceu\u2026 e o que eu estou acrescentando \u00e0 hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque tem uma parte da dor que vem da mensagem. Mas tem outra parte que vem do que eu projeto nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos vivendo uma \u00e9poca de comunica\u00e7\u00e3o apressada. Digitamos enquanto andamos, respondemos no sem\u00e1foro, reagimos com um \u00edcone porque \u201cn\u00e3o d\u00e1 tempo\u201d de escrever. E a\u00ed, o que poderia ser s\u00f3 um gesto r\u00e1pido vira uma pequena arma de mal-entendidos. N\u00e3o porque os emojis sejam vil\u00f5es, mas porque nossa pressa n\u00e3o combina com o cuidado que a intimidade pede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o quero demonizar o \u201cok\u201d nem o polegarzinho amarelo. Eles podem ser pr\u00e1ticos, carinhosos at\u00e9, em certos contextos. O problema \u00e9 quando eu come\u00e7o a medir o meu valor pela quantidade de cora\u00e7\u00f5es, pelo tamanho da resposta, pela escolha exata de um s\u00edmbolo. Quando cada mensagem vira teste secreto de amor, amizade ou respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que, para mim, entra a tal da autonomia afetiva, n\u00e3o como conceito distante, mas como exerc\u00edcio di\u00e1rio, quase artesanal. Autonomia afetiva n\u00e3o \u00e9 fingir que nada nos toca. \u00c9 justamente o contr\u00e1rio: \u00e9 admitir que eu sinto, que eu me magoo, que eu interpreto, mas que posso respirar antes de transformar qualquer sinal em senten\u00e7a definitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poder dizer para mim mesmo: \u201cEu n\u00e3o sei o que essa pessoa quis dizer com esse \u2018ok\u2019. Eu posso estar certo, mas tamb\u00e9m posso estar lendo com as lentes das minhas feridas. Antes de sofrer sozinho, talvez eu pergunte. Talvez eu espere. Talvez eu n\u00e3o entregue todo o poder da minha paz a uma notifica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa outra cena, um paciente me contou que, depois de um dia p\u00e9ssimo, escreveu para um amigo: \u201cCara, t\u00f4 mal\u201d. O amigo respondeu s\u00f3 com um \u201c\ud83d\ude22\u201d. Ele se irritou na hora. Pensou: \u201cSe fosse comigo, eu ligaria\u201d. O \u201c\ud83d\ude22\u201d virou s\u00edmbolo de descaso. No encontro seguinte, dias depois, o amigo disse: \u201cEu vi tua mensagem no trabalho, fiquei sem ch\u00e3o, n\u00e3o podia falar ali. Eu mandei o emoji como quem diz \u2018eu sinto contigo\u2019, e depois, na correria, errei em n\u00e3o retomar\u201d. Havia ali uma falha, claro. Mas havia tamb\u00e9m um sentimento verdadeiro que n\u00e3o cabia naquele \u00edcone triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu olho para essas hist\u00f3rias e percebo o quanto a nossa leitura r\u00e1pida pode ser t\u00e3o ou mais ferina que as palavras. A gente se fere pelo subentendido, mas, muitas vezes, \u00e9 o nosso medo quem escreve o subentendido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o estou dizendo que precisamos aceitar tudo, nem fazer de conta que mensagens frias n\u00e3o doem. Elas doem. E tamb\u00e9m \u00e9 importante reconhecer quando algu\u00e9m de fato se comunica com desd\u00e9m, ironia ou pouca considera\u00e7\u00e3o. Mas entre o que a pessoa manda e o que eu sinto, existe um espa\u00e7o. E \u00e9 nesse espa\u00e7o que mora a possibilidade de cuidado comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a virada esteja a\u00ed: em vez de perguntar apenas \u201co que ele quis dizer com isso?\u201d, come\u00e7ar a perguntar \u201cpor que isso mexeu tanto comigo?\u201d. O que esse \u201cok\u201d acordou em mim? Uma velha sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser visto? A mem\u00f3ria de um abandono? A inseguran\u00e7a de n\u00e3o me sentir suficiente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu come\u00e7o a investigar esse lugar, algo se desloca. A mensagem do outro continua sendo dele. A minha dor, n\u00e3o. Ela \u00e9 minha. E, a partir da\u00ed, eu posso escolher como cuidar dela, em vez de apenas reagir ao que aparece na tela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meio desse mundo de carinhas amarelas, cora\u00e7\u00f5es coloridos e frases apressadas, talvez o gesto mais radical seja desacelerar por dentro. Antes de devolver com agressividade, antes de sumir em sil\u00eancio, antes de construir uma hist\u00f3ria inteira sobre o que a pessoa \u201crealmente quis dizer\u201d, eu posso fazer um pequeno pacto comigo: n\u00e3o deixar que um emoji decida o tamanho da minha ferida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, talvez o que mais importe n\u00e3o seja o \u00edcone que aparece ao lado da mensagem, mas a forma como eu apare\u00e7o para mim quando leio o que chega. Porque quando eu me perten\u00e7o um pouco mais, nenhuma mensagem, por mais torta que seja, tem o poder absoluto de dizer quem eu sou ou quanto eu valho. E essa \u00e9 uma ideia bonita para guardar: nem toda mensagem que fere est\u00e1 falando de mim; \u00e0s vezes, ela s\u00f3 acerta o lugar onde eu ainda estou aprendendo a me cuidar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e-mail: contato@ashellspsicanalise.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fundador da Ashells Psicanalise Clinica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atua\u00e7\u00e3o com depend\u00eancia emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @psicanalista_jackson_shella @psicanaliseativainpc Tem mensagem que machuca antes mesmo de a gente entender por qu\u00ea. \u00c0s vezes \u00e9 uma frase curta, um \u201cok\u201d seco, um emoji jogado no fim da conversa. 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