{"id":51337,"date":"2026-07-24T05:08:08","date_gmt":"2026-07-24T08:08:08","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=51337"},"modified":"2026-07-23T19:11:29","modified_gmt":"2026-07-23T22:11:29","slug":"o-carinho-dos-avos-que-prende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-carinho-dos-avos-que-prende\/","title":{"rendered":"O carinho dos av\u00f3s que prende"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanalista_jackson_shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanaliseativainpc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o sei como \u00e9 na sua fam\u00edlia, mas vou arriscar uma cena: um almo\u00e7o de domingo, mesa cheia, panela no fog\u00e3o, algu\u00e9m falando alto demais na ponta da mesa, outro calado demais no canto. Uma av\u00f3 que coloca comida no seu prato mesmo quando voc\u00ea diz que n\u00e3o quer. Um av\u00f4 que quase nunca fala de si, mas faz quest\u00e3o de pagar a conta. Ningu\u00e9m est\u00e1 dizendo com todas as letras \u201c\u00e9 assim que se ama\u201d, mas o recado passa mesmo assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nessa pedagogia silenciosa que nascem muitas das nossas heran\u00e7as emocionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s v\u00e9speras do Dia dos Av\u00f3s, eu penso muito nas marcas afetivas que atravessam gera\u00e7\u00f5es: o jeito de abra\u00e7ar, de se preocupar, de ficar em sil\u00eancio, de guardar m\u00e1goas, de pedir desculpas (ou de nunca pedir), de demonstrar carinho com comida, com dinheiro, com tens\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que eles fizeram por n\u00f3s; \u00e9 o que a fam\u00edlia ensinou, sem falar, que amor e cuidado significam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez voc\u00ea tenha crescido ouvindo frases como: \u201cN\u00e3o chora, engole esse choro.\u201d \u201cProblema da casa n\u00e3o se comenta fora.\u201d \u201cMelhor aguentar quieto do que criar confus\u00e3o.\u201d \u201cFam\u00edlia \u00e9 tudo, mesmo quando d\u00f3i.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas frases parecem pequenas, mas v\u00e3o se acumulando como camadas de tinta na parede. Um dia, voc\u00ea se v\u00ea repetindo gestos que n\u00e3o escolheu. Voc\u00ea se cala quando queria se posicionar. Voc\u00ea engole o choro quando o corpo est\u00e1 pedindo justamente o contr\u00e1rio. Voc\u00ea fica em rela\u00e7\u00f5es que j\u00e1 acabaram por dentro, porque aprendeu que sair \u00e9 sin\u00f4nimo de ingratid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso numa cena muito comum: voc\u00ea est\u00e1 na sala, visitando os av\u00f3s. Eles come\u00e7am a contar hist\u00f3rias de \u201cantigamente\u201d, de um tempo em que n\u00e3o se falava de sentimentos, em que separa\u00e7\u00e3o era vergonha, terapia era \u201ccoisa de gente fraca\u201d, e o certo era aguentar. Enquanto eles falam, voc\u00ea percebe que muita coisa que sente hoje tem raiz ali. O medo de decepcionar. A dificuldade de dizer \u201cn\u00e3o\u201d. A culpa por desejar uma vida diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed, vem a pergunta silenciosa: o que eu fa\u00e7o com tudo isso que herdaram para mim sem me perguntar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autonomia afetiva, para mim, come\u00e7a nesse ponto. N\u00e3o \u00e9 um rompimento com a fam\u00edlia, nem uma rebeldia vazia. \u00c9 como se eu aprendesse a olhar para a minha \u00e1rvore geneal\u00f3gica com mais nitidez: aqui tem amor, tem esfor\u00e7o, tem sobreviv\u00eancia. E tamb\u00e9m tem dor, silenciamento, padr\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o fazem sentido para o mundo em que eu vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o preciso amar menos meus av\u00f3s, meus pais, para escolher um caminho afetivo mais consciente. Mas eu preciso, sim, reconhecer que eu n\u00e3o fui feito s\u00f3 de escolhas. Fui feito de repeti\u00e7\u00f5es. E que repetir no autom\u00e1tico \u00e9 diferente de honrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Honrar n\u00e3o \u00e9 copiar a forma. \u00c9 preservar a ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a sua av\u00f3 tenha aprendido a amar cozinhando sem parar, porque nunca p\u00f4de dizer \u201ctenho medo de que me faltem\u201d. Talvez o seu av\u00f4 tenha mostrado cuidado pagando a conta, porque nunca conseguiu dizer \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d. A forma pode n\u00e3o servir mais para voc\u00ea. A ess\u00eancia, sim: amor, cuidado, presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autonomia afetiva \u00e9 quando eu olho para essas formas que recebi e me pergunto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIsso ainda me serve?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIsso me aproxima de mim ou me afasta?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse jeito de amar respeita quem eu sou hoje?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, a virada acontece numa cena simples. Voc\u00ea est\u00e1 num encontro de fam\u00edlia e percebe que est\u00e1 prestes a repetir um padr\u00e3o antigo: se calar na hora em que algu\u00e9m atravessa seu limite, aceitar uma brincadeira que machuca, dizer \u201ct\u00e1 tudo bem\u201d quando n\u00e3o est\u00e1. E, dessa vez, voc\u00ea respira um pouco mais fundo e faz diferente. N\u00e3o precisa ser um discurso \u00e9pico. \u00c0s vezes \u00e9 s\u00f3 dizer com calma: \u201cIsso me incomoda, eu prefiro que n\u00e3o seja assim.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode ser que algu\u00e9m estranhe. Pode ser que algu\u00e9m se irrite. Pode ser que ningu\u00e9m entenda. Mas, por baixo do desconforto, existe um movimento importante acontecendo: uma gera\u00e7\u00e3o tentando amar sem se abandonar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu falo de autonomia afetiva, eu n\u00e3o estou falando de independ\u00eancia fria, daquelas que dizem \u201cn\u00e3o preciso de ningu\u00e9m\u201d. Estou falando de uma presen\u00e7a inteira em si, que escolhe se relacionar sem se trair. Que olha para tr\u00e1s e reconhece: \u201cEu vim da\u00ed, mas n\u00e3o sou s\u00f3 isso.\u201d Que olha para os av\u00f3s e, ao inv\u00e9s de julgar, compreende o contexto deles e ainda assim se autoriza a fazer diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque talvez o maior gesto de amor que podemos oferecer \u00e0 nossa hist\u00f3ria familiar seja justamente esse: interromper, com cuidado e consci\u00eancia, aquilo que nos feriu sem inten\u00e7\u00e3o. Transformar heran\u00e7a em escolha. Receber o afeto que eles souberam dar, e ao mesmo tempo criar formas novas de amar, mais alinhadas com a vida que temos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Dia dos Av\u00f3s chegar, entre a foto com sorriso, o bolo, o telefonema ou a lembran\u00e7a de quem j\u00e1 se foi, talvez voc\u00ea possa fazer um pequeno rito interno: agradecer o caminho que veio antes, com suas faltas e seus excessos, e prometer a si mesmo n\u00e3o viver no piloto autom\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frase que fica, se eu pudesse condensar tudo isso, seria algo assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">eu posso honrar de onde eu vim, sem precisar repetir tudo o que aprendi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse espa\u00e7o delicado entre ra\u00edzes e escolhas que a autonomia afetiva acontece: eu reconhe\u00e7o a hist\u00f3ria, abra\u00e7o o que me nutre, cuido do que me fere e sigo adiante mais inteiro, mais verdadeiro, mais meu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Idealizador da Ashells Psican\u00e1lise Cl\u00ednica especialista em Depend\u00eancia Emocional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vice-presidente do Instituto Nacional de Psican\u00e1lise Cl\u00ednica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @psicanalista_jackson_shella @psicanaliseativainpc Eu n\u00e3o sei como \u00e9 na sua fam\u00edlia, mas vou arriscar uma cena: um almo\u00e7o de domingo, mesa cheia, panela no fog\u00e3o, algu\u00e9m falando alto demais na ponta da mesa, outro calado demais no canto. 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