{"id":51637,"date":"2026-08-07T12:28:58","date_gmt":"2026-08-07T15:28:58","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=51637"},"modified":"2026-08-07T12:28:58","modified_gmt":"2026-08-07T15:28:58","slug":"pai-eu-posso-escolher-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/pai-eu-posso-escolher-minha-vida\/","title":{"rendered":"Pai, eu posso escolher minha vida?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@Psicanalista_Jackson_Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanaliseativainpc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma idade em que eu percebo que passei boa parte da vida tentando provar aos meus pais que fiz boas escolhas. Como se cada decis\u00e3o precisasse carregar uma esp\u00e9cie de justificativa: o curso, o trabalho, o relacionamento, a cidade onde moro, o jeito como educo meus filhos. \u00c0s vezes, nem estou mais diante deles, mas ainda escuto, dentro de mim, a pergunta: \u201cSer\u00e1 que eles v\u00e3o aprovar?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a proximidade do Dia dos Pais, essas quest\u00f5es podem ficar ainda mais presentes. As vitrines se enchem de mensagens sobre gratid\u00e3o, os an\u00fancios falam de homenagens, as fam\u00edlias se re\u00fanem. E, no meio de tudo isso, talvez eu sinta amor, saudade, gratid\u00e3o, ressentimento, culpa ou uma mistura dif\u00edcil de nomear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem toda hist\u00f3ria com um pai \u00e9 simples. H\u00e1 pais presentes e pais ausentes. Pais que fizeram o melhor que conseguiram e pais que deixaram marcas profundas. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es afetuosas, rela\u00e7\u00f5es distantes e rela\u00e7\u00f5es que s\u00f3 se tornam poss\u00edveis quando existem limites bem definidos. Por isso, amar n\u00e3o significa fingir que nada aconteceu. Tamb\u00e9m n\u00e3o significa permanecer dispon\u00edvel para qualquer exig\u00eancia em nome do v\u00ednculo familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu penso, por exemplo, naquele filho que recebe uma liga\u00e7\u00e3o do pai perguntando quando ele pretende \u201ctomar jeito\u201d e voltar para a profiss\u00e3o que a fam\u00edlia considera segura. Ele trabalha com algo de que gosta, consegue pagar suas contas e sente orgulho do caminho que construiu. Ainda assim, depois da liga\u00e7\u00e3o, passa a noite inquieto, imaginando se decepcionou o pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou naquela filha que escolhe n\u00e3o se casar, n\u00e3o ter filhos ou terminar uma rela\u00e7\u00e3o que todos aprovavam. Ela sabe que precisa seguir adiante, mas sente que cada escolha pessoal ser\u00e1 interpretada como uma afronta. Ent\u00e3o, come\u00e7a a explicar demais, pedir desculpas demais e consultar a fam\u00edlia antes de escutar o pr\u00f3prio desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu reconhe\u00e7o como pode ser dif\u00edcil deixar de buscar esse reconhecimento. Quando somos crian\u00e7as, o olhar dos pais parece uma esp\u00e9cie de espelho do nosso valor. Queremos ser vistos, elogiados, escolhidos. E, quando esse reconhecimento n\u00e3o vem, podemos passar muitos anos tentando conquist\u00e1-lo por meio do desempenho, da obedi\u00eancia ou da ren\u00fancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas chega um momento em que eu preciso fazer uma pergunta honesta: estou escolhendo porque isso faz sentido para mim ou porque ainda tento evitar a desaprova\u00e7\u00e3o deles?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pergunta n\u00e3o precisa ser feita com raiva. Ela pode nascer com delicadeza, como quem abre uma janela em um quarto h\u00e1 muito tempo fechado. Eu posso agradecer o que recebi sem transformar a gratid\u00e3o em d\u00edvida. Posso reconhecer os sacrif\u00edcios dos meus pais sem entregar a eles o comando da minha vida. Posso am\u00e1-los e, ao mesmo tempo, dizer: \u201cEu entendo que voc\u00ea pense assim, mas essa decis\u00e3o \u00e9 minha.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez essa seja uma das formas mais maduras de amor: n\u00e3o exigir que o outro viva de acordo com as minhas expectativas e tamb\u00e9m n\u00e3o abandonar a pr\u00f3pria verdade para ser aceito. A autonomia afetiva come\u00e7a quando eu consigo permanecer ligado sem me apagar; quando escuto a opini\u00e3o dos meus pais, mas n\u00e3o confundo a opini\u00e3o deles com uma senten\u00e7a sobre quem sou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1 uma virada importante nisso tudo: quando eu deixo de viver para agrad\u00e1-los, n\u00e3o necessariamente me torno mais distante. Muitas vezes, torno-me mais verdadeiro. As conversas deixam de ser conduzidas por medo, e a presen\u00e7a deixa de ser uma performance. Eu n\u00e3o preciso mais oferecer uma vers\u00e3o cuidadosamente editada de mim para merecer amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste Dia dos Pais, talvez eu possa homenagear essa rela\u00e7\u00e3o de um modo mais inteiro. Com um abra\u00e7o, uma liga\u00e7\u00e3o, uma lembran\u00e7a ou, quando for necess\u00e1rio, com um limite que proteja a minha paz. Porque amar meus pais n\u00e3o deveria exigir que eu abandone a pessoa que estou me tornando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aprova\u00e7\u00e3o deles pode ser bonita, mas n\u00e3o pode ser a medida de todas as minhas decis\u00f5es. No fim, amadurecer \u00e9 aprender a carregar o amor recebido sem permitir que ele pese mais do que a minha pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Idealizador da Ashells Psican\u00e1lise Cl\u00ednica especialista em Depend\u00eancia Emocional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vice-presidente do Instituto Nacional de Psican\u00e1lise Cl\u00ednica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @Psicanalista_Jackson_Shella @psicanaliseativainpc Existe uma idade em que eu percebo que passei boa parte da vida tentando provar aos meus pais que fiz boas escolhas. 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