{"id":51783,"date":"2026-08-13T08:56:41","date_gmt":"2026-08-13T11:56:41","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=51783"},"modified":"2026-08-13T08:56:41","modified_gmt":"2026-08-13T11:56:41","slug":"o-perigo-do-reconhecimento-por-show-up","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-perigo-do-reconhecimento-por-show-up\/","title":{"rendered":"O perigo do reconhecimento por show-up"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Dra. Vanessa Nobre&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@adv.nobre&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">11-91012-2233&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A v\u00edtima investiga nas redes sociais, localiza algu\u00e9m que acredita ser o suspeito e leva \u00e0 delegacia.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine ser v\u00edtima de um crime.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo acontece rapidamente. Medo, tens\u00e3o, amea\u00e7a, poucos segundos para observar o rosto de quem est\u00e1 \u00e0 sua frente.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, tentando descobrir quem praticou o crime, voc\u00ea come\u00e7a a investigar por conta pr\u00f3pria, entra no Instagram ou Facebook de algu\u00e9m relacionado ao fato. Olha seus amigos. Abre fotografias. Amplia rostos. Compara um perfil com outro. At\u00e9 encontrar algu\u00e9m parecido.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea olha novamente. E pensa: \u201cFoi ele.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o salva a fotografia e a leva \u00e0 delegacia, indicando aquela pessoa como autora do crime.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode parecer uma atitude natural de quem deseja ajudar a pol\u00edcia. Mas existe um problema grave: essa investiga\u00e7\u00e3o particular pode contaminar justamente uma das provas mais delicadas do processo penal \u2014 o reconhecimento de pessoas.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">QUANDO A V\u00cdTIMA PASSA A INVESTIGAR&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mem\u00f3ria humana n\u00e3o funciona como uma c\u00e2mera que grava uma cena e depois reproduz exatamente o que aconteceu.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pode sofrer interfer\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a v\u00edtima pesquisa fotografias por conta pr\u00f3pria, existe o risco de o rosto visto depois do crime interferir na lembran\u00e7a do rosto visto durante o crime.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais aquela fotografia \u00e9 observada, maior pode ser sua familiaridade.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 justamente a\u00ed que surge uma pergunta fundamental:&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a v\u00edtima posteriormente diz \u201ceu reconhe\u00e7o esse homem\u201d, ela est\u00e1 reconhecendo o rosto que viu durante o crime ou o rosto que passou a conhecer pelas redes sociais?&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse problema \u00e9 ainda mais grave quando, depois de a pr\u00f3pria v\u00edtima selecionar determinado indiv\u00edduo, a fotografia escolhida \u00e9 levada \u00e0 delegacia e utilizada para formalizar um reconhecimento.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A investiga\u00e7\u00e3o policial come\u00e7a, ent\u00e3o, n\u00e3o com um suspeito identificado por elementos independentes, mas com uma hip\u00f3tese constru\u00edda pela pr\u00f3pria v\u00edtima a partir de fotografias pesquisadas na internet.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O QUE \u00c9 O RECONHECIMENTO POR SHOW-UP?&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O chamado show-up ocorre quando apenas uma pessoa suspeita \u2014 ou somente sua fotografia \u2014 \u00e9 apresentada \u00e0 v\u00edtima para que ela diga se \u00e9 ou n\u00e3o a autora do crime.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um procedimento altamente sugestivo.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, o artigo 226 do C\u00f3digo de Processo Penal estabelece cautelas para o reconhecimento de pessoas, come\u00e7ando pela descri\u00e7\u00e3o pr\u00e9via daquele que ser\u00e1 reconhecido e prevendo, quando poss\u00edvel, sua coloca\u00e7\u00e3o ao lado de outras pessoas semelhantes.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas formalidades n\u00e3o existem para dificultar uma investiga\u00e7\u00e3o. Existem para diminuir a possibilidade de que um inocente seja identificado como criminoso.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EU J\u00c1 LEVEI ESSA DISCUSS\u00c3O AO STJ&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas te\u00f3rica.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um Habeas Corpus que tive a oportunidade de impetrar perante o Superior Tribunal de Justi\u00e7a, o HC 818.666\/SP, discutimos justamente um reconhecimento realizado na modalidade show-up, a partir de fotografias encontradas em redes sociais.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele caso, as pr\u00f3prias v\u00edtimas haviam realizado buscas e procurado, entre os contatos existentes nas redes sociais, pessoas que se assemelhassem aos demais autores do crime.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Questionei a confiabilidade daquele reconhecimento.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Habeas Corpus foi acolhido e o STJ reconheceu a invalidade jur\u00eddica da prova de reconhecimento.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao analisar o caso, o Ministro Rogerio Schietti Cruz destacou o risco existente quando as pr\u00f3prias v\u00edtimas passam a investigar, ficando expostas a situa\u00e7\u00f5es capazes de contaminar sua mem\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E existe uma conclus\u00e3o daquele julgamento que merece aten\u00e7\u00e3o: estar entre os contatos da rede social de algu\u00e9m n\u00e3o transforma uma pessoa em suspeita de um crime.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser amigo no Facebook, seguir algu\u00e9m no Instagram, aparecer em uma fotografia ou estar entre seus contatos n\u00e3o comprova participa\u00e7\u00e3o criminosa.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OUTRO CASO CHEGOU AO STJ&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro julgamento, no HC 903.268\/SP, a v\u00edtima de um roubo decidiu investigar sozinha quem seria o segundo criminoso.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela encontrou o perfil do homem que havia sido preso, entrou em sua rede social e come\u00e7ou a vasculhar sua lista de amigos at\u00e9 encontrar algu\u00e9m que acreditou ser o comparsa.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, levou as fotografias \u00e0 delegacia.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O reconhecimento foi formalizado e posteriormente repetido em ju\u00edzo.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Sexta Turma do STJ absolveu o acusado.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Tribunal destacou que aquela identifica\u00e7\u00e3o se baseava na mem\u00f3ria visual da v\u00edtima sobre algu\u00e9m observado durante poucos segundos e em situa\u00e7\u00e3o de grande tens\u00e3o emocional, al\u00e9m de inexistirem provas independentes suficientes para sustentar a autoria.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso demonstra exatamente o perigo de transformar uma busca em rede social em investiga\u00e7\u00e3o criminal.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque uma v\u00edtima pode estar dizendo exatamente aquilo em que acredita \u2014 e, ainda assim, estar reconhecendo a pessoa errada.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00e3o correr o risco de invalidar uma prova, deixe que a pol\u00edcia investigue seguindo artigo 226 do C\u00f3digo de Processo Penal que estabelece cautelas para o reconhecimento de pessoas.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOBRE A AUTORA:&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VANESSA NOBRE \/ Advogada Criminalista&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">@adv.nobre&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WhatsApp: (11) 91012-2233&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Advogada criminalista, autora e colunista de \u201cA VOZ DA DEFESA\u201d&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dedica-se ao estudo e \u00e1 aplica\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o defensiva, provas digitais, per\u00edcia e an\u00e1lise t\u00e9cnica de evid\u00eancias, \u00e1rea que v\u00eam transformando a advocacia contempor\u00e2nea.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua atua\u00e7\u00e3o concentra-se na identifica\u00e7\u00e3o, valida\u00e7\u00e3o e contesta\u00e7\u00e3o de provas, utilizando m\u00e9todos investigativos e conhecimento t\u00e9cnicos capazes de auxiliar na busca da verdade dos fatos e na constru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias defensivas s\u00f3lidas.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Defensora da inova\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, acredita que o futuro da advocacia passa necessariamente pela compreens\u00e3o das novas tecnologias e da prova digital.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dra. 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