{"id":51985,"date":"2026-08-21T09:24:35","date_gmt":"2026-08-21T12:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=51985"},"modified":"2026-08-21T09:24:35","modified_gmt":"2026-08-21T12:24:35","slug":"a-rota-da-cura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-rota-da-cura\/","title":{"rendered":"A Rota da Cura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia: h\u00e1 vit\u00f3rias que s\u00f3 existem porque houve travessia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dela, no alto da escadaria Daru, no Museu do Louvre, h\u00e1 um instante em que \u00e9 preciso parar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher diante de n\u00f3s n\u00e3o tem cabe\u00e7a. N\u00e3o tem bra\u00e7os. Suas asas carregam as marcas de mais de dois mil anos. E, ainda assim, poucas imagens na hist\u00f3ria da arte conseguem transmitir tanta for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 a Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez seja justamente isso que torne essa escultura t\u00e3o impactante: ela nos obriga a rever aquilo que entendemos por vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque nem toda vit\u00f3ria chega inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma deusa chegando depois da batalha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia foi criada por volta do s\u00e9culo II a.C., durante o per\u00edodo helen\u00edstico da arte grega. Ela representa Nike, a deusa grega da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escultura foi encontrada em 1863 na ilha grega de Samotr\u00e1cia pelo diplomata e arque\u00f3logo amador Charles Champoiseau. Estava fragmentada. Diversas partes foram recuperadas e posteriormente levadas para o Louvre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas existe um detalhe fundamental para compreendermos a obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nike n\u00e3o foi concebida simplesmente para ficar sobre um pedestal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela estava posicionada sobre a proa de um navio de pedra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu corpo inclina-se para a frente. As enormes asas est\u00e3o abertas. O tecido parece colado ao corpo pelo vento e pela \u00e1gua do mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo nela sugere movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se estiv\u00e9ssemos presenciando exatamente o instante em que a Vit\u00f3ria chega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provavelmente, o monumento celebrava uma vit\u00f3ria naval, embora as circunst\u00e2ncias exatas de sua encomenda ainda sejam discutidas pelos estudiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez exista a\u00ed uma primeira met\u00e1fora importante para nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias: a vit\u00f3ria n\u00e3o aparece antes da tempestade. Ela chega depois da travessia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher que perdeu partes de si<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo profundamente humano em olhar para uma deusa da vit\u00f3ria que chegou at\u00e9 n\u00f3s incompleta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabemos exatamente como era seu rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus bra\u00e7os desapareceram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partes de suas asas precisaram ser reconstru\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ainda assim, quando subimos a escadaria do Louvre e a encontramos diante de n\u00f3s, dificilmente pensamos primeiro naquilo que lhe falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensamos em sua for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa experi\u00eancia me fez pensar em algo que encontro repetidamente nas hist\u00f3rias de mulheres que atravessam grandes rupturas afetivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma separa\u00e7\u00e3o, muitas dizem:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu quero voltar a ser quem eu era.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 compreens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando uma rela\u00e7\u00e3o importante termina, n\u00e3o perdemos apenas uma pessoa. Podemos perder projetos, refer\u00eancias, lugares sociais, certezas e at\u00e9 a imagem que constru\u00edmos sobre n\u00f3s mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se algumas partes da identidade tamb\u00e9m desaparecessem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas existe uma pergunta que considero ainda mais importante:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se a cura n\u00e3o significar voltar a ser quem voc\u00ea era?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 perdas que nos modificam para sempre<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, constru\u00edmos uma ideia perigosa sobre supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A de que superar significa deixar de sentir. Esquecer. Virar a p\u00e1gina. Voltar ao normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas algumas experi\u00eancias n\u00e3o nos devolvem ao ponto de partida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elas nos atravessam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois delas, podemos continuar vivendo, amando, construindo e at\u00e9 sendo felizes novamente \u2014 mas n\u00e3o somos exatamente as mesmas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso n\u00e3o significa que fracassamos na cura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Significa que houve transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia n\u00e3o precisou recuperar seus bra\u00e7os para continuar sendo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o precisemos recuperar todas as vers\u00f5es que fomos para reconhecer a mulher que estamos nos tornando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cura n\u00e3o \u00e9 apagar a hist\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que gosto de fazer uma distin\u00e7\u00e3o importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curar n\u00e3o significa romantizar o sofrimento. Nem acreditar que \u201ctudo acontece por uma raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem perdas que gostar\u00edamos sinceramente de n\u00e3o ter vivido. Existem rela\u00e7\u00f5es que deixam feridas profundas. Existem finais injustos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cura come\u00e7a quando conseguimos olhar para o que aconteceu sem permitir que aquilo continue determinando toda a nossa identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meu trabalho, chamo esse processo de travessia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um ponto em que precisamos reconhecer a dor. Outro em que precisamos compreender nossas feridas. Depois, lentamente, come\u00e7a a reconstru\u00e7\u00e3o da identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que uma pergunta diferente aparece. N\u00e3o mais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor que isso aconteceu comigo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem escolho ser depois do que aconteceu comigo?\u201d Essa mudan\u00e7a parece pequena. Mas pode mudar uma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As asas continuam abertas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja por isso que a Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia continue causando tanto impacto depois de tantos s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu corpo carrega aus\u00eancias. Mas suas asas permanecem abertas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa imagem cont\u00e9m uma verdade que precisamos lembrar especialmente nos momentos de recome\u00e7o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">estar marcada pela vida n\u00e3o \u00e9 o mesmo que estar derrotada por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode ter perdido uma rela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o ter perdido sua capacidade de amar. Pode ter perdido um projeto e ainda construir outro. Pode ter perdido certezas e descobrir novas escolhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode n\u00e3o ser mais a mulher que entrou naquela hist\u00f3ria \u2014 e talvez esse seja justamente o come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque algumas vit\u00f3rias n\u00e3o acontecem quando recuperamos aquilo que perdemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontecem quando percebemos que, apesar do que perdemos, ainda conseguimos seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a pergunta diante da Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia n\u00e3o seja: \u201cComo ela pode ser t\u00e3o bela mesmo estando incompleta?\u201d Talvez seja outra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem decidiu que precisamos estar intactas para sermos inteiras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida deixa marcas. Algumas ser\u00e3o restauradas. Outras permanecer\u00e3o conosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas chega um momento da travessia em que paramos de procurar desesperadamente pelas partes que ficaram para tr\u00e1s e come\u00e7amos a reconhecer aquilo que sobreviveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria for\u00e7a. A pr\u00f3pria voz. A pr\u00f3pria identidade. A pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez seja exatamente nesse momento que compreendamos a mensagem silenciosa daquela mulher alada que atravessou mais de dois mil anos para permanecer diante de n\u00f3s:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a vit\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 chegar ao outro lado sem marcas. \u00c9 chegar ao outro lado e descobrir que suas asas ainda est\u00e3o abertas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bia Rossatti \u00e9 terapeuta familiar e autora de \u201cA Rota da Cura\u201d, obra dedicada aos processos de cura emocional, reconstru\u00e7\u00e3o da identidade e recome\u00e7o ap\u00f3s rupturas afetivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti&nbsp; Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia: h\u00e1 vit\u00f3rias que s\u00f3 existem porque houve travessia Diante dela, no alto da escadaria Daru, no Museu do Louvre, h\u00e1 um instante em que \u00e9 preciso parar. 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