{"id":52157,"date":"2026-08-28T08:34:24","date_gmt":"2026-08-28T11:34:24","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=52157"},"modified":"2026-08-28T08:34:24","modified_gmt":"2026-08-28T11:34:24","slug":"a-sua-compreensao-nao-pode-virar-permissao-para-o-outro-de-ferir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-sua-compreensao-nao-pode-virar-permissao-para-o-outro-de-ferir\/","title":{"rendered":"A sua compreens\u00e3o n\u00e3o pode virar permiss\u00e3o para o outro de ferir"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por @biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que N\u00e3o Temas o Mal, de Eva Pierrakos e Donovan Thesenga, nos ensina sobre sombra, responsabilidade e limites dentro dos relacionamentos?&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma diferen\u00e7a importante entre compreender o comportamento de algu\u00e9m e aceit\u00e1-lo. Podemos compreender de onde vem a raiva de uma pessoa. Podemos entender que ela foi ferida. Podemos reconhecer seus medos, suas inseguran\u00e7as, sua hist\u00f3ria e at\u00e9 as experi\u00eancias que ajudaram a construir determinados padr\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: em que momento a nossa compreens\u00e3o come\u00e7a a se transformar em permiss\u00e3o para o outro nos ferir? Essa \u00e9 uma quest\u00e3o especialmente importante em qualquer tipo de relacionamento, mas ganha um papel mais importante nos relacionamentos amorosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro N\u00e3o Temas o Mal, de Eva Pierrakos e Donovan Thesenga, parte de uma reflex\u00e3o profunda sobre a exist\u00eancia daquilo que podemos chamar de sombra: aspectos destrutivos que tamb\u00e9m fazem parte da experi\u00eancia humana e que, quando permanecem inconscientes, podem comandar comportamentos e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra dialoga com a perspectiva de Carl Gustav Jung de que o ser humano precisa reconhecer aquilo que existe em sua pr\u00f3pria natureza, inclusive aquilo que n\u00e3o gostaria de admitir. E talvez essa seja uma das partes mais dif\u00edceis do processo de autoconhecimento: olhar para o mal sem neg\u00e1-lo \u2014 mas tamb\u00e9m sem normaliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreender n\u00e3o \u00e9 justificar e essa diferen\u00e7a pode parecer \u00f3bvia, mas desaparece facilmente quando existe amor. Uma mulher pode pensar: \u201cEle age assim porque sofreu muito.\u201d \u201cEle tem medo de ser abandonado.\u201d \u201cEle n\u00e3o aprendeu a demonstrar afeto.\u201d \u201cEle foi tra\u00eddo no relacionamento anterior.\u201d \u201cEle teve uma inf\u00e2ncia dif\u00edcil.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tudo isso pode ser verdade. Mas nenhuma dessas explica\u00e7\u00f5es transforma um comportamento destrutivo em um comportamento aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de algu\u00e9m pode explicar sua rea\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o precisa autorizar essa rea\u00e7\u00e3o. Uma pessoa ferida pode ferir. Mas estar ferida n\u00e3o lhe d\u00e1 o direito de ferir algu\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perigo de romantizar a sombra do outro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma forma de espiritualidade e de autoconhecimento que pode se tornar perigosa quando \u00e9 usada sem discernimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7amos a acreditar que precisamos compreender tudo. Que precisamos acolher tudo. Que precisamos ter compaix\u00e3o por tudo. E, pouco a pouco, deixamos de perceber que estamos ultrapassando os nossos pr\u00f3prios limites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passamos a chamar controle de inseguran\u00e7a. Manipula\u00e7\u00e3o de medo. Ci\u00fame de amor. Sil\u00eancio punitivo de necessidade de espa\u00e7o. Desrespeito de dificuldade emocional. E viol\u00eancia de \u201cuma pessoa que tamb\u00e9m est\u00e1 machucada\u201d. A compreens\u00e3o, quando perde o limite, pode se transformar em cumplicidade com aquilo que nos destr\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode compreender a dor de algu\u00e9m sem oferecer a ela acesso ilimitado \u00e0 sua vida. E existe uma responsabilidade que tamb\u00e9m \u00e9 nossa: Olhar para a sombra n\u00e3o significa apenas perceber o lado destrutivo do outro. Tamb\u00e9m precisamos olhar para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que permane\u00e7o em uma situa\u00e7\u00e3o que me machuca? Por que preciso encontrar uma explica\u00e7\u00e3o para tudo que o outro faz? Por que acredito que, se eu compreender suficientemente bem a hist\u00f3ria dele, conseguirei finalmente faz\u00ea-lo mudar? Por que confundo amar com suportar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Responder essas perguntas podem ser dolorosas. Mas s\u00e3o perguntas de responsabilidade. Responsabilidade n\u00e3o significa culpa. Uma mulher n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela viol\u00eancia que algu\u00e9m escolheu praticar contra ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas pode, em algum momento, precisar assumir a responsabilidade por aquilo que far\u00e1 a partir do momento em que reconhece que aquela rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 lhe fazendo mal. E isso pode significar estabelecer um limite. Pedir ajuda. Afastar-se. Encerrar um ciclo. Ou simplesmente parar de tentar justificar aquilo que j\u00e1 ultrapassou o que ela considera aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor n\u00e3o exige que voc\u00ea aceite o mal.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez uma das maiores confus\u00f5es nos relacionamentos seja acreditar que colocar um limite significa deixar de amar. N\u00e3o significa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode amar algu\u00e9m e dizer: \u201cEu entendo por que voc\u00ea reage assim. Mas n\u00e3o aceito que voc\u00ea me trate dessa maneira.\u201d Pode compreender a hist\u00f3ria de algu\u00e9m e ainda assim decidir n\u00e3o continuar vivendo os efeitos dessa hist\u00f3ria. Pode ter compaix\u00e3o e ter limites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode perdoar e n\u00e3o permanecer. Pode compreender e se afastar. Pode reconhecer a sombra do outro sem permitir que ela determine o seu destino. Isso tamb\u00e9m \u00e9 maturidade emocional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que acontece quando olhamos para a nossa pr\u00f3pria sombra?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui est\u00e1 a outra parte da reflex\u00e3o proposta por N\u00e3o Temas o Mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 muito f\u00e1cil falar sobre o mal que existe no outro. Mais dif\u00edcil \u00e9 reconhecer aquilo que existe em n\u00f3s. Porque todos podemos, em determinados momentos, agir a partir de lugares menos conscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos manipular. Punir com sil\u00eancio. Controlar. Provocar. Reter afeto. Querer vencer uma discuss\u00e3o em vez de resolver um conflito. Usar a fragilidade do outro contra ele. Ou simplesmente desejar que o outro sinta a mesma dor que estamos sentindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecer isso n\u00e3o significa dizer: \u201cEu sou uma pessoa m\u00e1.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Significa conseguir dizer: \u201cExiste em mim uma parte capaz de agir de maneira destrutiva \u2014 e eu preciso me responsabilizar por ela.\u201d E esse reconhecimento \u00e9 muito diferente de justificar o pr\u00f3prio comportamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo relacionamento revela aquilo que ainda precisa ser conscientizado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A intimidade tem esse poder. Ela coloca diante de n\u00f3s partes que talvez consegu\u00edssemos esconder no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo de abandono. A necessidade de controle. A dificuldade de confiar. A raiva. O ressentimento. A depend\u00eancia. A necessidade de ser reconhecida. O desejo de dominar. A dificuldade de aceitar um \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, um relacionamento pode se tornar um espa\u00e7o poderoso de autoconhecimento. Mas existe uma condi\u00e7\u00e3o: precisamos estar dispostos a olhar para aquilo que descobrimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o adianta perceber a sombra e continuar obedecendo a ela. N\u00e3o adianta compreender a pr\u00f3pria agressividade e dizer que \u201c\u00e9 porque eu fui machucada\u201d. N\u00e3o adianta reconhecer a inseguran\u00e7a e continuar controlando o parceiro.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autoconhecimento n\u00e3o \u00e9 uma licen\u00e7a para continuar repetindo o que nos destr\u00f3i. Antes de tudo \u00e9 um convite \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e, nem todo mal precisa ser acolhido<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez essa seja uma das ideias mais importantes para levarmos para os relacionamentos: acolher a humanidade de algu\u00e9m n\u00e3o significa acolher qualquer comportamento dessa pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem comportamentos que precisam de conversa. Outros precisam de limite. Alguns exigem dist\u00e2ncia. E h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que buscar ajuda profissional ou prote\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel. O limite n\u00e3o \u00e9 falta de amor. \u00c0s vezes, o limite \u00e9 justamente a primeira atitude de respeito por si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta que pode mudar tudo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez, diante de uma rela\u00e7\u00e3o que est\u00e1 causando sofrimento, a pergunta n\u00e3o precise ser apenas: \u201cPor que ele(a) faz isso?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos perguntar tamb\u00e9m: \u201cO que eu estou fazendo com aquilo que ele(a) faz?\u201d Estou tentando compreender para poder decidir com consci\u00eancia? Ou estou compreendendo para conseguir suportar mais um pouco?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou olhando para a realidade? Ou estou procurando uma explica\u00e7\u00e3o que torne o intoler\u00e1vel mais f\u00e1cil de tolerar?&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou exercendo compaix\u00e3o? Ou estou abandonando a mim mesma(o) em nome dela? Porque compreender o outro pode ser uma express\u00e3o de maturidade. Mas compreender o outro \u00e0s custas de deixar de se proteger pode se transformar em abandono de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez seja justamente a\u00ed que a reflex\u00e3o sobre a sombra se torna t\u00e3o necess\u00e1ria. Precisamos ter coragem para reconhecer que o ser humano \u00e9 capaz de produzir sofrimento. Precisamos ter coragem para olhar para essa possibilidade dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m precisamos ter coragem para dizer: \u201cEu compreendo a sua hist\u00f3ria. Mas ela n\u00e3o me obriga a aceitar aquilo que me fere.\u201d Porque conhecer a sombra n\u00e3o significa fazer as pazes com o mal. Significa enxerg\u00e1-lo com consci\u00eancia suficiente para n\u00e3o sermos governados por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a autora<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Beatriz Rossatti \u00e9 terapeuta sist\u00eamica e autora do livro Depois do Div\u00f3rcio &#8211; A Rota da Cura, uma obra dedicada ao processo de reconstru\u00e7\u00e3o emocional e ao caminho de volta para si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de sua trajet\u00f3ria, Beatriz acompanha pessoas que desejam compreender os padr\u00f5es que se repetem em suas rela\u00e7\u00f5es, recuperar a pr\u00f3pria autonomia emocional e construir v\u00ednculos mais conscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu trabalho parte de uma premissa simples, mas profunda: a cura n\u00e3o acontece quando encontramos algu\u00e9m para culpar pela nossa hist\u00f3ria, mas quando desenvolvemos consci\u00eancia sobre aquilo que podemos transformar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse caminho que temas como sombra, responsabilidade, limites e relacionamentos ganham um novo significado. Porque olhar para dentro n\u00e3o \u00e9 assumir a culpa pelo que o outro fez. \u00c9 recuperar o poder de escolher o que faremos com aquilo que vivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por @biarossattiterapeuta &nbsp; O que N\u00e3o Temas o Mal, de Eva Pierrakos e Donovan Thesenga, nos ensina sobre sombra, responsabilidade e limites dentro dos relacionamentos?&nbsp; Existe uma diferen\u00e7a importante entre compreender o comportamento de algu\u00e9m e aceit\u00e1-lo. Podemos compreender de onde vem a raiva de uma pessoa. Podemos entender que ela foi ferida. 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