{"id":52367,"date":"2026-09-04T04:46:10","date_gmt":"2026-09-04T07:46:10","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=52367"},"modified":"2026-09-03T18:50:32","modified_gmt":"2026-09-03T21:50:32","slug":"a-mae-boa-demais-quando-proteger-os-filhos-pode-impedir-que-eles-crescam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/a-mae-boa-demais-quando-proteger-os-filhos-pode-impedir-que-eles-crescam\/","title":{"rendered":"A m\u00e3e boa demais: quando proteger os filhos pode impedir que eles cres\u00e7am"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como terapeuta familiar, sempre recebo fam\u00edlias que t\u00eam dificuldade de confiar nos filhos e permitir que eles construam autonomia e uma exist\u00eancia pr\u00f3pria. E isso, muitas vezes, acaba se transformando em conflitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o mais comum do que parece. A m\u00e3e quer ajudar. Quer evitar sofrimento. Quer impedir que o filho erre. Quer poup\u00e1-lo das dores que ela mesma j\u00e1 conheceu. E, sem perceber, come\u00e7a a fazer pelo filho aquilo que ele j\u00e1 poderia estar aprendendo a fazer sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decide por ele. Interfere em seus relacionamentos. Resolve seus problemas. Opina sobre suas escolhas. Tenta antecipar as consequ\u00eancias. Tudo isso pode nascer do amor. Mas ela n\u00e3o percebe quando o cuidado deixa de ser prote\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a impedir o crescimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a maternidade madura comece justamente quando a m\u00e3e consegue trocar a pergunta \u201cComo posso proteg\u00ea-lo?\u201d por outra, mais dif\u00edcil: \u201cComo posso ajud\u00e1-lo a confiar em si mesmo?\u201d \u00c9 sobre isso que penso quando trabalho com o conto de Vasalisa, uma narrativa que costumo utilizar em sess\u00f5es por sua riqueza simb\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A menina, a m\u00e3e e a boneca<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No conto, Vasalisa \u00e9 ainda uma menina quando sua m\u00e3e, gravemente enferma, percebe que est\u00e1 pr\u00f3xima da morte. Antes de partir, ela entrega \u00e0 filha uma pequena boneca. E deixa uma orienta\u00e7\u00e3o: se Vasalisa estiver perdida ou precisar de ajuda, dever\u00e1 consultar a boneca; tamb\u00e9m dever\u00e1 aliment\u00e1-la e cuidar dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois disso, a m\u00e3e morre. Essa passagem \u00e9 fundamental. Porque a m\u00e3e n\u00e3o deixa para a filha um manual sobre como viver. Ela n\u00e3o diz: \u201cFa\u00e7a exatamente isso.\u201d \u201cN\u00e3o fa\u00e7a aquilo.\u201d \u201cEu vou resolver para voc\u00ea.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela entrega \u00e0 filha uma refer\u00eancia interna. Uma esp\u00e9cie de sabedoria que Vasalisa poder\u00e1 consultar quando estiver diante do desconhecido. E ent\u00e3o a vida coloca Vasalisa diante daquilo que nenhuma m\u00e3e consegue evitar para sempre: a floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda crian\u00e7a precisa, em algum momento, entrar na floresta. Depois da morte da m\u00e3e, Vasalisa passa a viver com a madrasta e suas duas filhas, que a maltratam. At\u00e9 que, em determinado momento, mandam que ela entre sozinha na floresta para procurar fogo com Baba Yaga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A floresta \u00e9 escura. Ela sente medo. N\u00e3o sabe exatamente para onde ir. Mas carrega consigo a boneca que recebeu da m\u00e3e. E \u00e9 justamente a\u00ed que come\u00e7a uma das imagens mais bonitas do conto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada bifurca\u00e7\u00e3o, Vasalisa consulta a boneca. \u201cPara que lado devo ir?\u201d A boneca a orienta. Ela segue. E continua caminhando. Perceba a diferen\u00e7a: a m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 mais fisicamente ao lado dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas algo da m\u00e3e foi internalizado. A menina n\u00e3o ficou sem dire\u00e7\u00e3o. Ela come\u00e7ou a construir dentro de si uma capacidade de orienta\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que, muitas vezes, queremos fazer na terapia familiar: ajudar a fam\u00edlia a transformar uma rela\u00e7\u00e3o baseada em depend\u00eancia e controle em uma rela\u00e7\u00e3o baseada em v\u00ednculo e autonomia. Porque autonomia n\u00e3o significa aus\u00eancia de v\u00ednculo. Significa poder existir como algu\u00e9m diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema da m\u00e3e boa demais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma m\u00e3e que cuida tanto que acaba ocupando todos os espa\u00e7os. Ela sabe o que o filho deve fazer. Sabe qual faculdade escolher. Sabe qual relacionamento \u00e9 bom. Sabe quando ele deve terminar. Sabe como ele deveria educar os pr\u00f3prios filhos. Sabe quanto deve gastar. Sabe o que deve aceitar. E, principalmente, acredita que sabe porque ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o delicada: ser necess\u00e1rio pode se tornar uma necessidade da pr\u00f3pria m\u00e3e. Enquanto o filho precisa dela, ela sabe qual \u00e9 o seu lugar. Quando ele cresce, entretanto, come\u00e7a uma nova etapa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa etapa exige da m\u00e3e uma capacidade que nem sempre foi ensinada: deixar de conduzir para come\u00e7ar a confiar.Isso pode ser muito dif\u00edcil. Porque confiar significa aceitar que o filho pode escolher diferente. Pode errar. Pode sofrer. Pode tomar uma decis\u00e3o que ela n\u00e3o tomaria. E, ainda assim, continuar sendo capaz de viver sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Vasalisa aprende na floresta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vasalisa n\u00e3o recebe da boneca uma vida sem dificuldades. Ela precisa encontrar Baba Yaga \u2013 no conto uma bruxa! Precisa realizar tarefas dif\u00edceis. Precisa lidar com o medo. Precisa observar. Precisa perguntar. Precisa discernir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em determinado momento, inclusive, ela aprende que n\u00e3o precisa saber tudo. Quando Baba Yaga lhe oferece a oportunidade de fazer mais perguntas, Vasalisa escuta sua intui\u00e7\u00e3o e escolhe n\u00e3o avan\u00e7ar. Depois, quando perguntada sobre como conseguiu agir com tanta sabedoria, responde que foi a b\u00ean\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma passagem preciosa. Porque a b\u00ean\u00e7\u00e3o da m\u00e3e n\u00e3o aparece como controle sobre a filha. Aparece como uma for\u00e7a que a filha carrega consigo. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a enorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feminino saud\u00e1vel n\u00e3o cria depend\u00eancia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que podemos aproximar Vasalisa da perspectiva junguiana. No material sobre Jung que utilizo como refer\u00eancia, a individua\u00e7\u00e3o aparece como um processo de desenvolvimento no qual a pessoa integra diferentes dimens\u00f5es da pr\u00f3pria psique e preserva sua autonomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E os contos de fadas podem ser compreendidos justamente como imagens simb\u00f3licas de processos ps\u00edquicos. O material destaca que os arqu\u00e9tipos aparecem, entre outras formas, nos mitos e contos de fadas e que essas imagens podem ganhar novos significados quando se tornam conscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse ponto que penso no feminino saud\u00e1vel.N\u00e3o como um feminino que simplesmente cuida de todos e, muitas vezes esquece de si mesma. Mas como aquele que consegue integrar cuidado e limite, acolhimento e autonomia, v\u00ednculo e separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e saud\u00e1vel n\u00e3o precisa deixar de cuidar. Ela precisa aprender quando o cuidado j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais fazer pelo outro. \u00c0s vezes, cuidar \u00e9 escutar. \u00c0s vezes, \u00e9 orientar. \u00c0s vezes, \u00e9 dizer n\u00e3o. E, em outras situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 simplesmente permanecer dispon\u00edvel enquanto o outro tenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que tente errado. Mesmo que caia. Mesmo que escolha um caminho que n\u00f3s n\u00e3o escolher\u00edamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filho precisa sair do lugar de filho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas fam\u00edlias que chegam \u00e0 terapia, muitas vezes encontramos uma dificuldade silenciosa: a fam\u00edlia cresceu, mas os pap\u00e9is emocionais n\u00e3o cresceram junto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filho continua sendo tratado como crian\u00e7a. A m\u00e3e continua decidindo. O pai continua tentando proteger. E o adulto que est\u00e1 diante deles precisa lutar para conquistar um espa\u00e7o que deveria poder ocupar naturalmente: o espa\u00e7o de sujeito da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa que os pais deixem de ter import\u00e2ncia. Ao contr\u00e1rio. Um v\u00ednculo familiar saud\u00e1vel n\u00e3o desaparece quando os filhos conquistam autonomia. Ele se transforma. A rela\u00e7\u00e3o deixa de ser: \u201cEu sei o que \u00e9 melhor para voc\u00ea.\u201d E pode passar a ser: \u201cEu posso n\u00e3o concordar com sua escolha, mas reconhe\u00e7o que ela \u00e9 sua.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa talvez seja uma das formas mais maduras de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a m\u00e3e? Quem ela \u00e9 quando o filho cresce?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pergunta tamb\u00e9m precisa ser feita. Porque, muitas vezes, quando um filho conquista autonomia, a m\u00e3e precisa reconstruir uma parte da pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se durante muitos anos sua exist\u00eancia esteve organizada em torno do cuidado, o crescimento dos filhos pode provocar um vazio. E esse vazio pode ser preenchido, inconscientemente, por novas formas de interfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle n\u00e3o me procura mais.\u201d \u201cEla mudou depois que come\u00e7ou esse relacionamento.\u201d \u201cEu fa\u00e7o tudo por ele e ele n\u00e3o reconhece.\u201d \u201cEla n\u00e3o aceita mais meus conselhos.\u201d Talvez seja necess\u00e1rio olhar para al\u00e9m da reclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E perguntar: \u201cO que essa m\u00e3e perdeu quando o filho come\u00e7ou a ganhar autonomia?\u201d Porque algumas vezes o conflito n\u00e3o est\u00e1 apenas no comportamento do filho. Est\u00e1 no processo de separa\u00e7\u00e3o que a m\u00e3e ainda n\u00e3o conseguiu elaborar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdadeira heran\u00e7a de uma m\u00e3e<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que volto tantas vezes a Vasalisa. A m\u00e3e n\u00e3o consegue acompanhar a filha pela floresta. E talvez essa seja justamente a beleza da narrativa. Ela n\u00e3o acompanha. Ela prepara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vasalisa precisa entrar na floresta. Precisa enfrentar Baba Yaga. Precisa descobrir seus pr\u00f3prios recursos. Precisa aprender a discernir. Precisa voltar diferente. E a boneca representa essa liga\u00e7\u00e3o com uma sabedoria que, aos poucos, deixa de ser algo externo e passa a fazer parte dela. O conto mostra Vasalisa consultando essa pequena figura diante das bifurca\u00e7\u00f5es e seguindo suas orienta\u00e7\u00f5es durante a travessia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja isso que uma boa maternidade fa\u00e7a. N\u00e3o prepara o filho para precisar da m\u00e3e para sempre. Prepara-o para conseguir caminhar quando a m\u00e3e n\u00e3o estiver ao lado. Por isso, talvez a pergunta mais profunda da maternidade n\u00e3o seja: \u201cComo fa\u00e7o para que meu filho n\u00e3o sofra?\u201d Mas: \u201cComo posso ajud\u00e1-lo a desenvolver recursos para atravessar aquilo que eu n\u00e3o poderei atravessar por ele?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mudan\u00e7a de pergunta transforma a maternidade. Porque o objetivo n\u00e3o \u00e9 criar filhos que nunca precisem de n\u00f3s. \u00c9 criar filhos que saibam que podem contar conosco sem precisar deixar de ser quem s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amar tamb\u00e9m \u00e9 permitir que o outro exista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como terapeuta familiar, vejo diariamente que muitos conflitos entre pais e filhos adultos n\u00e3o acontecem porque falta amor. \u00c0s vezes, acontecem justamente porque h\u00e1 amor sem espa\u00e7o suficiente para a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 cuidado sem autonomia. H\u00e1 prote\u00e7\u00e3o sem confian\u00e7a. H\u00e1 presen\u00e7a sem separa\u00e7\u00e3o. E existe uma diferen\u00e7a fundamental entre pertencer a uma fam\u00edlia e pertencer \u00e0 vida do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu filho pertence \u00e0 sua hist\u00f3ria. Mas a vida dele n\u00e3o pertence a voc\u00ea. Sua filha pode carregar valores que recebeu de voc\u00ea, pode levar sua voz, seus ensinamentos, seus gestos e at\u00e9 suas feridas. Mas ela precisa descobrir o que far\u00e1 com tudo isso. Como Vasalisa, ela precisar\u00e1 entrar em suas pr\u00f3prias florestas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrar\u00e1 seus medos. Tomar\u00e1 decis\u00f5es. Encontrar\u00e1 suas Baba Yagas. Ter\u00e1 noites escuras. E precisar\u00e1 descobrir o pr\u00f3prio fogo. A m\u00e3e pode oferecer ra\u00edzes. Mas n\u00e3o pode viver as ra\u00edzes e as asas do filho por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a maternidade madura seja justamente essa passagem: primeiro, eu fa\u00e7o por voc\u00ea. Depois, eu fa\u00e7o com voc\u00ea. Ent\u00e3o, eu caminho ao seu lado. E, finalmente, eu confio que voc\u00ea pode caminhar sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o porque eu deixei de ser sua m\u00e3e. Mas porque voc\u00ea se tornou voc\u00ea.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez essa seja uma das maiores express\u00f5es do feminino saud\u00e1vel: amar profundamente sem impedir a exist\u00eancia do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, Vasalisa n\u00e3o precisava levar a m\u00e3e consigo para atravessar a floresta. Ela precisava descobrir que a b\u00ean\u00e7\u00e3o da m\u00e3e j\u00e1 vivia dentro dela. E talvez seja isso que nossos filhos mais precisem receber de n\u00f3s: n\u00e3o a promessa de que estaremos sempre ali para abrir o caminho, mas a confian\u00e7a necess\u00e1ria para que, quando chegar a hora, eles tenham coragem de abrir o pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vasalisa- a boneca deixada pela m\u00e3e para a filha, antes de morrer para a filha pequena precisou entrar na floresta. Precisou encontrar a Baba Yaga, enfrentar o desconhecido e descobrir que carregava dentro de si uma orienta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o dependia mais da presen\u00e7a da m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua m\u00e3e n\u00e3o lhe deixou um caminho pronto. Deixou-lhe uma b\u00fassola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja essa a grande diferen\u00e7a entre uma m\u00e3e que protege e uma m\u00e3e que impede de crescer. A primeira oferece ra\u00edzes. A segunda, ainda que por amor, tenta controlar o vento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feminino saud\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 aquele que cuida de todos o tempo inteiro. \u00c9 aquele que sabe quando nutrir, quando acolher, quando colocar limites e, principalmente, quando sair um pouco de cena para que o outro possa encontrar a pr\u00f3pria for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque chega um momento em que amar o filho n\u00e3o \u00e9 mais fazer por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 confiar nele. \u00c9 suportar v\u00ea-lo errar sem correr imediatamente para consertar. \u00c9 respeitar escolhas que talvez voc\u00ea n\u00e3o faria. \u00c9 permitir que ele viva as consequ\u00eancias de suas decis\u00f5es. E \u00e9 tamb\u00e9m olhar para a pr\u00f3pria vida e perguntar: \u201cQuem sou eu agora que meu filho cresceu?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pergunta pode abrir uma nova jornada. A m\u00e3e que deixa o filho crescer n\u00e3o perde sua import\u00e2ncia. Ela transforma sua import\u00e2ncia. Deixa de ser aquela que sabe todas as respostas e passa a ser aquela que oferece presen\u00e7a, escuta e amor \u2014 sem precisar dirigir a vida do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez esse seja um dos movimentos mais profundos do feminino saud\u00e1vel: amar sem possuir, cuidar sem controlar e permanecer sem impedir o outro de partir. Porque filhos precisam de m\u00e3es que lhes deem ra\u00edzes. Mas, para viverem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, tamb\u00e9m precisam saber que podem sair de casa levando consigo uma voz interior que diz: \u201cVoc\u00ea pode confiar em si.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez seja isso que uma m\u00e3e possa deixar de mais precioso para um filho. N\u00e3o um caminho sem perigos. Mas a certeza de que, mesmo quando a floresta aparecer, ele ter\u00e1 dentro de si recursos para atravess\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti @biarossattiterapeuta &nbsp; Como terapeuta familiar, sempre recebo fam\u00edlias que t\u00eam dificuldade de confiar nos filhos e permitir que eles construam autonomia e uma exist\u00eancia pr\u00f3pria. E isso, muitas vezes, acaba se transformando em conflitos. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o mais comum do que parece. A m\u00e3e quer ajudar. Quer evitar sofrimento. 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