{"id":52577,"date":"2026-09-12T01:16:34","date_gmt":"2026-09-12T04:16:34","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=52577"},"modified":"2026-09-11T16:22:15","modified_gmt":"2026-09-11T19:22:15","slug":"quando-as-regras-do-jogo-somem-no-meio-da-partida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-as-regras-do-jogo-somem-no-meio-da-partida\/","title":{"rendered":"Quando as regras do jogo somem no meio da partida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Fabrizio Martins Tavoni<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me de uma reportagem em que uma mulher contava que havia largado o emprego. N\u00e3o porque foi mal, pelo contr\u00e1rio, tinha sido promovida, ganhava bem, colecionava elogios. Mas descreveu uma sensa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de nomear: a de estar correndo numa esteira que acelerava sozinha, sem linha de chegada \u00e0 vista. &#8220;Eu bati todas as metas&#8221;, disse, &#8220;e no dia seguinte j\u00e1 tinha outra maior me esperando. Nunca era o bastante.&#8221; Ela n\u00e3o estava cansada de trabalhar. Estava cansada de n\u00e3o saber mais para onde estava indo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52581\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1.png\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"1350\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1.png 1080w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1-240x300.png 240w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1-819x1024.png 819w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1-768x960.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1-150x188.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-1-750x938.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guardei na mem\u00f3ria essa frase. Ela descreve, com uma precis\u00e3o que a pr\u00f3pria pessoa talvez n\u00e3o percebesse, algo que um soci\u00f3logo franc\u00eas chamou, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, de anomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9mile Durkheim cunhou o termo a partir do grego: a aus\u00eancia de n\u00f3mos, de norma, de lei. Mas aten\u00e7\u00e3o, anomia n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de regras no sentido de bagun\u00e7a, de vale-tudo. \u00c9 algo mais desconfort\u00e1vel. \u00c9 quando as regras que davam sentido \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es se afrouxam, se embaralham ou simplesmente deixam de nos dizer onde parar. \u00c9 a sensa\u00e7\u00e3o de dirigir no nevoeiro: a estrada existe, o carro anda, mas voc\u00ea perdeu as placas que diziam para onde ir e a que velocidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52580\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2.png\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"1350\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2.png 1080w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2-240x300.png 240w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2-819x1024.png 819w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2-768x960.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2-150x188.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-2-750x938.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode soar estranho pensar que precisamos de limites para nos sentirmos bem. Vivemos numa \u00e9poca que celebra o &#8220;sem limites&#8221;, o &#8220;v\u00e1 al\u00e9m&#8221;, o &#8220;c\u00e9u \u00e9 o limite&#8221;. S\u00f3 que Durkheim observou algo contraintuitivo: \u00e9 justamente a exist\u00eancia de balizas claras, expectativas partilhadas sobre o que \u00e9 uma vida boa, sobre at\u00e9 onde ir, sobre o que basta, que nos protege da ang\u00fastia. Quando essas balizas somem, o desejo perde a refer\u00eancia. E um desejo sem refer\u00eancia de medida n\u00e3o conhece satisfa\u00e7\u00e3o: sempre haver\u00e1 um degrau acima, uma meta maior, um vizinho com mais. A esteira nunca desliga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele percebeu isso estudando um paradoxo. N\u00e3o era nas crises de mis\u00e9ria que certos sofrimentos sociais mais se agravavam; era tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, nos momentos de prosperidade s\u00fabita, de expans\u00e3o acelerada, quando as antigas refer\u00eancias deixavam de valer e nenhuma nova tinha ainda se firmado no lugar. O problema n\u00e3o era ter pouco. Era ter perdido a medida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhe em volta e a anomia deixa de ser um conceito empoeirado num sebo. Ela est\u00e1 no profissional que troca de emprego a cada dois anos porque nenhum lugar parece ser &#8220;o&#8221; lugar. Est\u00e1 na cultura da produtividade que transformou o descanso em culpa e o \u00f3cio em falha moral. Est\u00e1 no burnout, essa palavra que virou onipresente justamente porque descreve o esgotamento de quem corre sem saber mais por qu\u00ea. Est\u00e1 na sensa\u00e7\u00e3o, t\u00e3o comum hoje, de que temos infinitas op\u00e7\u00f5es e, no entanto, uma vaga suspeita de que nada nos preenche.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de romantizar o passado. Muitas dessas antigas normas eram injustas, e derrub\u00e1-las foi conquista, n\u00e3o perda. A quest\u00e3o que Durkheim nos deixa \u00e9 outra e mais sutil: toda sociedade precisa oferecer aos seus membros algum senso partilhado de medida, de sentido, de para onde vamos juntos. Quando ela falha nisso, o custo n\u00e3o aparece s\u00f3 nas estat\u00edsticas econ\u00f4micas. Aparece no corpo cansado, na mente inquieta, na pergunta que insiste \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52582\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3.png\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"1350\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3.png 1080w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3-240x300.png 240w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3-819x1024.png 819w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3-768x960.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3-150x188.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-3-750x938.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela pessoa da reportagem n\u00e3o largou o emprego por pregui\u00e7a. Largou porque intuiu, sem ter a palavra, que estava vivendo num mundo sem placas. Deixo aqui uma pergunta: quando foi a \u00faltima vez que voc\u00ea se perguntou n\u00e3o se est\u00e1 correndo r\u00e1pido o bastante, mas se ainda sabe para onde est\u00e1 correndo? Pois essa dist\u00e2ncia entre o quanto nos cobramos e o qu\u00e3o pouco sabemos o porqu\u00ea \u00e9, provavelmente, a ferida mais silenciosa do nosso tempo. E h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que ela deixa de ser desconforto e se torna algo bem mais grave. Mas disso conversaremos no pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabrizio Martins Tavoni \u00e9 Soci\u00f3logo formado pela UEL, Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e atualmente concluindo um Doutorado em Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabrizio Martins Tavoni Lembro-me de uma reportagem em que uma mulher contava que havia largado o emprego. 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