{"id":52709,"date":"2026-09-19T04:13:57","date_gmt":"2026-09-19T07:13:57","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=52709"},"modified":"2026-09-17T21:15:38","modified_gmt":"2026-09-18T00:15:38","slug":"quando-a-dor-deixa-de-ser-so-sua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-a-dor-deixa-de-ser-so-sua\/","title":{"rendered":"Quando a dor deixa de ser s\u00f3 sua"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Fabrizio Martins Tavoni<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@fabriziotavoni_profissional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Setembro se pinta de amarelo. Nos postos de sa\u00fade, nas redes sociais, nas conversas de escola, temos a volta de um tema que costumamos empurrar para o canto: o suic\u00eddio. E a primeira rea\u00e7\u00e3o, quase autom\u00e1tica, \u00e9 buscar a explica\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria de cada pessoa. O luto, a doen\u00e7a, a d\u00edvida, o desamor. Cada caso tem um rosto, um nome, uma dor que parece pertencer a algu\u00e9m e a mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi contra essa intui\u00e7\u00e3o que \u00c9mile Durkheim, soci\u00f3logo franc\u00eas, escreveu, em 1897, um dos livros mais influentes da sociologia. \u201cO Suic\u00eddio\u201d fez uma pergunta que soava quase indecente para a \u00e9poca: e se aquilo que parece o gesto mais \u00edntimo e solit\u00e1rio que existe tivesse, tamb\u00e9m, uma dimens\u00e3o social?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durkheim n\u00e3o negava o sofrimento individual, mas ele percebeu, ao comparar registros de mortes por suic\u00eddio em diferentes pa\u00edses, religi\u00f5es e grupos, que as taxas n\u00e3o variavam ao acaso. Ano ap\u00f3s ano, certos grupos apresentavam \u00edndices sistematicamente mais altos ou mais baixos do que outros, e essa regularidade se mantinha com uma const\u00e2ncia que a soma de trag\u00e9dias individuais, isoladas, n\u00e3o conseguiria explicar. Se fosse s\u00f3 uma quest\u00e3o de biografias, os n\u00fameros teriam uma varia\u00e7\u00e3o, eles dan\u00e7ariam. Mas eles n\u00e3o dan\u00e7avam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o para Durkheim estava nos la\u00e7os que prendem (ou soltam) o indiv\u00edduo \u00e0 vida coletiva. Quando esses la\u00e7os se afrouxam demais, a pessoa fica entregue apenas a si mesma, sem os apoios e os freios que a vida em comum oferece. Quando as regras que orientam os desejos e as expectativas se desmancham &#8211; a anomia de que falamos no texto anterior -, o indiv\u00edduo se v\u00ea sem ch\u00e3o, perseguindo metas que nunca se completam. Em ambos os casos, o que adoece n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a pessoa: \u00e9 o tecido social que deveria sustent\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52713\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1.png\" alt=\"\" width=\"1122\" height=\"1402\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1.png 1122w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1-240x300.png 240w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1-819x1024.png 819w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1-768x960.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1-150x187.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-1-750x937.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1122px) 100vw, 1122px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim que Durkheim chegou a distinguir tipos diferentes de suic\u00eddio, cada um ligado a um modo de a sociedade falhar com o indiv\u00edduo. Onde os v\u00ednculos s\u00e3o fr\u00e1geis demais e cada um vive por si, ele falava em suic\u00eddio ego\u00edsta, o da pessoa que n\u00e3o pertence a nada maior do que ela mesma. Onde as normas se rompem e as ambi\u00e7\u00f5es ficam sem medida, tem-se o suic\u00eddio an\u00f4mico, t\u00edpico de tempos de crise ou de mudan\u00e7a brusca. E, no extremo oposto, onde o indiv\u00edduo se dissolve por completo no grupo, o suic\u00eddio altru\u00edsta, o de quem se sacrifica porque a coletividade assim o exige. O que chama a aten\u00e7\u00e3o nessa tipologia \u00e9 que tanto o excesso quanto a falta de integra\u00e7\u00e3o podem ferir: nem o isolamento absoluto, nem a dilui\u00e7\u00e3o total do sujeito no coletivo protegem a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de um s\u00e9culo depois, isso segue inc\u00f4modo de t\u00e3o atual que \u00e9. Vivemos cercados de conex\u00f5es que muitas vezes n\u00e3o conectam, de redes que aproximam telas e afastam pessoas, de exig\u00eancias de sucesso que nunca se d\u00e3o por satisfeitas. O trabalho que se infiltra em todas as horas do dia, as cidades que empilham gente e produzem solid\u00e3o, os v\u00ednculos que se tornam descart\u00e1veis; tudo isso desenha, \u00e0 sua maneira, os mesmos afrouxamentos que Durkheim identificou nos registros do s\u00e9culo XIX. Reconhecer isso n\u00e3o retira a responsabilidade de cuidar de cada hist\u00f3ria singular; mas nos lembra de que h\u00e1 um pano de fundo comum, e que ele tamb\u00e9m pode ser transformado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52714\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2.png\" alt=\"\" width=\"1122\" height=\"1402\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2.png 1122w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2-240x300.png 240w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2-819x1024.png 819w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2-768x960.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2-150x187.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-2-750x937.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1122px) 100vw, 1122px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso muda tudo na forma de encarar o problema. Se o suic\u00eddio tivesse causas puramente individuais, restaria apenas cuidar de cada um, um por um, depois que a crise chega. Mas se ele tem tamb\u00e9m uma face social, ent\u00e3o h\u00e1 algo que uma sociedade deve (ou pelo menos deveria) fazer antes: fortalecer v\u00ednculos, combater o isolamento, cuidar das condi\u00e7\u00f5es que deixam as pessoas \u00e0 deriva. A preven\u00e7\u00e3o deixa de ser s\u00f3 um assunto de consult\u00f3rio e passa a ser, tamb\u00e9m, uma responsabilidade coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52710\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03.png\" alt=\"\" width=\"1122\" height=\"1402\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03.png 1122w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03-240x300.png 240w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03-819x1024.png 819w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03-768x960.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03-150x187.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-03-750x937.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1122px) 100vw, 1122px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que o Setembro Amarelo importa como gesto p\u00fablico e n\u00e3o s\u00f3 como campanha. Falar abertamente, acolher sem julgar, perguntar como o outro est\u00e1. Essas coisas pequenas refazem, no dia a dia, os la\u00e7os que Durkheim viu se romper nos n\u00fameros. A dor pode parecer s\u00f3 sua. Mas cuidar dela, quase sempre, \u00e9 tarefa de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea est\u00e1 passando por um momento dif\u00edcil ou precisa conversar, o CVV (Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e tamb\u00e9m por chat e e-mail em cvv.org.br.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabrizio Martins Tavoni \u00b7 Soci\u00f3logo (UEL), Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica (UFSCar), Doutorando em Educa\u00e7\u00e3o (Unicamp).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabrizio Martins Tavoni @fabriziotavoni_profissional &nbsp; Setembro se pinta de amarelo. Nos postos de sa\u00fade, nas redes sociais, nas conversas de escola, temos a volta de um tema que costumamos empurrar para o canto: o suic\u00eddio. 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