{"id":52728,"date":"2026-09-18T14:37:10","date_gmt":"2026-09-18T17:37:10","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=52728"},"modified":"2026-09-18T14:39:59","modified_gmt":"2026-09-18T17:39:59","slug":"quando-o-problema-do-casamento-nao-e-a-briga-mas-o-que-acontece-dentro-dela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-o-problema-do-casamento-nao-e-a-briga-mas-o-que-acontece-dentro-dela\/","title":{"rendered":"Quando o problema do casamento n\u00e3o \u00e9 a briga, mas o que acontece dentro dela"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Terapeuta Sist\u00eamica<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo casal briga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo relacionamentos que parecem equilibrados passam por momentos de irrita\u00e7\u00e3o, discord\u00e2ncia, frustra\u00e7\u00e3o e conflito. Afinal, duas pessoas diferentes, com hist\u00f3rias, expectativas, necessidades e formas de enxergar a vida diferentes, inevitavelmente v\u00e3o se desencontrar em alguns momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que acontece de verdade, emocionalmente dentro dessa briga?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa recente publicada na revista Family Process ajuda a olhar para essa quest\u00e3o por outro \u00e2ngulo. O estudo acompanhou 174 casais durante as primeiras oito sess\u00f5es de terapia e investigou a rela\u00e7\u00e3o entre dificuldades de regula\u00e7\u00e3o emocional e a evolu\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o conjugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito de regula\u00e7\u00e3o emocional pode parecer complicado, mas, na pr\u00e1tica, ele est\u00e1 presente em situa\u00e7\u00f5es muito comuns dentro de um relacionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 conseguir perceber o que est\u00e1 sentindo. Conseguir lidar com essa emo\u00e7\u00e3o sem ser completamente dominado por ela. Conseguir pensar antes de reagir. E, principalmente, conseguir permanecer em contato com o outro mesmo quando alguma coisa dentro de voc\u00ea est\u00e1 doendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a emo\u00e7\u00e3o assume o comando<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine uma discuss\u00e3o que come\u00e7a com uma situa\u00e7\u00e3o aparentemente simples. Um dos parceiros chega mais tarde em casa. O outro pergunta: \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o poderia ter avisado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aquela pergunta talvez n\u00e3o carregue apenas uma pergunta. Pode carregar medo. Pode carregar sensa\u00e7\u00e3o de abandono. Pode carregar experi\u00eancias anteriores. Pode carregar a impress\u00e3o de que o outro n\u00e3o se importa. E, quando a emo\u00e7\u00e3o aumenta, a conversa pode rapidamente deixar de ser sobre o atraso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surge a acusa\u00e7\u00e3o: \u2014 Voc\u00ea nunca pensa em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro responde: \u2014 Voc\u00ea reclama de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, em poucos minutos, os dois j\u00e1 est\u00e3o discutindo sobre dez anos de relacionamento. \u00c9 nesse momento que o conflito deixa de ser apenas sobre o acontecimento que o iniciou. A emo\u00e7\u00e3o come\u00e7a a conduzir a conversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre estamos reagindo ao que aconteceu<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das dificuldades dos relacionamentos \u00e9 que nem sempre reagimos apenas ao comportamento do parceiro. Reagimos tamb\u00e9m ao significado que damos a esse comportamento. Uma mensagem que n\u00e3o foi respondida pode ser interpretada como falta de interesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um sil\u00eancio pode ser entendido como desprezo. Uma cr\u00edtica pode ser recebida como rejei\u00e7\u00e3o. Uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o pode ser percebida como cobran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 um. Mas a experi\u00eancia emocional pode ser completamente diferente para cada pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, em terapia de casal, n\u00e3o basta perguntar somente: \u201cO que aconteceu?\u201d \u00c9 preciso investigar: \u201cO que isso significou para voc\u00ea?\u201d E tamb\u00e9m: \u201cO que aconteceu dentro de voc\u00ea quando isso aconteceu?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O casal pode entrar em um ciclo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas ou reguladas, o casal pode desenvolver um ciclo repetitivo. Um reclama. O outro se defende. Quanto mais um insiste, mais o outro se afasta. Quanto mais o outro se afasta, maior fica a sensa\u00e7\u00e3o de abandono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quanto maior essa sensa\u00e7\u00e3o, maior pode ser a cobran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, os dois passam a acreditar que o problema est\u00e1 exclusivamente no comportamento do parceiro. Ela pensa: \u201cSe ele mudasse, eu ficaria bem.\u201d Ele pensa: \u201cSe ela parasse de cobrar, eu conseguiria me aproximar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o ciclo continua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terapia de casal pode ajudar justamente a identificar esse padr\u00e3o e compreender como cada um participa dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o para encontrar um culpado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para interromper uma din\u00e2mica que est\u00e1 machucando os dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regular emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa engolir o que voc\u00ea sente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante fazer uma distin\u00e7\u00e3o. Regula\u00e7\u00e3o emocional n\u00e3o significa ficar calado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o significa aceitar desrespeito. N\u00e3o significa fingir que nada aconteceu. E muito menos significa que uma pessoa deve controlar suas emo\u00e7\u00f5es para preservar uma rela\u00e7\u00e3o a qualquer custo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regular uma emo\u00e7\u00e3o \u00e9 conseguir sentir sem permitir que aquele sentimento determine automaticamente o pr\u00f3ximo comportamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode estar com raiva e ainda escolher como conversar. Pode estar magoada e ainda conseguir explicar o que precisa. Pode sentir medo e ainda perguntar, em vez de acusar. Pode discordar sem transformar a diferen\u00e7a em uma amea\u00e7a ao relacionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa capacidade muda a qualidade da conversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que podemos aprender com essa pesquisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo n\u00e3o significa que toda crise conjugal seja causada por dificuldades de regula\u00e7\u00e3o emocional. Nem permite concluir que trabalhar emo\u00e7\u00f5es, sozinho, resolver\u00e1 todos os problemas de um casal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa faz parte de um campo maior que procura compreender quais fatores est\u00e3o relacionados \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o conjugal durante a terapia. Mas ela ajuda a refor\u00e7ar uma ideia importante: n\u00e3o \u00e9 apenas o conflito que importa. \u00c9 a maneira como o casal entra, permanece e sai dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois casais podem ter a mesma discuss\u00e3o. Um consegue conversar, ouvir, reparar e voltar a se conectar. O outro entra em um ciclo de ataque, defesa, afastamento e ressentimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto pode ser parecido. A din\u00e2mica emocional \u00e9 diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a pergunta precise mudar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um casal chega ao consult\u00f3rio dizendo: \u201cA gente briga por tudo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a primeira pergunta n\u00e3o precise ser: \u201cSobre o que voc\u00eas brigam?\u201d Pode ser:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que acontece com voc\u00eas quando voc\u00eas brigam?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem ataca? Quem se cala? Quem se afasta? Quem tenta controlar? Quem sente medo? Quem se sente rejeitado? Quem precisa ser ouvido? E, principalmente: o que cada um faz que acaba alimentando o comportamento do outro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, muitas vezes, o casal n\u00e3o est\u00e1 preso apenas ao problema. Est\u00e1 preso ao ciclo que se forma entre os dois. E compreender esse ciclo pode ser o primeiro passo para come\u00e7ar a mud\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ainda existe espa\u00e7o para reconstruir<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem todo conflito significa que uma rela\u00e7\u00e3o chegou ao fim. Mas conflitos repetitivos, distanciamento emocional e perda de conex\u00e3o merecem aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto antes o casal consegue perceber que est\u00e1 preso em um padr\u00e3o, maiores podem ser as possibilidades de trabalhar essa din\u00e2mica de maneira consciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, \u00e0s vezes, a pergunta mais importante n\u00e3o \u00e9: \u201cQuem est\u00e1 certo?\u201d&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9: \u201cO que est\u00e1 acontecendo entre n\u00f3s?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mudan\u00e7a de pergunta pode abrir espa\u00e7o para uma conversa completamente diferente. Porque um relacionamento n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo apenas pelos momentos em que os dois concordam. Ele tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00eddo pela maneira como conseguem atravessar aquilo em que discordam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte cient\u00edfica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artigo de refer\u00eancia \u00e9 o estudo publicado na revista Family Process, que investigou a rela\u00e7\u00e3o entre dificuldades de regula\u00e7\u00e3o emocional e mudan\u00e7as na satisfa\u00e7\u00e3o conjugal ao longo das primeiras sess\u00f5es de terapia de casal, acompanhando 174 casais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Family Process \u2014 Wiley Online Library.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bia Rossatti<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terapeuta Sist\u00eamica &#8211; Autora de Depois do Div\u00f3rcio \u2014 A Rota da Cura<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti Terapeuta Sist\u00eamica @biarossattiterapeuta &nbsp; Todo casal briga. 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