{"id":52870,"date":"2026-09-25T06:40:37","date_gmt":"2026-09-25T09:40:37","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=52870"},"modified":"2026-09-25T06:45:47","modified_gmt":"2026-09-25T09:45:47","slug":"o-qu-estamos-afinal-defendendo-nas-urnas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-qu-estamos-afinal-defendendo-nas-urnas\/","title":{"rendered":"O que estamos, afinal, defendendo nas urnas?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><em>Por<\/em> <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Fabrizio Martins Tavoni<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">@fabriziotavoni_profissional<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Faltam poucos dias para o primeiro turno e a express\u00e3o \u201cdefesa da democracia\u201d voltar\u00e1 a circular em discursos, debates e propagandas eleitorais. Curiosamente, raramente se explica o que, exatamente, est\u00e1 sendo defendido. Talvez este seja um bom momento para recorrer a quem dedicou boa parte da vida a responder essa pergunta: o fil\u00f3sofo e jurista italiano Norberto Bobbio e, mais recentemente, os cientistas pol\u00edticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Futuro da Democracia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, Bobbio prop\u00f5e uma defini\u00e7\u00e3o propositalmente modesta. Democracia, para ele, \u00e9 antes de tudo um conjunto de regras que determinam quem est\u00e1 autorizado a tomar decis\u00f5es coletivas e por meio de quais procedimentos. Isso exige que um n\u00famero amplo de cidad\u00e3os participe das escolhas, que valha a regra da maioria e que os eleitores tenham diante de si alternativas reais. A mod\u00e9stia \u00e9 intencional. A democracia n\u00e3o \u00e9 o regime que resolve todos os problemas da sociedade, mas aquele que estabelece regras para decidir sobre eles de forma pac\u00edfica. Quem perde hoje pode vencer amanh\u00e3, e \u00e9 essa possibilidade que torna a derrota toler\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52876\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-2.png\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-2.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-2-225x300.png 225w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-2-640x853.png 640w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-2-150x200.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-01-2-750x1000.png 750w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Legenda: Democracia n\u00e3o \u00e9 apenas votar, mas estabelecer regras para que decis\u00f5es coletivas possam ser tomadas de forma leg\u00edtima e pac\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Bobbio, por\u00e9m, acrescenta uma condi\u00e7\u00e3o decisiva. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Liberalismo e Democracia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ele mostra que os dois termos nasceram como projetos distintos e, por vezes, rivais. O liberalismo preocupa-se com os limites do poder: direitos individuais, Estado de direito, prote\u00e7\u00e3o contra o arb\u00edtrio. A democracia preocupa-se com quem exerce o poder: o povo, por meio do voto. Um governo pode ser eleito e, ainda assim, esmagar liberdades; outro pode respeitar liberdades e, ainda assim, excluir a maioria das decis\u00f5es. No Estado moderno, contudo, os dois projetos tornaram-se insepar\u00e1veis. Sem liberdade de express\u00e3o, de imprensa e de associa\u00e7\u00e3o, a elei\u00e7\u00e3o vira ritual vazio, pois o eleitor n\u00e3o consegue informar-se, organizar-se nem ouvir quem pensa diferente. E, sem democracia, essas liberdades ficam sem quem as garanta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Bobbio n\u00e3o era ing\u00eanuo quanto aos limites desse arranjo e chegou a listar as \u201cpromessas n\u00e3o cumpridas\u201d da democracia. Tr\u00eas delas soam especialmente atuais. A primeira \u00e9 a persist\u00eancia das oligarquias: a democracia n\u00e3o eliminou as elites, apenas as obrigou a competir entre si. A segunda \u00e9 o poder invis\u00edvel. Para Bobbio, a democracia deveria ser o governo do poder p\u00fablico exercido em p\u00fablico, sob o olhar dos cidad\u00e3os, e n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber como essa promessa \u00e9 desafiada hoje por campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o, disparos em massa e financiamentos pouco transparentes. A terceira \u00e9 a do cidad\u00e3o educado: a expectativa de que a pr\u00e1tica democr\u00e1tica formaria eleitores ativos e bem-informados convive com a apatia, a desconfian\u00e7a e o voto trocado por favores. Ainda assim, seu diagn\u00f3stico n\u00e3o era f\u00fanebre. A democracia, dizia ele, n\u00e3o vai bem de sa\u00fade, mas est\u00e1 longe de estar \u00e0 beira da morte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 justamente sobre a morte das democracias que escrevem Levitsky e Ziblatt. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Como as Democracias Morrem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, os autores observam que, no mundo contempor\u00e2neo, regimes democr\u00e1ticos raramente caem por golpes militares cl\u00e1ssicos, com tanques nas ruas. O mais comum \u00e9 uma eros\u00e3o gradual, conduzida por l\u00edderes que chegaram ao poder pelo voto e que, passo a passo, capturam os \u00e1rbitros, afastam os advers\u00e1rios do jogo e alteram suas regras, muitas vezes com apar\u00eancia de legalidade. Por isso, a agonia de uma democracia pode passar despercebida por boa parte de seus cidad\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-52872\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-3.png\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-3.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-3-225x300.png 225w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-3-640x853.png 640w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-3-150x200.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem-02-3-750x1000.png 750w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Legenda: Para Levitsky e Ziblatt, democracias contempor\u00e2neas podem se enfraquecer gradualmente, muitas vezes sem que sua eros\u00e3o seja percebida de imediato.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Para identificar o risco antes que seja tarde, os autores prop\u00f5em quatro sinais de alerta no comportamento de l\u00edderes pol\u00edticos: o compromisso fr\u00e1gil com as regras democr\u00e1ticas, como a disposi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o aceitar resultados eleitorais; a nega\u00e7\u00e3o da legitimidade dos advers\u00e1rios, tratados como inimigos, traidores ou criminosos; a toler\u00e2ncia ou o incentivo \u00e0 viol\u00eancia; e a propens\u00e3o a restringir liberdades civis de opositores, inclusive da imprensa. Levitsky e Ziblatt insistem ainda que as constitui\u00e7\u00f5es n\u00e3o se protegem sozinhas. Elas dependem de duas normas n\u00e3o escritas, as \u201cgrades de prote\u00e7\u00e3o\u201d da democracia: a toler\u00e2ncia m\u00fatua, isto \u00e9, reconhecer que os rivais t\u00eam o direito leg\u00edtimo de competir e governar, e a reserva institucional, a conten\u00e7\u00e3o no uso de prerrogativas legais que, levadas ao extremo, poderiam sufocar o outro lado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui os dois referenciais se encontram. A defini\u00e7\u00e3o de Bobbio nos diz quais s\u00e3o as regras; Levitsky e Ziblatt nos lembram que regras s\u00f3 funcionam quando os jogadores aceitam limites que nenhuma lei \u00e9 capaz de impor. E o quarto sinal de alerta dos autores americanos \u00e9, no fundo, um ataque ao pressuposto liberal que Bobbio identificou: quem cerceia a liberdade do advers\u00e1rio n\u00e3o viola apenas um direito individual, mas esvazia o pr\u00f3prio sentido do voto. Uma elei\u00e7\u00e3o sem liberdade para divergir continua a ter urnas, mas deixa de ser democr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nos pr\u00f3ximos dias, o eleitor ser\u00e1 inundado por promessas sobre economia, sa\u00fade, seguran\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o, e \u00e9 natural que esses temas orientem o voto. Mas vale acrescentar uma pergunta \u00e0 lista: como cada candidato se comporta diante das regras do jogo? Aceita a possibilidade de perder? Trata o advers\u00e1rio como algu\u00e9m a ser vencido ou como algu\u00e9m a ser eliminado? Defende a liberdade apenas de quem concorda com ele? As democracias raramente morrem de repente. Morrem aos poucos, quase sempre com a indiferen\u00e7a dos pr\u00f3prios cidad\u00e3os. Por isso, cuidar delas tamb\u00e9m \u00e9 tarefa de quem vota.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fabrizio Martins Tavoni &#8211; Soci\u00f3logo (UEL), Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica (UFSCar), Doutorando em Educa\u00e7\u00e3o (Unicamp).<\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabrizio Martins Tavoni @fabriziotavoni_profissional &nbsp; Faltam poucos dias para o primeiro turno e a express\u00e3o \u201cdefesa da democracia\u201d voltar\u00e1 a circular em discursos, debates e propagandas eleitorais. Curiosamente, raramente se explica o que, exatamente, est\u00e1 sendo defendido. 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