{"id":53045,"date":"2026-10-02T07:10:40","date_gmt":"2026-10-02T10:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53045"},"modified":"2026-10-02T07:10:40","modified_gmt":"2026-10-02T10:10:40","slug":"o-caso-do-idoso-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-caso-do-idoso-invisivel\/","title":{"rendered":"O Caso do Idoso Invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Pelo Psicanalista Jackson Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@Psicanalista_Jackson_Shella<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@psicanaliseativainpc<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, envelhecer n\u00e3o \u00e9 apenas aprender a conviver com um corpo que muda. \u00c9 tamb\u00e9m descobrir quem somos quando deixamos de ocupar o lugar que sempre ocupamos na vida dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, uma m\u00e3e pode ter sido aquela que cuidava de tudo. Um pai, aquele que resolvia os problemas. Um c\u00f4njuge, a companhia permanente. Um cuidador, a presen\u00e7a indispens\u00e1vel na rotina. Mas os anos passam, os filhos constroem suas pr\u00f3prias vidas, os relacionamentos se transformam e algumas fun\u00e7\u00f5es deixam de fazer sentido. Nesse momento, pode surgir uma pergunta silenciosa: \u201cE agora, quem sou eu?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso nisso especialmente quando se aproxima o Dia Internacional da Pessoa Idosa. Em minha escuta cl\u00ednica, observo como muitas pessoas chegam \u00e0 maturidade carregando uma dor que nem sempre conseguem nomear: sentem-se s\u00f3s, mesmo cercadas de gente. N\u00e3o necessariamente porque lhes falte amor, mas porque, durante muito tempo, confundiram amor com disponibilidade absoluta, cuidado com controle e presen\u00e7a com depend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me de uma senhora que dizia, com um certo constrangimento, que n\u00e3o conseguia tomar nenhuma decis\u00e3o sem consultar a filha. A filha era atenciosa, presente e bem-intencionada. Ainda assim, aquela mulher come\u00e7ava a perceber que havia deixado de perguntar a si mesma o que desejava. Escolhia o restaurante conforme a prefer\u00eancia dos filhos, adiava viagens para n\u00e3o preocupar ningu\u00e9m e permanecia em uma rela\u00e7\u00e3o desgastada porque temia \u201cdar trabalho\u201d caso precisasse reorganizar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outra situa\u00e7\u00e3o, um homem vi\u00favo me contou que seus filhos o visitavam todos os domingos. Ele agradecia, sorria e dizia que estava tudo bem. Mas, ao falar com mais liberdade, revelou que esperava a semana inteira por aquelas poucas horas. Quando os filhos iam embora, a casa parecia ficar ainda maior. Aos poucos, ele come\u00e7ou a construir pequenos compromissos pr\u00f3prios: voltou a frequentar uma biblioteca, retomou o viol\u00e3o e passou a caminhar com um vizinho. N\u00e3o deixou de amar os filhos. Apenas deixou de colocar toda a sua vida dentro das visitas deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a importante: autonomia afetiva n\u00e3o significa viver sem precisar de ningu\u00e9m. Tamb\u00e9m n\u00e3o significa rejeitar ajuda, esconder fragilidades ou transformar independ\u00eancia em isolamento. Significa poder receber cuidado sem entregar completamente ao outro o comando da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na maturidade, os v\u00ednculos podem ser reinventados. Um filho pode continuar sendo filho, sem precisar ocupar o lugar de pai ou m\u00e3e. Um c\u00f4njuge pode ser companhia, sem se tornar a \u00fanica fonte de alegria. Um cuidador pode oferecer assist\u00eancia, sem apagar os desejos e as escolhas da pessoa cuidada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A virada, muitas vezes, acontece quando percebemos que continuar amando n\u00e3o exige continuar desempenhando o mesmo papel. Posso ser m\u00e3e sem resolver tudo. Posso ser pai sem sustentar emocionalmente todos ao meu redor. Posso amar meu companheiro sem abandonar aquilo que me faz singular. Posso aceitar ajuda e, ainda assim, continuar participando das decis\u00f5es sobre a minha pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez envelhecer tamb\u00e9m seja isso: trocar a necessidade de ser indispens\u00e1vel pela liberdade de ser verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autonomia afetiva n\u00e3o tem idade determinada. Ela pode come\u00e7ar aos vinte, aos cinquenta, aos oitenta. Come\u00e7a quando eu me escuto antes de responder ao desejo dos outros; quando reconhe\u00e7o meus limites; quando compreendo que uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel n\u00e3o me diminui para me manter acompanhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste Dia Internacional da Pessoa Idosa, eu convido voc\u00ea a olhar para os v\u00ednculos que construiu e perguntar, com sinceridade: onde existe amor, e onde existe apenas medo de ficar s\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se quiser, compartilhe sua hist\u00f3ria. Talvez uma pequena escolha sua uma viagem, uma amizade, um limite ou um novo come\u00e7o possa lembrar algu\u00e9m de que nunca \u00e9 tarde para voltar a habitar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque amar os outros \u00e9 bonito. Mas continuar pertencendo a si mesmo tamb\u00e9m \u00e9 uma forma profunda de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Idealizador da Ashells Psican\u00e1lise Cl\u00ednica especialista em Depend\u00eancia Emocional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vice-presidente do Instituto Nacional de Psican\u00e1lise Cl\u00ednica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Whatsapp: (41) 99182-9353<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Credito da imagem: Sue H.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo Psicanalista Jackson Shella @Psicanalista_Jackson_Shella @psicanaliseativainpc \u00c0s vezes, envelhecer n\u00e3o \u00e9 apenas aprender a conviver com um corpo que muda. \u00c9 tamb\u00e9m descobrir quem somos quando deixamos de ocupar o lugar que sempre ocupamos na vida dos outros. 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