{"id":53251,"date":"2026-10-09T06:03:34","date_gmt":"2026-10-09T09:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53251"},"modified":"2026-10-09T06:03:34","modified_gmt":"2026-10-09T09:03:34","slug":"o-preco-e-o-custo-amargo-da-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-preco-e-o-custo-amargo-da-intolerancia\/","title":{"rendered":"O Pre\u00e7o e o custo amargo da intoler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes \u00faltimos dias tenho prestado aten\u00e7\u00e3o nas redes sociais e o meu sentimento \u00e9 que estamos crescendo os nossos n\u00edveis de intoler\u00e2ncia. E a primeira pergunta que eu fa\u00e7o \u00e9: o que est\u00e1 por tr\u00e1s dela? Mas tamb\u00e9m: o que perdemos quando permitimos que ela conduza nossas decis\u00f5es? E, afinal, quem ganha quando n\u00f3s perdemos a capacidade de dialogar? Eu penso que essas sejam perguntas mais importantes do que descobrir quem est\u00e1 certo, quem est\u00e1 errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De verdade, eu n\u00e3o gosto de ver isso acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos tempos em que discordar parece ter se transformado em uma amea\u00e7a. Uma opini\u00e3o diferente pode ser suficiente para romper uma amizade, afastar familiares, destruir rela\u00e7\u00f5es ou transformar desconhecidos em inimigos. Mas eu acredito que a intoler\u00e2ncia n\u00e3o nasce apenas da diferen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinto que ela costuma encontrar terreno f\u00e9rtil no medo, na inseguran\u00e7a, na necessidade de pertencimento, na dificuldade de lidar com a frustra\u00e7\u00e3o e, principalmente, na certeza de que o outro n\u00e3o tem nada a nos ensinar. E quando acreditamos que j\u00e1 sabemos tudo, deixamos de escutar. E quando deixamos de escutar, come\u00e7amos a enxergar o mundo atrav\u00e9s de uma lente cada vez mais estreita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que a intoler\u00e2ncia nos d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o perigosa de certeza. E talvez seja esse um dos seus maiores atrativos&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade incomoda. \u00c9 muito mais confort\u00e1vel acreditar que existem bons e maus, certos e errados, n\u00f3s e eles. A intoler\u00e2ncia simplifica o mundo. Ela parece oferecer respostas r\u00e1pidas para perguntas dif\u00edceis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o outro \u00e9 simplesmente \u201co problema\u201d, n\u00e3o precisamos olhar para a nossa pr\u00f3pria responsabilidade. Se quem pensa diferente \u00e9 ignorante, n\u00e3o precisamos ouvir seus argumentos. Se o outro \u00e9 nosso inimigo, n\u00e3o precisamos compreender sua hist\u00f3ria. E assim vamos construindo mais certezas que podem at\u00e9 nos dar seguran\u00e7a, mas diminuem nossa capacidade de pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a partir da\u00ed o que podemos estar perdendo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conversa. E talvez essa seja uma das maiores perdas do nosso tempo. Porque conversar n\u00e3o significa necessariamente concordar. Conversar significa permitir que duas pessoas diferentes permane\u00e7am na mesma mesa.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdemos tamb\u00e9m a curiosidade. Aquela capacidade t\u00e3o humana de perguntar: \u201cPor que voc\u00ea pensa assim?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdemos relacionamentos que poderiam ter sobrevivido \u00e0 diverg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdemos a oportunidade de rever nossas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdemos nuances. E, quando perdemos as nuances, come\u00e7amos a tomar decis\u00f5es definitivas baseadas em sentimentos passageiros. Sobre pessoas e situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o passar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantos casamentos terminam porque ningu\u00e9m mais consegue ouvir? Quantas fam\u00edlias se afastam por causa de diferen\u00e7as que poderiam ser discutidas? Quantas amizades acabam porque uma diverg\u00eancia virou uma quest\u00e3o de identidade? Quantas vezes preferimos cortar algu\u00e9m da nossa vida a enfrentar o desconforto de uma conversa dif\u00edcil? E aqui \u00e9 preciso dizer: existem sim situa\u00e7\u00f5es em que se afastar \u00e9 necess\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem limites que precisam ser estabelecidos. Mas limite n\u00e3o \u00e9 intoler\u00e2ncia. Porque limite protege, enquanto a intoler\u00e2ncia desumaniza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quem ganha com isso? Essa \u00e9 a pergunta que no meu entendimento vale 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares e a pergunta mais inc\u00f4moda. Quando pessoas deixam de conversar, algu\u00e9m ou alguma din\u00e2mica pode se beneficiar. A divis\u00e3o aumenta a aten\u00e7\u00e3o. A indigna\u00e7\u00e3o mobiliza. O conflito cria pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grupos podem se fortalecer quando encontram um \u201cinimigo\u201d comum. E, em diferentes contextos \u2014 pol\u00edticos, sociais, religiosos, culturais ou at\u00e9 familiares \u2014 existe uma l\u00f3gica conhecida: quanto mais divididos estamos, mais dif\u00edcil se torna construir algo juntos. Isso n\u00e3o significa imaginar uma grande conspira\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s de toda diverg\u00eancia. Por\u00e9m \u00e0s vezes, a intoler\u00e2ncia simplesmente nasce de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu percebo que existem ambientes e interesses que podem explorar a polariza\u00e7\u00e3o porque pessoas indignadas permanecem mais engajadas, mais reativas e menos dispostas a ouvir o outro lado. Por isso, uma pergunta simples pode ser poderosa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem se beneficia quando eu permane\u00e7o com raiva?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Note que n\u00e3o precisamos aceitar uma resposta pronta. Precisamos apenas come\u00e7ar a fazer perguntas. Pois talvez a pr\u00f3pria intoler\u00e2ncia seja tamb\u00e9m uma fuga. Porque \u00e9 dif\u00edcil olhar para dentro. \u00c9 mais f\u00e1cil apontar o dedo. \u00c9 mais f\u00e1cil encontrar um culpado do que reconhecer nossa parcela de responsabilidade. \u00c9 mais f\u00e1cil dizer \u201celes s\u00e3o intolerantes\u201d do que perguntar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOnde eu tamb\u00e9m estou sendo intolerante?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa pergunta exige coragem. Porque pode revelar algo desconfort\u00e1vel: podemos defender liberdade e, ao mesmo tempo, querer silenciar quem pensa diferente. Podemos falar de respeito e responder com desprezo. Podemos pedir toler\u00e2ncia enquanto somos incapazes de tolerar a diferen\u00e7a. A consci\u00eancia come\u00e7a justamente quando conseguimos olhar para essa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elevar a consci\u00eancia n\u00e3o significa concordar com tudo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Significa conseguir permanecer inteiro diante da diferen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posso discordar de voc\u00ea sem desejar destru\u00ed-lo. Posso rejeitar uma ideia sem rejeitar sua humanidade. Posso estabelecer um limite sem transformar voc\u00ea em inimigo. Posso mudar de opini\u00e3o sem sentir que fui derrotado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E posso reconhecer:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTalvez eu n\u00e3o esteja vendo tudo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa frase simples pode ser uma das maiores demonstra\u00e7\u00f5es de sabedoria. Porque quem eleva a consci\u00eancia n\u00e3o precisa diminuir o outro para se sentir maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pre\u00e7o mais amargo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A intoler\u00e2ncia promete uma vit\u00f3ria imediata: a sensa\u00e7\u00e3o de estar certo. De ter vencido. De ter colocado o outro no lugar dele. Mas a conta pode chegar depois. E sempre chega! Na solid\u00e3o. No afastamento. No arrependimento. Na perda de rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o precisavam necessariamente terminar. Na incapacidade de conversar com quem pensa diferente. E, talvez, na descoberta tardia de que passamos tanto tempo tentando vencer o outro que esquecemos de preservar aquilo que realmente importava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, antes de reagirmos, talvez dev\u00eassemos perguntar: eu estou defendendo um valor ou apenas defendendo o meu ego? Estou estabelecendo um limite ou punindo algu\u00e9m? Estou tomando uma decis\u00e3o consciente ou apenas reagindo \u00e0 minha raiva? E, principalmente: quem ganha quando eu perco a capacidade de dialogar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos de intoler\u00e2ncia, elevar a consci\u00eancia n\u00e3o significa renunciar a convic\u00e7\u00f5es. Na minha forma de \u201cenxergar a vida\u201d, significa n\u00e3o permitir que nossas convic\u00e7\u00f5es nos roubem a humanidade. Porque talvez o verdadeiro poder n\u00e3o esteja em conseguir que todos pensem como n\u00f3s. Talvez esteja em continuar sendo capaz de pensar quando todos ao nosso redor est\u00e3o apenas reagindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez essa seja a pergunta que devemos levar para casa: quanto estamos pagando pela intoler\u00e2ncia \u2014 e quem est\u00e1 recebendo essa conta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bia Rossatti \u2013 Terapeuta Familiar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">16 99777-2501<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti&nbsp; @biarossattiterapeuta &nbsp; Nestes \u00faltimos dias tenho prestado aten\u00e7\u00e3o nas redes sociais e o meu sentimento \u00e9 que estamos crescendo os nossos n\u00edveis de intoler\u00e2ncia. E a primeira pergunta que eu fa\u00e7o \u00e9: o que est\u00e1 por tr\u00e1s dela? Mas tamb\u00e9m: o que perdemos quando permitimos que ela conduza nossas decis\u00f5es? 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