{"id":53289,"date":"2026-10-10T09:01:48","date_gmt":"2026-10-10T12:01:48","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53289"},"modified":"2026-10-10T09:01:48","modified_gmt":"2026-10-10T12:01:48","slug":"o-escolhido-foi-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-escolhido-foi-voce\/","title":{"rendered":"O escolhido foi voc\u00ea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Fabrizio Martins Tavoni<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@fabriziotavoni_profissional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toca o sinal do recreio e, em menos de um minuto, o p\u00e1tio da escola ganha vida. Um grupo de seis crian\u00e7as se junta perto do bebedouro para decidir quem vai ser o pegador no esconde-esconde. Ningu\u00e9m consulta a professora. Uma menina estica o dedo e come\u00e7a a apontar, um por um, no ritmo da f\u00f3rmula: \u201cuni-duni-t\u00ea, salam\u00ea mingu\u00ea, um sorvete color\u00ea, o escolhido foi voc\u00ea\u201d. O menino apontado por \u00faltimo reclama: diz que ela come\u00e7ou a contar por ele de prop\u00f3sito. A turma discute por alguns segundos se vale recome\u00e7ar. Decide que vale. Recontam, o novo resultado \u00e9 aceito sem protesto e a brincadeira come\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena pode parecer corriqueira, e \u00e9 justamente por isso que interessa \u00e0 sociologia. Ningu\u00e9m ensinou \u00e0quelas crian\u00e7as, em sala de aula, as palavras do uni-duni-t\u00ea, nem a regra n\u00e3o escrita de que quem conta n\u00e3o escolhe por onde come\u00e7ar, nem o jeito de resolver a disputa. Elas aprenderam umas com as outras: as mais novas observando as mais velhas, que aprenderam com outras antes delas. H\u00e1 ali um pequeno sistema de normas, com tradi\u00e7\u00e3o, autoridade e formas pr\u00f3prias de julgamento, funcionando quase inteiramente longe dos adultos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53293\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1399\" height=\"2050\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1.jpg 1399w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-205x300.jpg 205w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-699x1024.jpg 699w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-768x1125.jpg 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-1048x1536.jpg 1048w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-1398x2048.jpg 1398w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-150x220.jpg 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-750x1099.jpg 750w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-e-Capa-1-1140x1670.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1399px) 100vw, 1399px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Legenda: Eu no alto do escorregador aos seis anos de idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem primeiro levou isso a s\u00e9rio no Brasil foi o soci\u00f3logo Florestan Fernandes. Nos anos 1940, no in\u00edcio da carreira, ele estudou os grupos de brincadeira das crian\u00e7as do Bom Retiro, bairro oper\u00e1rio e de imigrantes de S\u00e3o Paulo, e os chamou pelo nome que elas mesmas usavam: as \u201ctrocinhas\u201d. O que encontrou foi uma cultura infantil com vida pr\u00f3pria, feita de cantigas, f\u00f3rmulas de escolha, regras de jogo, hierarquias e puni\u00e7\u00f5es, transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o entre as pr\u00f3prias crian\u00e7as. Percebeu tamb\u00e9m que era nas trocinhas que filhos de fam\u00edlias de origens muito diferentes aprendiam a conviver e a se tornar, juntos, crian\u00e7as da mesma cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e9cadas depois, a sociologia da inf\u00e2ncia chegaria a conclus\u00f5es parecidas. O norte-americano William Corsaro, que passou anos observando crian\u00e7as em escolas dos Estados Unidos e da It\u00e1lia, fala em \u201cculturas de pares\u201d e em \u201creprodu\u00e7\u00e3o interpretativa\u201d: as crian\u00e7as n\u00e3o recebem o mundo adulto pronto, mas o reinterpretam e o transformam do seu jeito. O portugu\u00eas Manuel Jacinto Sarmento segue a mesma senda ao tratar as crian\u00e7as como atores sociais, e n\u00e3o como adultos incompletos \u00e0 espera de forma\u00e7\u00e3o. O que Florestan viu no Bom Retiro, portanto, n\u00e3o era uma curiosidade de bairro, mas uma regularidade: onde houver crian\u00e7as reunidas, haver\u00e1 cultura sendo produzida por elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53292\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02.png\" alt=\"\" width=\"2530\" height=\"1094\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02.png 2530w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-300x130.png 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-1024x443.png 1024w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-768x332.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-1536x664.png 1536w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-2048x886.png 2048w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-150x65.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-750x324.png 750w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-1140x493.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 2530px) 100vw, 2530px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que a cena do recreio pede uma segunda leitura. Se a capacidade de criar regras \u00e9 comum a todas as crian\u00e7as, o espa\u00e7o onde isso acontece n\u00e3o \u00e9. Falar em \u201ca crian\u00e7a\u201d, no singular, esconde que o Brasil tem inf\u00e2ncias no plural. As trocinhas continuam existindo, mas se distribuem de forma desigual. H\u00e1 crian\u00e7as cujo uni-duni-t\u00ea acontece na rua ou no campinho, entre vizinhos de idades variadas e com pouca vigil\u00e2ncia adulta. H\u00e1 as que brincam no playground do condom\u00ednio, em hor\u00e1rio marcado e com adultos por perto. H\u00e1 as que encontram os amigos sobretudo numa partida on-line, com colegas que talvez nunca tenham visto pessoalmente. E h\u00e1 aquelas para quem o recreio \u00e9 o principal espa\u00e7o seguro de brincadeira coletiva do dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma dessas formas \u00e9, em si, melhor ou pior. A pergunta sociol\u00f3gica \u00e9 outra: quem brinca onde, com quem e sob o olhar de quem. Cada espa\u00e7o ensina coisas diferentes. A rua ensina a negociar com crian\u00e7as mais velhas e desconhecidas; o condom\u00ednio, a conviv\u00eancia entre iguais; o jogo on-line, c\u00f3digos que atravessam cidades. E o Bom Retiro de Florestan lembra que aquela n\u00e3o era uma inf\u00e2ncia idealizada: eram filhos de trabalhadores, que tinham a rua como territ\u00f3rio justamente porque tinham pouco al\u00e9m dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso a escola ocupa um lugar t\u00e3o particular nessa hist\u00f3ria. O p\u00e1tio \u00e9 um dos raros lugares em que crian\u00e7as de condi\u00e7\u00f5es diferentes fazem o mesmo uni-duni-t\u00ea, sob as mesmas regras. Ali, durante o recreio, quem define o escolhido n\u00e3o \u00e9 a renda da fam\u00edlia nem o endere\u00e7o, mas o dedo de uma menina e uma cantiga que ningu\u00e9m sabe ao certo quem inventou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53291\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03.png\" alt=\"\" width=\"1674\" height=\"972\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03.png 1674w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-300x174.png 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-1024x595.png 1024w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-768x446.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-1536x892.png 1536w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-150x87.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-750x435.png 750w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-1140x662.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 1674px) 100vw, 1674px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste 12 de outubro, as vitrines v\u00e3o sugerir que celebrar a crian\u00e7a \u00e9 acertar no presente. A sociologia sugere, no lugar, uma pergunta aos adultos. Se as crian\u00e7as seguem, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, inventando por conta pr\u00f3pria as regras do seu mundo, que espa\u00e7os a sociedade adulta est\u00e1 oferecendo para que fa\u00e7am isso, e para quais crian\u00e7as? Talvez o presente mais importante nesse dia 12 de outubro n\u00e3o caiba numa caixa, mas sim num lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabrizio Martins Tavoni \u00e9 Soci\u00f3logo (UEL), Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica (UFSCar) e Doutorando em Educa\u00e7\u00e3o (Unicamp).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabrizio Martins Tavoni @fabriziotavoni_profissional Toca o sinal do recreio e, em menos de um minuto, o p\u00e1tio da escola ganha vida. Um grupo de seis crian\u00e7as se junta perto do bebedouro para decidir quem vai ser o pegador no esconde-esconde. 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