{"id":53521,"date":"2026-10-19T16:33:32","date_gmt":"2026-10-19T19:33:32","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53521"},"modified":"2026-10-19T16:33:32","modified_gmt":"2026-10-19T19:33:32","slug":"outubro-rosa-quando-a-dor-nao-encontra-palavras-o-corpo-tambem-precisa-de-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/outubro-rosa-quando-a-dor-nao-encontra-palavras-o-corpo-tambem-precisa-de-cuidado\/","title":{"rendered":"Outubro Rosa: quando a dor n\u00e3o encontra palavras, o corpo tamb\u00e9m precisa de cuidado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Fabiana Ribeiro<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@fabianaribeirodos805&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade sempre valorizou a mulher pela sua capacidade de cuidar, produzir, conciliar tarefas e suportar adversidades. Desde a inf\u00e2ncia muitas s\u00e3o ensinadas a priorizar as necessidades alheias, a conter o choro, a evitar conflitos e a permanecer dispon\u00edveis, mesmo quando est\u00e3o emocionalmente esgotadas.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa constru\u00e7\u00e3o social contribui para a naturaliza\u00e7\u00e3o da sobrecarga, da desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o do trabalho, do cuidado e do silenciamento emocional. Necessariamente n\u00e3o atinge todas as mulheres da mesma forma, no entanto, contribui para a exaust\u00e3o e a possibilidade de adoecimento ps\u00edquico e emocional.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fomos condicionadas a sorrir mesmo estando emocionalmente exaustas, silenciar nossas pr\u00f3prias necessidades em detrimento das necessidades alheias, de cuidar dos outros. Aprendemos a ser resistentes, diante de uma condi\u00e7\u00e3o permanente de exist\u00eancia, receosas de pedir ajuda, de descansar ou de sentir dor, como se estas condi\u00e7\u00f5es fossem sin\u00f4nimos de fraqueza.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a ansiedade, a tristeza persistente, o medo e a exaust\u00e3o passam a ser considerados parte inevit\u00e1vel da rotina, o sofrimento pode deixar de ser reconhecido como algo que merece aten\u00e7\u00e3o. A mulher continua desempenhando suas fun\u00e7\u00f5es, mas isso n\u00e3o significa necessariamente que esteja bem.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante compreender que o sofrimento ps\u00edquico n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia exclusivamente individual. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho, a viol\u00eancia, a inseguran\u00e7a econ\u00f4mica, as responsabilidades familiares, a aus\u00eancia de apoio e as desigualdades sociais tamb\u00e9m participam da constru\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de sa\u00fade e adoecimento.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade reconhece a influ\u00eancia dos determinantes sociais sobre a sa\u00fade. Portanto, falar de cuidado feminino exige ir al\u00e9m da recomenda\u00e7\u00e3o individual de descansar ou administrar melhor o tempo. \u00c9 preciso considerar as condi\u00e7\u00f5es concretas que permitem \u2014 ou impedem \u2014 que uma mulher cuide de si.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ci\u00eancia contempor\u00e2nea reconhece que os processos psicol\u00f3gicos e fisiol\u00f3gicos est\u00e3o interligados. O estresse ativa mecanismos neuroend\u00f3crinos, incluindo o eixo hipot\u00e1lamo-hip\u00f3fise-adrenal, e modifica a libera\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios envolvidos na resposta do organismo \u00e0s situa\u00e7\u00f5es percebidas como amea\u00e7adoras.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a resposta ao estresse se mant\u00e9m por per\u00edodos prolongados, podem ocorrer repercuss\u00f5es sobre o sono, a press\u00e3o arterial, o funcionamento metab\u00f3lico, a regula\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica e a sa\u00fade mental. Ansiedade persistente, depress\u00e3o e estresse cr\u00f4nico tamb\u00e9m podem comprometer a qualidade de vida e dificultar a procura por atendimento ou a continuidade de determinados cuidados de sa\u00fade.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir a influ\u00eancia do sofrimento emocional sobre a sa\u00fade f\u00edsica da afirma\u00e7\u00e3o de que emo\u00e7\u00f5es espec\u00edficas causam doen\u00e7as espec\u00edficas.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso do c\u00e2ncer de mama, as evid\u00eancias cient\u00edficas dispon\u00edveis n\u00e3o demonstram uma rela\u00e7\u00e3o causal direta entre estresse psicol\u00f3gico, emo\u00e7\u00f5es reprimidas ou experi\u00eancias traum\u00e1ticas e o desenvolvimento da doen\u00e7a. O c\u00e2ncer \u00e9 multifatorial, envolvendo processos biol\u00f3gicos, gen\u00e9ticos, hormonais, ambientais e comportamentais, entre outros fatores. O Instituto Nacional de C\u00e2ncer (INCA) e o National Cancer Institute ressaltam a complexidade de sua origem e a import\u00e2ncia de considerar os fatores de risco reconhecidos.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa precis\u00e3o \u00e9 fundamental: uma mulher que desenvolve c\u00e2ncer n\u00e3o deve ser levada a acreditar que adoeceu porque sofreu demais, n\u00e3o conseguiu perdoar, guardou m\u00e1goas ou deixou de cuidar de suas emo\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecer a rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade mental e sa\u00fade f\u00edsica significa compreender que o organismo funciona de maneira integrada, sem reduzir a complexidade de uma doen\u00e7a \u00e0 hist\u00f3ria emocional de quem a enfrenta.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o que eu gostaria de promover \u00e9 justamente pensar por que tantas mulheres precisam chegar ao limite da exaust\u00e3o para reconhecer que tamb\u00e9m necessitam de cuidado?&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio reconhecer limites, construir rela\u00e7\u00f5es mais respeitosas, procurar acompanhamento psicol\u00f3gico quando necess\u00e1rio, compartilhar responsabilidades e ter acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade. Reconhecer nossas vulnerabilidades n\u00e3o elimina a for\u00e7a e a capacidade de continuar, apenas nos direciona a compreender que tamb\u00e9m necessitamos de cuidados.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A promo\u00e7\u00e3o do autocuidado, associado a momentos de descanso, atividades prazerosas ou mudan\u00e7as de h\u00e1bitos, s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o suficientes dependendo do contexto quando a mulher vive sob condi\u00e7\u00f5es persistentes de sobrecarga, viol\u00eancia, abandono ou falta de apoio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher que sustenta tantas pessoas tamb\u00e9m precisa de espa\u00e7os nos quais possa deixar de sustentar tudo sozinha.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na arteterapia, a experi\u00eancia humana pode encontrar caminhos de express\u00e3o que n\u00e3o dependem exclusivamente da linguagem verbal. Cores, formas, imagens, gestos, texturas e materiais art\u00edsticos podem favorecer a aproxima\u00e7\u00e3o de sentimentos, mem\u00f3rias e percep\u00e7\u00f5es que, por diferentes raz\u00f5es, s\u00e3o dif\u00edceis de nomear.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Selma Ciornai, importante refer\u00eancia brasileira na \u00e1rea, contribui para a compreens\u00e3o das pr\u00e1ticas arteterap\u00eauticas como processos que valorizam a experi\u00eancia criativa, a express\u00e3o subjetiva e a constru\u00e7\u00e3o de sentidos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitas mulheres, criar pode representar uma oportunidade de interromper momentaneamente as exig\u00eancias cotidianas e voltar a aten\u00e7\u00e3o para aquilo que sentem, desejam e necessitam. Esse processo pode favorecer a express\u00e3o emocional e o autoconhecimento, embora n\u00e3o substitua acompanhamento m\u00e9dico ou psicol\u00f3gico quando indicado.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte n\u00e3o promete cura, no entanto seu potencial reside na possibilidade de oferecer presen\u00e7a, express\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o e encontro consigo mesma.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste m\u1ebds de outubro, a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o c\u00e2ncer de mama precisa estar acompanhada de informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica confi\u00e1vel, acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade, avalia\u00e7\u00e3o individualizada dos fatores de risco e realiza\u00e7\u00e3o dos exames recomendados conforme as orienta\u00e7\u00f5es de sa\u00fade vigentes.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, precisamos ampliar as conversas sobre sa\u00fade mental, viol\u00eancia contra a mulher, sobrecarga de cuidado e condi\u00e7\u00f5es de vida que comprometem o bem-estar feminino.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de substituir a preven\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer por discursos sobre emo\u00e7\u00f5es, mas de compreender que o cuidado integral n\u00e3o pode ignorar nenhuma dessas dimens\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma mulher precisa ter acesso ao diagn\u00f3stico e ao tratamento de uma doen\u00e7a f\u00edsica. Precisa tamb\u00e9m encontrar condi\u00e7\u00f5es para cuidar da sa\u00fade mental, receber apoio diante de experi\u00eancias dif\u00edceis e viver sem que sua exist\u00eancia seja permanentemente organizada em torno das necessidades dos outros.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez uma das perguntas mais importantes deste Outubro Rosa n\u00e3o seja apenas se estamos atentas aos sinais do nosso corpo, mas se temos encontrado espa\u00e7o para reconhecer nossas pr\u00f3prias necessidades.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero propor mais uma inquieta\u00e7\u00e3o: Quando foi a \u00faltima vez que fez algo por si mesma sem considerar essa escolha um ato de ego\u00edsmo?&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas mulheres tendem a sentir culpa, quando cuidam de si mesmas. Quando percebem que est\u00e3o se amando, se encontrando e se percebendo, e por vezes investindo recursos para a promo\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sa\u00fade e bem estar, por vezes, sentem culpa, por n\u00e3o investir este mesmo recurso nas pessoas que cuidam.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o temos como controlar todos os fatores envolvidos no adoecimento. Tampouco podemos garantir que o sofrimento emocional n\u00e3o produzir\u00e1 repercuss\u00f5es f\u00edsicas. O que podemos fazer \u00e9 reconhecer os sinais de sofrimento, buscar ajuda, fortalecer redes de apoio e construir condi\u00e7\u00f5es de vida mais saud\u00e1veis.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste Outubro Rosa, que o cuidado n\u00e3o se limite \u00e0 lembran\u00e7a de uma campanha. Que ele se transforme em acesso \u00e0 sa\u00fade, informa\u00e7\u00e3o, escuta, preven\u00e7\u00e3o e responsabilidade coletiva. E que toda mulher entenda a necessidade de olhar para si.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que nenhuma mulher precise adoecer para que sua dor seja levada a s\u00e9rio. Que nenhuma precise chegar ao esgotamento para merecer descanso. E que nenhuma seja responsabilizada por uma doen\u00e7a como se o sofrimento vivido fosse uma escolha ou uma falha pessoal.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cuidar da mulher \u00e9 reconhecer sua integralidade: corpo, hist\u00f3ria, subjetividade, v\u00ednculos e condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BRASIL. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Instituto Nacional de C\u00e2ncer (INCA). Fatores de risco para o c\u00e2ncer de mama. Dispon\u00edvel no portal oficial do INCA.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CIORNAI, Selma (org.). Percursos em arteterapia: arteterapia gest\u00e1ltica, arte em psicoterapia, supervis\u00e3o em arteterapia. S\u00e3o Paulo: Summus.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabiana Ribeiro \u00e9 Pedagoga, Psicopedagoga, Neuroeducadora, Arteterapeuta, graduanda em Terapia Educacional, p\u00f3s graduanda em An\u00e1lise do Comportamento ABA, Ludicidade e Artes, apresentadora de PodCast, professora de Educa\u00e7\u00e3o Infantil na Municipalidade de Cotia, Integrante do Grupo Flor em Flor, e propriet\u00e1ria do Essentia Espa\u00e7o Terap\u00eautico.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabiana Ribeiro @fabianaribeirodos805&nbsp; &nbsp; A sociedade sempre valorizou a mulher pela sua capacidade de cuidar, produzir, conciliar tarefas e suportar adversidades. 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