{"id":53829,"date":"2026-10-30T07:48:29","date_gmt":"2026-10-30T10:48:29","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53829"},"modified":"2026-10-30T08:14:11","modified_gmt":"2026-10-30T11:14:11","slug":"quando-ter-razao-se-tornou-mais-importante-do-que-preservar-quem-amamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/quando-ter-razao-se-tornou-mais-importante-do-que-preservar-quem-amamos\/","title":{"rendered":"Quando ter raz\u00e3o se tornou mais importante do que preservar quem amamos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos dias t\u00e3o conturbados nestes \u00faltimos dias, momentos em que as diverg\u00eancias pol\u00edticas ultrapassaram as discuss\u00f5es sobre projetos de pa\u00eds e passaram a ocupar espa\u00e7os cada vez mais \u00edntimos da nossa vida. Fam\u00edlias se dividindo, amizades se desfazendo e casais descobrindo que suas diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas transformaram o convivio em verdadeiros campos de batalha. Mas ser\u00e1 que o problema est\u00e1 apenas naquilo em que acreditamos ou tamb\u00e9m na maneira como lidamos com quem acredita em algo diferente de n\u00f3s?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma pergunta importante em um per\u00edodo de intensa polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil. E, embora o debate p\u00fablico mere\u00e7a nossa aten\u00e7\u00e3o, existe uma dimens\u00e3o desse fen\u00f4meno que precisa ser examinada com mais cuidado: o impacto da polariza\u00e7\u00e3o sobre os nossos relacionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a diverg\u00eancia se transforma em inimizade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discordar faz parte da experi\u00eancia humana. Somos formados por hist\u00f3rias, valores, experi\u00eancias e interpreta\u00e7\u00f5es diferentes da realidade. \u00c9 natural que nem sempre cheguemos \u00e0s mesmas conclus\u00f5es, inclusive quando compartilhamos a mesma casa, a mesma fam\u00edlia ou d\u00e9cadas de vida em comum. O problema come\u00e7a quando deixamos de discutir ideias e passamos a julgar o valor de quem pensa diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez de perguntar por que o outro chegou \u00e0quela conclus\u00e3o, atribu\u00edmos a ele ignor\u00e2ncia, m\u00e1-f\u00e9 ou falta de car\u00e1ter, falta de intelig\u00eancia. A conversa deixa de ser uma oportunidade de compreens\u00e3o e se transforma em uma disputa na qual cada um precisa provar que est\u00e1 certo. Nesse cen\u00e1rio, ouvir se torna dif\u00edcil. Afinal, quando acreditamos que o outro representa uma amea\u00e7a aos nossos valores ou \u00e0 nossa identidade, qualquer argumento contr\u00e1rio pode ser recebido como uma agress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, quando isso acontece, j\u00e1 n\u00e3o estamos apenas discutindo pol\u00edtica. Estamos defendendo nossa pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que a polariza\u00e7\u00e3o pode estar revelando sobre n\u00f3s?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisas sobre polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e rela\u00e7\u00f5es familiares ajudam a compreender que as diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas podem ultrapassar o campo das opini\u00f5es e afetar os v\u00ednculos pessoais. Um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista Research &amp; Politics, de autoria de Malu A. C. Gatto, Jo\u00e3o Gabriel Leal e D\u00e9bora Thom\u00e9, investigou conflitos familiares relacionados \u00e0s elei\u00e7\u00f5es brasileiras de 2022. Os resultados mostram que, para uma parcela dos entrevistados, as diverg\u00eancias eleitorais tiveram consequ\u00eancias concretas nas rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo n\u00e3o significa que toda diverg\u00eancia pol\u00edtica provoque rompimentos, mas nos ajuda a reconhecer que o conflito pol\u00edtico pode deixar marcas que v\u00e3o al\u00e9m das urnas. A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 exigir que todos pensem da mesma maneira. \u00c9 compreender por que algumas diferen\u00e7as conseguem ser negociadas, enquanto outras passam a amea\u00e7ar rela\u00e7\u00f5es que levaram anos para ser constru\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando essa disputa chega ao casamento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagine um casal que compartilhou d\u00e9cadas de vida, criou filhos, enfrentou dificuldades financeiras e construiu um patrim\u00f4nio. Durante muito tempo, as diferen\u00e7as foram administradas, os conflitos encontraram algum espa\u00e7o de negocia\u00e7\u00e3o e a vida seguiu. Em determinado momento, por\u00e9m, as diverg\u00eancias pol\u00edticas passam a ocupar todas as conversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um considera o outro incapaz de compreender a realidade. O outro responde com acusa\u00e7\u00f5es. As discuss\u00f5es se repetem, o ressentimento aumenta e o sil\u00eancio come\u00e7a a substituir o di\u00e1logo.Aos poucos, o casal deixa de enxergar a pessoa com quem construiu uma hist\u00f3ria e passa a enxergar apenas algu\u00e9m que representa uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica rejeitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante reconhecer que nem toda crise conjugal pode ser explicada pela pol\u00edtica. Muitas vezes, as diverg\u00eancias funcionam como um amplificador de problemas anteriores: ressentimentos acumulados, dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o, perda de intimidade e conflitos de valores que nunca foram adequadamente discutidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica pode ser o assunto aparente. A dificuldade de lidar com as diferen\u00e7as pode ser uma quest\u00e3o muito mais profunda. Como Terapeuta Sist\u00eamica, considero fundamental olhar para o contexto das rela\u00e7\u00f5es, compreender os padr\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o e observar como as atitudes de cada pessoa influenciam a resposta da outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa distribuir culpas igualmente nem relativizar comportamentos abusivos. Significa investigar o que est\u00e1 acontecendo na rela\u00e7\u00e3o para que as decis\u00f5es sejam tomadas com maior clareza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter raz\u00e3o \u00e9 suficiente para construir uma vida a dois?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma diferen\u00e7a importante entre defender convic\u00e7\u00f5es e transformar essas convic\u00e7\u00f5es em instrumentos de superioridade moral. Podemos ter valores firmes, questionar decis\u00f5es pol\u00edticas, criticar governos e discordar profundamente de determinadas ideias. Nada disso exige que desumanizemos quem pensa de outra maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o precisamos concordar com tudo para preservar um v\u00ednculo. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, inclusive, existem diferen\u00e7as fundamentais que precisam ser reconhecidas com honestidade.O que precisamos aprender \u00e9 a distinguir o respeito \u00e0 pessoa da concord\u00e2ncia com suas ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respeitar n\u00e3o \u00e9 aprovar. Escutar n\u00e3o \u00e9 se submeter. Dialogar n\u00e3o \u00e9 abandonar os pr\u00f3prios princ\u00edpios. \u00c9 reconhecer que a realidade pode ser mais complexa do que nossa interpreta\u00e7\u00e3o individual e que a disposi\u00e7\u00e3o para examinar nossas certezas tamb\u00e9m faz parte do amadurecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pergunta pode nos ajudar nesse exerc\u00edcio: estou tentando compreender o que est\u00e1 acontecendo ou apenas procurando argumentos para provar que tenho raz\u00e3o? Essa reflex\u00e3o n\u00e3o se aplica somente \u00e0 pol\u00edtica. Ela tamb\u00e9m vale para discuss\u00f5es sobre dinheiro, cria\u00e7\u00e3o dos filhos, divis\u00e3o das responsabilidades, sexualidade, projetos de vida e tantas outras quest\u00f5es que atravessam um casamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de desistir, precisamos compreender<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meu trabalho com casais, especialmente aqueles que viveram muitos anos juntos e atravessam crises profundas, procuro ajudar as pessoas a compreenderem o que est\u00e1 acontecendo antes de tomarem decis\u00f5es definitivas. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a proposta do meu projeto Antes do Fim\u00ae: criar um espa\u00e7o de clareza para que o casal possa examinar sua realidade, reconhecer os conflitos e avaliar, com responsabilidade, se existe um caminho poss\u00edvel de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa defender a perman\u00eancia em qualquer relacionamento. Existem situa\u00e7\u00f5es em que a separa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, sobretudo quando h\u00e1 viol\u00eancia, abuso ou aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es seguras para a conviv\u00eancia. Mas tamb\u00e9m existem casais que chegam ao limite sem compreender inteiramente como foram construindo a dist\u00e2ncia que hoje os separa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses casos, antes de concluir que tudo acabou, pode ser importante investigar se ainda existe disposi\u00e7\u00e3o m\u00fatua para escutar, rever comportamentos e construir novas formas de conviv\u00eancia. A mesma reflex\u00e3o vale para os conflitos pol\u00edticos dentro da fam\u00edlia: antes de transformar uma diverg\u00eancia em motivo de rompimento, precisamos compreender o que est\u00e1 em jogo, quais limites s\u00e3o necess\u00e1rios e se ainda existe espa\u00e7o para uma rela\u00e7\u00e3o respeitosa.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mudan\u00e7a que esperamos do mundo come\u00e7a nas nossas rela\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tentador acreditar que os problemas est\u00e3o sempre do lado de fora: nos pol\u00edticos, nas institui\u00e7\u00f5es, nas pessoas que pensam diferente de n\u00f3s. Evidentemente, existem quest\u00f5es sociais e pol\u00edticas que exigem cr\u00edtica, posicionamento e a\u00e7\u00e3o concreta. N\u00e3o devemos confundir reflex\u00e3o com omiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, tamb\u00e9m precisamos olhar para a nossa participa\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es que constru\u00edmos. Como reagimos quando somos contrariados? Conseguimos admitir que podemos estar equivocados em alguma coisa? Somos capazes de ouvir sem preparar imediatamente uma resposta? Reconhecemos a diferen\u00e7a entre questionar uma ideia e atacar uma pessoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas perguntas n\u00e3o resolvem todos os conflitos, mas podem nos ajudar a interromper padr\u00f5es que alimentam o afastamento.Uma sociedade mais consciente n\u00e3o \u00e9 aquela em que todos concordam. \u00c9 aquela em que as pessoas conseguem discutir suas diferen\u00e7as sem perder de vista a responsabilidade pelas pr\u00f3prias atitudes. Talvez n\u00e3o consigamos controlar o rumo de todas as discuss\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds. Mas podemos come\u00e7ar examinando a maneira como tratamos as pessoas com quem convivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, no fim, uma pergunta permanece: de que adianta vencer uma discuss\u00e3o se, para isso, destru\u00edmos um v\u00ednculo que era importante para n\u00f3s? Ter raz\u00e3o pode nos dar a sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria. Compreender a realidade, reconhecer nossos limites e agir com responsabilidade exige algo mais dif\u00edcil: maturidade. E talvez seja justamente essa maturidade que nossos relacionamentos \u2014 e nossa conviv\u00eancia social \u2014 estejam nos pedindo neste momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti @biarossattiterapeuta Vivemos dias t\u00e3o conturbados nestes \u00faltimos dias, momentos em que as diverg\u00eancias pol\u00edticas ultrapassaram as discuss\u00f5es sobre projetos de pa\u00eds e passaram a ocupar espa\u00e7os cada vez mais \u00edntimos da nossa vida. 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