{"id":53855,"date":"2026-10-31T03:51:38","date_gmt":"2026-10-31T06:51:38","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53855"},"modified":"2026-10-30T19:56:14","modified_gmt":"2026-10-30T22:56:14","slug":"gostosuras-travessuras-e-mercadorias-um-olhar-sociologico-sobre-o-halloween","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/gostosuras-travessuras-e-mercadorias-um-olhar-sociologico-sobre-o-halloween\/","title":{"rendered":"Gostosuras, travessuras e mercadorias: um olhar sociol\u00f3gico sobre o Halloween"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Fabrizio Martins Tavoni<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">@fabriziotavoni_profissional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje \u00e9 31 de outubro. Em algum pr\u00e9dio, no fim da tarde, uma bruxinha de uns cinco anos vai tocar a campainha do vizinho com um balde em forma de ab\u00f3bora na m\u00e3o, repetindo baixinho a frase que aprendeu na escola: \u201cdoces ou travessuras?\u201d. Do outro lado da porta, um adulto que provavelmente nunca comemorou o Halloween na pr\u00f3pria inf\u00e2ncia vai fingir susto e entregar um punhado de balas. Esta cena dura segundos, s\u00f3 que carrega mais de dois mil anos de hist\u00f3ria, algumas travessias de oceano e uma boa dose de economia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53857\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2.png\" alt=\"\" width=\"1536\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2.png 1536w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2-300x200.png 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2-1024x683.png 1024w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2-768x512.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2-150x100.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2-750x500.png 750w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-01-2-1140x760.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Legenda: Crian\u00e7a fantasiada de bruxa toca a campainha de um vizinho no fim de tarde de 31 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos ao come\u00e7o. Entre os povos celtas que habitavam as atuais Irlanda, Gr\u00e3-Bretanha e norte da Fran\u00e7a, o fim de outubro marcava o Samhain: o encerramento da colheita e a entrada na metade escura do ano. Acreditava-se que, nessa virada, a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos ficava mais fina. Acendiam-se fogueiras e as pessoas se disfar\u00e7avam para n\u00e3o serem reconhecidas pelos esp\u00edritos que vagavam. S\u00e9culos depois, a Igreja fixou em 1\u00ba de novembro o Dia de Todos os Santos, e a noite anterior ganhou o nome ingl\u00eas de All Hallows\u2019 Eve, a v\u00e9spera de todos os santos, que o uso encurtou para Halloween. Os historiadores ainda discutem o quanto da festa pag\u00e3 sobreviveu dentro da crist\u00e3, mas \u00e9 dessa mistura que vem, por exemplo, o costume medieval de pessoas pobres baterem de porta em porta pedindo pequenos bolos em troca de ora\u00e7\u00f5es pelos mortos da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda virada acontece do outro lado do Atl\u00e2ntico. Com a grande imigra\u00e7\u00e3o irlandesa para os Estados Unidos, sobretudo a partir da fome de 1845, a festa atravessou o oceano junto com quem n\u00e3o tinha quase nada para levar. L\u00e1, o nabo esculpido que servia de lanterna virou ab\u00f3bora, mais abundante e mais f\u00e1cil de entalhar. Na passagem do s\u00e9culo XIX para o XX, lideran\u00e7as locais passaram a incentivar uma comemora\u00e7\u00e3o menos assustadora, e o vandalismo das \u201ctravessuras\u201d das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX foi sendo trocado pela distribui\u00e7\u00e3o de doces. O historiador Eric Hobsbawm chama isso de tradi\u00e7\u00e3o inventada: n\u00e3o algo criado do nada, mas costumes antigos reorganizados para responder a necessidades novas. A noite dos mortos tornou-se a noite das crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53858\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3.png\" alt=\"\" width=\"1536\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3.png 1536w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3-300x200.png 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3-1024x683.png 1024w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3-768x512.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3-150x100.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3-750x500.png 750w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-02-3-1140x760.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Legenda: Da lanterna de nabo \u00e0 ab\u00f3bora: a festa mudou de forma ao atravessar o Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E aqui entra o terceiro personagem da hist\u00f3ria: a mercadoria. Segundo a Federa\u00e7\u00e3o Nacional do Varejo dos Estados Unidos, os americanos devem gastar cerca de 13,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares com o Halloween em 2026, recorde hist\u00f3rico. S\u00e3o aproximadamente 4,4 bilh\u00f5es em fantasias, 4,3 bilh\u00f5es em decora\u00e7\u00e3o e 4,1 bilh\u00f5es em doces, sem contar quase um bilh\u00e3o em fantasias para animais de estima\u00e7\u00e3o. Karl Marx j\u00e1 observava que, no modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas tendem a aparecer como rela\u00e7\u00f5es entre coisas. Uma festa que antes se fazia com o que havia em casa passa a ser algo que se compra, e o calend\u00e1rio do varejo encontra, entre o Dia das Crian\u00e7as e a Black Friday, mais uma data para movimentar as prateleiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesse formato, j\u00e1 embalado, que o Halloween chegou a pa\u00edses que nunca o haviam comemorado, como o Brasil. Costuma-se apontar as escolas de ingl\u00eas como uma das portas de entrada, seguidas pelos shoppings, pelas festas tem\u00e1ticas e, sobretudo, pelo cinema e pelas s\u00e9ries. Theodor Adorno e Max Horkheimer chamaram de ind\u00fastria cultural esse sistema que produz bens simb\u00f3licos em s\u00e9rie e, junto com eles, desejos e h\u00e1bitos. O soci\u00f3logo brasileiro Renato Ortiz prefere falar em mundializa\u00e7\u00e3o da cultura: refer\u00eancias que circulam pelo planeta e se tornam familiares para gente que nunca pisou no lugar onde nasceram. A ab\u00f3bora, que n\u00e3o faz parte da nossa mem\u00f3ria de outubro, passou a fazer parte da nossa paisagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que houve uma rea\u00e7\u00e3o nacional. Em 2003, a cidade paulista de S\u00e3o Luiz do Paraitinga instituiu o Dia do Saci na mesma data, e no ano seguinte o Estado de S\u00e3o Paulo transformou a ideia em lei, com o objetivo declarado de valorizar o folclore nacional. O curioso \u00e9 que, em muitas escolas, a disputa terminou em conviv\u00eancia: bruxas, fantasmas, sacis e mulas sem cabe\u00e7a dividem o mesmo p\u00e1tio. Os soci\u00f3logos chamam isso de glocaliza\u00e7\u00e3o, quando o global \u00e9 reinterpretado pelo local e devolvido com sotaque pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-53859\" src=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3.png\" alt=\"\" width=\"1536\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3.png 1536w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3-300x200.png 300w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3-1024x683.png 1024w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3-768x512.png 768w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3-150x100.png 150w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3-750x500.png 750w, https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Imagem-03-3-1140x760.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Legenda: Bruxas e sacis no mesmo p\u00e1tio: o global reinterpretado pelo local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso, por\u00e9m, precisa estragar a festa. O soci\u00f3logo \u00c9mile Durkheim mostrou que os rituais coletivos existem para produzir la\u00e7os: por algumas horas, as pessoas fazem juntas algo fora do comum e, ao faz\u00ea-lo, reconhecem-se como grupo. Para uma crian\u00e7a, o Halloween \u00e9 exatamente isso. \u00c9 a permiss\u00e3o rara de bater na porta de um quase desconhecido, de inverter os pap\u00e9is e assustar os adultos, de brincar com o medo at\u00e9 domestic\u00e1-lo. Entender de onde vem um costume n\u00e3o \u00e9 o mesmo que conden\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que quero dizer \u00e9 que o ponto mais interessante n\u00e3o seja se o Halloween \u00e9 ou n\u00e3o \u201cnosso\u201d, mas o que fazemos dele. Uma festa pode ser vivida como uma lista de compras ou como um encontro entre vizinhos que mal se cumprimentam no elevador. Se, depois desta noite, algu\u00e9m passar a dizer bom-dia a quem antes era s\u00f3 o morador do 52, o ritual ter\u00e1 cumprido a fun\u00e7\u00e3o que Durkheim lhe atribu\u00eda, e isso n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda em nenhuma prateleira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabrizio Martins Tavoni \u00e9 Soci\u00f3logo (UEL), Mestre em Ci\u00eancia Pol\u00edtica (UFSCar) e Doutorando em Educa\u00e7\u00e3o (Unicamp).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabrizio Martins Tavoni @fabriziotavoni_profissional &nbsp; Hoje \u00e9 31 de outubro. Em algum pr\u00e9dio, no fim da tarde, uma bruxinha de uns cinco anos vai tocar a campainha do vizinho com um balde em forma de ab\u00f3bora na m\u00e3o, repetindo baixinho a frase que aprendeu na escola: \u201cdoces ou travessuras?\u201d. 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