{"id":53913,"date":"2026-11-02T03:06:06","date_gmt":"2026-11-02T06:06:06","guid":{"rendered":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/?p=53913"},"modified":"2026-11-01T18:09:32","modified_gmt":"2026-11-01T21:09:32","slug":"o-funeral-do-casamento-uma-fabula-sobre-aquilo-que-decidimos-enterrar-quando-ja-nao-sabemos-como-transformar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somdepapo.com.br\/portal\/o-funeral-do-casamento-uma-fabula-sobre-aquilo-que-decidimos-enterrar-quando-ja-nao-sabemos-como-transformar\/","title":{"rendered":"O funeral do casamento- uma f\u00e1bula sobre aquilo que decidimos enterrar quando j\u00e1 n\u00e3o sabemos como transformar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Por Bia Rossatti&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Terapeuta Familiar Sist\u00eamica&nbsp; @biarossattiterapeuta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito antes de um casal pronunciar a palavra separa\u00e7\u00e3o, alguma coisa j\u00e1 pode ter deixado de ser escutada. Um sil\u00eancio passa a significar desprezo. Uma pergunta vira acusa\u00e7\u00e3o. Uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 recebida como cobran\u00e7a. E duas pessoas que compartilharam uma vida inteira come\u00e7am a se comportar como se falassem idiomas diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando isso acontece, \u00e9 tentador concluir que o amor acabou. Mas ser\u00e1 que acabou mesmo? Ou ser\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o sabemos como encontr\u00e1-lo debaixo de tantas m\u00e1goas? Neste Dia de Finados, para abrir nossa coluna sobre vida a dois, proponho uma visita a um funeral muito particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade que decidiu enterrar o casamento \u2013 uma f\u00e1bula curta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma vez uma cidade onde os casamentos duravam muitos anos. Havia fotografias nas paredes, filhos correndo pelos corredores, contas divididas, viagens adiadas, sonhos realizados e outros abandonados pelo caminho. Por muito tempo, seus habitantes acreditaram que permanecer juntos era suficiente para manter uma rela\u00e7\u00e3o viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que come\u00e7aram a aparecer as hist\u00f3rias de solid\u00e3o a dois. Mulheres que se sentiam invis\u00edveis dentro de casa. Homens que j\u00e1 n\u00e3o sabiam como se aproximar sem provocar uma discuss\u00e3o. Casais que dividiam o mesmo teto, a mesma mesa e as mesmas responsabilidades, mas j\u00e1 n\u00e3o compartilhavam a intimidade de antes. As discuss\u00f5es se repetiam. As tentativas de reconcilia\u00e7\u00e3o duravam pouco. O ressentimento ocupava os espa\u00e7os que antes pertenciam \u00e0 cumplicidade.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o que surgiu uma ideia aparentemente libertadora: se o casamento produzia tanta dor, talvez o melhor fosse enterr\u00e1-lo. Na pra\u00e7a principal, organizaram um funeral. Havia flores, discursos e pessoas convencidas de que estavam finalmente se libertando de uma institui\u00e7\u00e3o incapaz de acompanhar os novos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre elas estava Helena. Aos 46 anos, ela carregava uma pergunta que n\u00e3o conseguia responder: como era poss\u00edvel ter constru\u00eddo tanta coisa com algu\u00e9m e, ainda assim, sentir-se t\u00e3o sozinha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena n\u00e3o queria voltar a viver uma rela\u00e7\u00e3o que a diminu\u00eda. N\u00e3o desejava continuar engolindo palavras, adiando necessidades ou confundindo sacrif\u00edcio com amor. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sabia se estava pronta para desistir de uma hist\u00f3ria que, apesar das feridas, ainda tinha significado. E note, isso podia ser tamb\u00e9m o que seu c\u00f4njuge pensava!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela queria liberdade. Queria respeito. Queria voltar a se reconhecer. E, no meio de tantas certezas proclamadas naquela pra\u00e7a, era justamente sua d\u00favida que a tornava humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Grande Desconstrutor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No centro da cerim\u00f4nia estava o Grande Desconstrutor, um personagem que conhecia muito bem os defeitos das institui\u00e7\u00f5es herdadas. Ele apontava as injusti\u00e7as, os pap\u00e9is impostos, as desigualdades e as promessas que nunca se cumpriam. Em muitas de suas cr\u00edticas, havia verdades que precisavam ser ouvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema come\u00e7ou quando ele passou a tratar toda heran\u00e7a como pris\u00e3o e toda perman\u00eancia como atraso. Se havia sofrimento, era preciso romper. Se havia conflito, era sinal de incompatibilidade. Se a rela\u00e7\u00e3o exigia esfor\u00e7o, talvez fosse porque n\u00e3o deveria existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m parecia interessado em perguntar se algumas estruturas precisavam ser transformadas, se determinados comportamentos poderiam ser abandonados ou se duas pessoas ainda tinham condi\u00e7\u00f5es de construir uma maneira mais saud\u00e1vel de viver juntas. O Grande Desconstrutor conhecia a arte de derrubar paredes. Mas n\u00e3o sabia o que fazer com os escombros. \u00d3bvio demais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a cidade inteira come\u00e7ou a acreditar que a sa\u00edda era libertar-se de uma rela\u00e7\u00e3o destrutiva e desistir de uma rela\u00e7\u00e3o que nem se questionavam se ainda poderia ser reconstru\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena observava tudo em sil\u00eancio. Ela sabia que nem todo casamento merece ser preservado. Conhecia o peso de uma conviv\u00eancia que fere, da falta de respeito e da solid\u00e3o que adoece. N\u00e3o queria transformar a perman\u00eancia em obriga\u00e7\u00e3o moral. Mas havia algo que a incomodava: por que ningu\u00e9m falava sobre a possibilidade de mudar antes de decretar a morte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o amor perde a linguagem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela noite, Helena se lembrou de uma m\u00fasica \u2013 a m\u00fasica tema do filme Gladiador, aquela em que M\u00e1ximos morto covardemente volta para os campos el\u00edseos e reencontra sua mulher e filhos. Os dois costumavam ouvir esta m\u00fasica juntos. N\u00e3o se recordava de todas as palavras, nem precisava delas, mesmo porque a l\u00edngua dessa m\u00fasica s\u00f3 existiu na mente da artista que a cantou. Mas fez Helena lembrar-se de como se sentia quando os dois ainda conseguiam permanecer juntos sem precisar provar quem tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica n\u00e3o apagava as dificuldades do presente. Tamb\u00e9m n\u00e3o era uma evid\u00eancia de que o casamento deveria continuar. Era apenas uma lembran\u00e7a de que existira uma linguagem entre eles \u2014 uma maneira de se reconhecerem que talvez tivesse sido soterrada pelas obriga\u00e7\u00f5es, pelas frustra\u00e7\u00f5es e pelas feridas acumuladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena come\u00e7ou a pensar no que acontece quando um casal perde essa linguagem. Na terapia de casal, aprendemos a olhar para al\u00e9m da discuss\u00e3o aparente. \u00c0s vezes, por tr\u00e1s da cr\u00edtica de um parceiro, existe uma tentativa desesperada de ser considerado. Por tr\u00e1s do afastamento do outro, pode haver medo de falhar novamente, exaust\u00e3o ou a sensa\u00e7\u00e3o de que qualquer conversa terminar\u00e1 em conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa justificar comportamentos que machucam, nem presumir que toda agressividade esconde amor. Significa investigar o que sustenta o padr\u00e3o de intera\u00e7\u00e3o, reconhecer responsabilidades e avaliar se existe disposi\u00e7\u00e3o real para mud\u00e1-lo. A trai\u00e7\u00e3o, o dinheiro, a cria\u00e7\u00e3o dos filhos, as rela\u00e7\u00f5es com as fam\u00edlias de origem e as decis\u00f5es sobre o patrim\u00f4nio podem se tornar campos de batalha. Mas a pergunta terap\u00eautica n\u00e3o se limita a descobrir quem est\u00e1 certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos compreender como aquele casal chegou at\u00e9 ali, o que cada um est\u00e1 fazendo para manter o ciclo e o que precisaria mudar para que uma conviv\u00eancia diferente se tornasse poss\u00edvel. N\u00e3o basta apenas sentir. \u00c9 preciso aprender a traduzir sentimentos em palavras, limites, atitudes e responsabilidade. Talvez seja isso que a m\u00fasica de Gladiador nos ajude a recordar: a experi\u00eancia humana \u00e9 maior do que aquilo que conseguimos explicar imediatamente. Escutar exige disponibilidade para reconhecer o que ainda n\u00e3o compreendemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No casamento, por\u00e9m, essa escuta precisa ser acompanhada de respeito, reciprocidade e seguran\u00e7a. N\u00e3o se reconstr\u00f3i uma rela\u00e7\u00e3o sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que deveria ser enterrado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 seguinte ao funeral, Helena voltou \u00e0 pra\u00e7a. As flores estavam murchas. Os discursos haviam terminado. O casamento, simbolicamente enterrado, j\u00e1 n\u00e3o podia mais responder \u00e0s perguntas que ficaram sem resposta. Ela se aproximou do t\u00famulo e percebeu que n\u00e3o queria ressuscitar tudo o que havia existido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queria enterrar a ideia de que amar significa suportar qualquer coisa. Queria enterrar o sil\u00eancio usado como puni\u00e7\u00e3o, o orgulho que impede um pedido de desculpas, a competi\u00e7\u00e3o para decidir quem sofreu mais e a cren\u00e7a de que mudar \u00e9 admitir derrota. Queria enterrar os pap\u00e9is que obrigavam um a desaparecer para que o outro ocupasse todo o espa\u00e7o. Mas n\u00e3o queria enterrar a possibilidade de construir uma rela\u00e7\u00e3o em que ambos pudessem existir por inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele instante, Helena compreendeu que o verdadeiro funeral talvez n\u00e3o devesse ser o do casamento, mas o de tudo aquilo que, dentro dele, j\u00e1 n\u00e3o permitia que duas pessoas se encontrassem. E essa descoberta n\u00e3o lhe deu uma resposta definitiva sobre o pr\u00f3prio futuro. Ela ainda precisaria avaliar sua hist\u00f3ria, seus limites, a disposi\u00e7\u00e3o do marido e as condi\u00e7\u00f5es concretas de uma poss\u00edvel reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, pela primeira vez, entendeu que n\u00e3o precisava decidir entre aceitar tudo como estava e destruir tudo o que havia sido constru\u00eddo. Existia uma terceira tarefa: olhar para a realidade, reconhecer o que precisava terminar e descobrir se ainda havia algo que os dois estivessem dispostos e fossem capazes de transformar.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O casamento n\u00e3o precisa de um funeral.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisa de uma revis\u00e3o honesta. O casamento n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o imune ao tempo. Precisa ser revisto, amadurecido e reconstru\u00eddo \u00e0 medida que as pessoas mudam. Uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel n\u00e3o exige que duas pessoas se tornem uma s\u00f3. Exige que aprendam a compartilhar a vida sem que nenhuma delas precise deixar de existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa defender a perman\u00eancia a qualquer pre\u00e7o. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que o afastamento \u00e9 necess\u00e1rio, especialmente quando existe viol\u00eancia, coer\u00e7\u00e3o ou risco \u00e0 integridade f\u00edsica e emocional. Nesses casos, a prioridade \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o, e a reconstru\u00e7\u00e3o do relacionamento n\u00e3o pode ser tratada como obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o significa que todo casal em crise conseguir\u00e1 permanecer junto. Algumas hist\u00f3rias chegam ao fim, e esse fim pode ser vivido com responsabilidade, dignidade e cuidado com os filhos e com tudo o que foi compartilhado. Mas h\u00e1 casais que chegam \u00e0 beira da separa\u00e7\u00e3o sem terem compreendido inteiramente o que os trouxe at\u00e9 ali. Para eles, buscar ajuda antes de uma decis\u00e3o definitiva pode abrir um espa\u00e7o de clareza: n\u00e3o uma promessa de salva\u00e7\u00e3o, mas a oportunidade de descobrir se existe um caminho poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse o trabalho que defendo como terapeuta sist\u00eamica: ajudar o casal a enxergar a din\u00e2mica em que est\u00e1 preso, compreender as responsabilidades de cada um e avaliar, com honestidade, se h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para uma mudan\u00e7a real. Antes do fim, pode existir um caminho de clareza. E a clareza pode conduzir tanto a uma reconstru\u00e7\u00e3o conjunta quanto a uma separa\u00e7\u00e3o mais consciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que n\u00e3o deveria acontecer \u00e9 uma vida inteira ser reduzida a uma senten\u00e7a apressada, sem que se tenha compreendido o que ainda est\u00e1 vivo, o que j\u00e1 morreu e o que precisa mudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pergunta para levar para casa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez voc\u00ea conhe\u00e7a um casal que vive assim. Talvez reconhe\u00e7a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria nestas linhas. Se ainda existe d\u00favida, vale perguntar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos querendo terminar o casamento ou estamos desesperados para terminar a maneira como temos vivido dentro dele? As respostas podem ser diferentes. E essa diferen\u00e7a merece ser investigada com coragem, sem promessas f\u00e1ceis e sem julgamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste Dia de Finados, n\u00e3o proponho celebrar a morte do casamento nem idealizar sua perman\u00eancia. Proponho refletir sobre aquilo que enterramos quando deixamos de acreditar que uma rela\u00e7\u00e3o pode mudar \u2014 e sobre aquilo que precisamos deixar morrer para que uma vida a dois possa voltar a fazer sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque o verdadeiro compromisso n\u00e3o exige que duas pessoas se tornem uma s\u00f3. Exige que duas pessoas inteiras decidam, livremente e com responsabilidade, se ainda querem construir algo juntas. E, antes de fechar definitivamente a porta, talvez valha a pena descobrir se o que terminou foi o amor \u2014 ou a maneira como voc\u00eas aprenderam a viv\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz sentido pra voc\u00ea? Se fez acompanhe nossa coluna no Portal Som de Papo.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bia Rossatti&nbsp; Terapeuta Familiar Sist\u00eamica&nbsp; @biarossattiterapeuta &nbsp; Muito antes de um casal pronunciar a palavra separa\u00e7\u00e3o, alguma coisa j\u00e1 pode ter deixado de ser escutada. Um sil\u00eancio passa a significar desprezo. Uma pergunta vira acusa\u00e7\u00e3o. Uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 recebida como cobran\u00e7a. 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