Por Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Homem/Animal
Na Medicina Veterinária Sistêmica, inspirada nas Constelações Familiares de Bert Hellinger,
compreendemos que os animais não vivem isolados de uma história individual. Assim como os humanos,
eles nascem inseridos em um campo maior, onde memórias emocionais, experiências de sobrevivência,
abandono, medo e exclusão podem atravessar gerações.
Traumas transgeracionais são marcas emocionais que não tiveram início no animal em si, mas em seus
ancestrais. Animais descendentes de situações de maus-tratos, abandono, fome, exploração ou estresse
intenso podem manifestar comportamentos que parecem não ter explicação lógica no presente.
Na prática clínica, observamos pets com medos excessivos, hipervigilância, agressividade defensiva,
dificuldade de relaxar, apego exagerado ou retraimento profundo. Pela ótica sistêmica, a pergunta não é
apenas “o que aconteceu com este animal?”, mas também “o que aconteceu antes dele?”.
Existe um campo familiar animal. Ele inclui a mãe, o pai, as gestações anteriores, o ambiente emocional
da fêmea durante a gestação e as condições de nascimento. Uma mãe que gestou sob ameaça ou medo
transmite aos filhotes uma memória corporal de alerta. O animal nasce preparado para sobreviver, não
necessariamente para descansar.
Na Constelação Familiar, chamamos isso de lealdade sistêmica. O pet, inconscientemente, tenta manter
viva a memória do sofrimento vivido no sistema. Ele não faz isso por escolha, mas por pertencimento.
Pertencer é uma necessidade básica de todos os seres vivos.
Quando um animal com esse histórico chega até um tutor, não é por acaso. O sistema busca um lugar
onde essa história possa ser reconhecida e respeitada. A visão sistêmica nos alerta que pena não cura.
Bert Hellinger ensinava que a pena retira a força e a dignidade do ser, enquanto a compaixão adulta
reconhece a dor sem desconsiderar a força.
O papel do tutor não é salvar o animal, mas ocupar seu lugar com presença, segurança e estabilidade.
Quando o humano assume sua própria força, o animal deixa de carregar aquilo que não lhe pertence.
Traumas transgeracionais não são sentenças. São convites para que algo seja visto, honrado e então
possa descansar. Quando a história é reconhecida, o sistema se reorganiza. O comportamento muda,
o corpo relaxa e a vida volta a fluir.
Na Medicina Veterinária Sistêmica, cuidar vai além do corpo físico. É olhar para a história, para o campo
e para os vínculos invisíveis que unem humanos e animais. Quando curamos o olhar, a cura acontece
no sistema inteiro.
Por Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Homem/Animal
(14) 99776-6120



