Por Carla Perin
@cacaperin
Na Medicina Veterinária Sistêmica, compreendemos que o vínculo entre humanos e animais vai muito além da companhia ou do afeto cotidiano. Para pessoas que viveram experiências de abuso — físico, emocional ou psicológico — o contato com um animal pode representar o primeiro passo seguro para reaprender a confiar.
O abuso rompe algo essencial no sistema humano: a confiança básica na relação. A alma entra em estado de alerta, o corpo se fecha e o vínculo passa a ser associado ao risco. Diferente das relações humanas, os animais se aproximam sem julgamento, sem exigências e sem intenções ocultas. Eles oferecem presença, não cobrança.
Na visão sistêmica, os animais atuam como reguladores emocionais do campo. Eles percebem tensões, medos e retraimentos que não são ditos em palavras. Muitos se aproximam justamente de pessoas que carregam histórias de dor, não para salvá-las, mas para acompanhar com respeito.
O vínculo com o animal permite que o sistema nervoso relaxe. O toque, o olhar e a rotina compartilhada ensinam, pouco a pouco, que a proximidade pode ser segura. O animal respeita o tempo do outro. Quando há retraimento, ele espera. Quando há abertura, ele se aproxima.
Para quem sofreu abusos, essa experiência é profundamente reparadora. O animal não invade, nãocontrola e não ultrapassa limites. Ele ensina, pelo exemplo, o que é um vínculo saudável: aquele que existe sem posse, sem violência e sem medo.
Do ponto de vista sistêmico, o animal também ocupa um lugar simbólico. Muitas vezes, ele representa uma figura de apoio que faltou no passado. Ao cuidar do animal, o tutor também começa a cuidar de si.
Ao estabelecer limites com o animal, aprende a estabelecer limites na vida.
É importante compreender que o animal não deve carregar o papel de terapeuta do tutor. Na visão sistêmica, cada um precisa ocupar seu lugar. O animal acompanha, mas não substitui processos terapêuticos humanos quando necessários. Quando o tutor assume sua própria responsabilidade emocional, o vínculo se torna leve e saudável.
O vínculo humano-animal, quando respeita a ordem sistêmica, promove segurança, presença e reconstrução interna. A confiança não retorna de forma abrupta; ela é reconstruída em pequenos gestos diários, como alimentar, caminhar, observar e estar junto.
Animais ensinam que vínculo verdadeiro não aprisiona. Ele sustenta. Eles mostram que é possível amar sem ferir, estar junto sem dominar e cuidar sem anular o outro.
Na Coluna Alma Animal, reafirmamos que os animais não chegam às nossas vidas por acaso. Eles respondem a movimentos profundos do sistema e, muitas vezes, caminham conosco enquanto aprendemos novamente a confiar na vida.



