Por Ramon Henrique
São duas realidades que, embora distintas, costumam se cruzar de maneiras que merecem ser compreendidas com cuidado e profundidade. Quando a gente fala de assexualidade, estamos falando de uma orientação sexual em que a pessoa não sente atração sexual por outras ou sente de forma muito limitada e rara.
Não é uma fase, não é “falta de experiência” e nem tem relação direta com a capacidade de amar, de ter intimidade ou de construir relações afetivas. Já a depressão é um transtorno de saúde mental caracterizado por sentimentos persistentes de tristeza, perda de interesse, baixa energia, pensamentos negativos recorrentes e, muitas vezes, uma sensação de vazio que não desaparece com facilidade.
A interseção entre as duas pode surgir por diversos camônios, e entender cada um deles ajuda a evitar que a pessoa se sinta ainda mais isolada ou incompreendida.
Primeiro, a invisibilidade da assexualidade. Diferente de orientações mais visíveis como a homossexualidade, que costuma aparecer em novelas, séries e conversas cotidianas a assexualidade ainda é pouco discutida.
Muitas vezes, quem se identifica como assexual recebe comentários do tipo “mas você ainda vai descobrir”, “é só fase” ou “você ainda não encontrou a pessoa certa”.
Esse tipo de invalidação pode gerar um sentimento de alienação, como se a própria identidade fosse um erro ou algo que precisa ser consertado.
Quando a pessoa já está lutando contra pensamentos depressivos, essas mensagens podem amplificar a autocrítica e o isolamento.
Segundo, a pressão social em torno do sexo. Nossa cultura está saturada de mensagens que ligam sexualidade a realização pessoal, prazer e até mesmo a valor próprio.
Para quem não sente essa atração, pode haver um conflito interno: “Será que eu estou fazendo algo errado? Será que sou menos mulher/homem por não querer sexo?” Esse conflito pode se transformar em culpa, que é um dos principais gatilhos da depressão.
A culpa, somada à sensação de que “todos estão tendo algo que eu não tenho”, cria um ciclo de autodepreciação que dificulta a busca de ajuda.
Terceiro, a falta de representatividade nos serviços de saúde mental.
Muitos profissionais ainda não estão familiarizados com a assexualidade e podem interpretar a falta de desejo sexual como sintoma de um problema psicológico, ao invés de reconhecer que pode ser simplesmente uma orientação válida.
Quando a pessoa procura terapia e o terapeuta tenta “corrigir” a assexualidade, isso pode gerar revitimização, reforçar a ideia de que há algo “errado” e piorar o quadro depressivo.
Quarto, o isolamento afetivo. Mesmo que a assexualidade não impeça de ter relações íntimas ou amorosas, muitas pessoas assexuais relatam dificuldades para encontrar parceiros que compreendam e respeitem seu desejo (ou falta dele).
A solidão afetiva pode ser um gatilho forte para a depressão, principalmente quando a pessoa sente que não tem um espaço seguro para ser quem é sem precisar se explicar o tempo todo.
Por fim, a própria depressão pode distorcer a percepção da própria assexualidade.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/Yahoo/revista Veja/ revista época



