Por Moabe Teles
Instagram: @moabeteles
Vivemos em uma era marcada por desafios sem precedentes: mudanças climáticas, desigualdades sociais crescentes, crises econômicas recorrentes e um avanço tecnológico que, ao mesmo tempo que conecta, muitas vezes desumaniza relações. Nesse cenário de incertezas e complexidade, surge a necessidade de novos modelos de liderança capazes de lidar com esses desafios de maneira transformadora. É aqui que entra o conceito de liderança regenerativa — um movimento que vai além do tradicional e do sustentável, propondo uma gestão que não apenas compensa impactos negativos, mas os reverte, revitalizando sistemas, comunidades e pessoas.
A liderança regenerativa não se limita a enxergar problemas como interrupções no caminho, mas os utiliza como oportunidades para inovar, restaurar e contribuir de forma positiva para o mundo. Se a sustentabilidade buscava apenas “não fazer mal”, a regeneratividade propõe um modelo ativo de “fazer o bem” e criar valor a longo prazo.
O que é Liderança Regenerativa?
O conceito de liderança regenerativa tem suas raízes na ecologia e nos sistemas vivos, onde tudo é conectado por interdependências. Assim como na natureza, líderes regenerativos moldam organizações que não apenas sobrevivem a crises, mas prosperam fortalecendo os ecossistemas internos (como cultura organizacional e bem-estar dos colaboradores) e externos (sociedade e meio ambiente). Essa abordagem reconhece que organizações são parte de redes mais amplas — e essas redes devem ser cuidadas, reparadas e regeneradas sempre que necessário.
Em termos práticos, a liderança regenerativa se traduz em:
Priorizar o longo prazo em vez de ganhos imediatos.
Focar no bem-estar integral das pessoas, como parte essencial do sucesso organizacional.
Promover culturas que equilibrem crescimento econômico e impacto social/ambiental positivo.
Criar ecossistemas organizacionais dinâmicos e adaptativos, que florescem mesmo em meio à incerteza.
Esse modelo não se aplica apenas a CEOs ou altos executivos: qualquer líder, de pequenas equipes a grandes corporações, pode implementar práticas regenerativas.
Por que Precisamos de Líderança Regenerativa?
As abordagens tradicionais de liderança muitas vezes focam em crescimento a qualquer custo, negligenciando as consequências que suas práticas têm sobre as pessoas e o planeta. Apesar de avanços na adoção da sustentabilidade, é evidente que não estamos indo longe o suficiente. Precisamos de uma abordagem que não apenas mitigue danos, mas que revigore sistemas inteiros, transformando organizações em forças catalisadoras de mudança positiva.
Por exemplo, pense nas crises climáticas e sociais que exigem ações imediatas e comprometidas. Companhias que operam com um viés regenerativo ajudam a reverter esses danos, investindo em práticas como:
Economia circular, onde os recursos usados são continuamente reciclados e reutilizados.
Benefício mutuo com comunidades locais, promovendo dignidade e empregos de qualidade.
Iniciativas que tornam ambientes de trabalho mais saudáveis, inovadores e inspiradores.
Além disso, dados mostram que organizações alinhadas a propósitos regenerativos têm maior capacidade de atrair talentos, engajar clientes e prosperar financeiramente a longo prazo.
Características de um Líder Regenerativo
Um líder regenerativo se destaca por sua visão sistêmica e pela habilidade de cultivar relações e organizações que geram benefícios para todos. Entre as principais características estão:
1. Pensamento Sistêmico:
Líderes regenerativos compreendem que nenhuma decisão é tomada em isolamento: toda ação impacta pessoas, processos e o meio ambiente. Por isso, eles conseguem enxergar interdependências dentro e fora de suas organizações, criando soluções que beneficiem não apenas o presente, mas também o futuro.
2. Resiliência e Adaptabilidade:
A liderança regenerativa abraça a mudança e as incertezas como oportunidades de aprendizado e crescimento. Em vez de resistirem às adversidades, esses líderes as veem como catalisadores para gerar criatividade e inovação.
3. Foco no Humano:
Enquanto o lucro é importante, líderes regenerativos priorizam as pessoas. Isso significa cuidar do bem-estar físico, emocional e mental de suas equipes, promovendo ambientes de trabalho saudáveis e significativos.
4. Propósito como Norte:
O propósito é a bússola dessas lideranças. Empresas regenerativas têm motivações que vão além do lucro e concentram esforços em gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente. Isso inspira lealdade em equipes e clientes.
5. Cocriação e Inclusão:
Esses líderes promovem colaboração e diversidade, reconhecendo que grandes transformações acontecem através da união de ideias e perspectivas variadas.
Exemplos de Liderança Regenerativa
1. Yvon Chouinard (Patagonia)
Fundador da Patagonia, Chouinard transformou a empresa em uma referência de regeneratividade. Ele implementou práticas como investimentos em iniciativas ambientalistas, material reciclado nos produtos e doações anuais significativas para causas ambientais. Recentemente, ele mudou a estrutura de propriedade da empresa para assegurar que todo lucro futuro seja direcionado a projetos para combater mudanças climáticas.
2. Paul Polman (ex-CEO da Unilever)
Enquanto comandava a Unilever, Polman introduziu o Plano de Sustentabilidade da empresa, com metas que incluíam reduzir o impacto ambiental, fomentar práticas sustentáveis entre fornecedores e melhorar as condições de vida de milhões de pessoas. Ele foi além da ideia de “não prejudicar” para promover uma regeneração ativa nos sistemas em que a empresa operava.
3. Rose Marcario (ex-CEO da Patagonia)
Durante sua gestão, Marcario ampliou o engajamento ambiental da empresa e incorporou práticas regenerativas como a agricultura regenerativa — um modelo que usa técnicas inovadoras para melhorar a saúde do solo e capturar carbono.
4. Emmanuel Faber (Danone)
Como CEO da Danone, Faber liderou esforços para transformar a empresa em uma B Corp (certificada por seu desempenho social, ambiental e financeiro responsável), além de investir fortemente em agricultura que apoiasse regeneração do ecossistema agrícola.
Como Adotar a Liderança Regenerativa na Prática
Aqui estão algumas ações práticas para incorporar a regeneratividade em seu estilo de liderança:
Repense o Sucesso: Estabeleça métricas de sucesso que vão além do lucro, incluindo impacto social, ambiental e cultural.
Invista em Pessoas: Ofereça oportunidades para seus colaboradores crescerem como profissionais e indivíduos, criando um ambiente que favoreça inovação e bem-estar.
Envolva sua Comunidade: Engaje stakeholders locais (fornecedores, ONGs, governos) em projetos conjuntos para melhorar ecossistemas externos.
Cultive a Diversidade: Busque equipes heterogêneas, cuja soma das perspectivas inspire soluções criativas e inclusivas.
Fomente Economias Circulares: Reduza desperdícios e reintegre recursos de forma inteligente nos processos empresariais.
Seja o Exemplo: Pratique o propósito que você defende, mostrando comprometimento genuíno com os valores da regeneratividade.
Conclusão
A liderança regenerativa é mais do que um conceito inovador — é um chamado para que os líderes de hoje se tornem agentes de regeneração em um mundo complexo e desafiador. Não basta mais reparar danos ou ser sustentável: precisamos restaurar ecossistemas, revitalizar culturas organizacionais e reabilitar conexões humanas.
Ao adotar essa perspectiva, não apenas criamos organizações mais fortes e resilientes, mas também contribuímos para construir um mundo com mais equilíbrio, harmonia e impacto positivo. Afinal, o futuro das lideranças pertence àqueles que escolhem regenerar, inspirar e multiplicar valor a longo prazo.
Então, o que você está regenerando hoje?



