Por Dr. Paulo Roberto Reis
Psicólogo Clínico
Nem sempre é fácil ser pai ou mãe. Quando descobrimos que nosso filho é diferente do que esperávamos — que tem um desenvolvimento atípico, seja por um diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, deficiência intelectual ou outra condição — uma ferida silenciosa pode se abrir. Trata-se do luto do filho idealizado, um processo emocional legítimo e profundo que raramente é reconhecido de forma aberta. Muitos pais se sentem culpados por não conseguirem aceitar imediatamente esse novo caminho, mas é fundamental compreender que esse luto não é pela criança real, mas pela imagem mental que foi construída ao longo do tempo, cheia de sonhos, expectativas e fantasias.
Eu, como psicólogo clínico, costumo acolher em meu consultório pais — especialmente mães — que vivem essa dor com muita intensidade. É um luto não falado, que muitas vezes se mistura com sentimentos de culpa, vergonha, raiva e até rejeição. O cansaço dessas famílias é real. E ele não se restringe ao corpo. É um cansaço emocional e psíquico, muitas vezes agravado pela falta de suporte social, pela ausência de rede de apoio, e pela sobrecarga de tarefas. Ainda hoje, muitas mães assumem sozinhas o cuidado com os filhos, o acompanhamento terapêutico, as idas a médicos, a mediação escolar — tudo isso enquanto tentam manter uma rotina funcional, um trabalho, uma casa.
Essa sobrecarga não é só exaustiva — ela é perigosa. Fatores como o burnout materno, transtornos de ansiedade, depressão e sentimentos de desesperança são riscos frequentes para esses cuidadores. Há mães que adoecem profundamente tentando dar conta de tudo sozinhas. E há pais que se afastam emocionalmente, incapazes de lidar com aquilo que não conseguem controlar ou “consertar”. Por isso, é tão importante que esses pais se permitam sentir, falar e pedir ajuda. A psicoterapia, nesse contexto, é mais do que necessária — é uma forma de reconstrução subjetiva.
Na psicoterapia, é possível elaborar a dor do luto, ressignificar a experiência da parentalidade, e reconstruir a relação com o filho real — não mais idealizado, mas possível de ser amado do jeito que é. Esse processo é também uma chance de se reconectar com a própria história, entender o peso das expectativas geracionais, culturais e pessoais. Com acolhimento, escuta e cuidado, esses pais se tornam mais conscientes de seus limites, de suas forças e, sobretudo, mais disponíveis emocionalmente para o filho que têm — e não para o que imaginaram ter.
Ampliar a rede de apoio também é essencial. Buscar grupos de famílias atípicas, trocar experiências com outros cuidadores, conversar com profissionais de confiança e, quando possível, envolver escolas, terapeutas e outros adultos no processo, pode aliviar o peso e abrir novas possibilidades. Lembrar que a jornada não precisa — e não deve — ser solitária, é um passo fundamental no caminho da aceitação.Aceitar um filho atípico é, muitas vezes, um recomeço. Um amor que precisa nascer de novo — não do que se sonhou, mas do que se é. E esse amor, quando nasce da verdade e do acolhimento, pode ser ainda mais forte, mais livre e mais bonito do que o amor idealizado.
Paulo Roberto Reis é psicólogo clínico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental e idealizador da Longevos Psicologia, uma clínica voltada para o cuidado da saúde mental e longevidade. Graduado em Psicologia pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL), Paulo é também mestrando em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com uma sólida formação acadêmica, é pós-graduado em Gerontologia, Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia. Além de sua prática clínica, Paulo é colunista do Portal Som de Papo, onde escreve sobre saúde mental aos domingos, contribuindo com informações e reflexões sobre o bem-estar psicológico.
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