Por Paula Silveira
Autor: Gustavo M. Sá
jornalista, naturista e aprendiz atento da vida humana
@fbrn_oficial
Censura: 18 anos
Há algo de profundamente curioso na forma como a nudez naturista — essa nudez tranquila, sem intenção de espetáculo — ainda provoca um desconforto que poucos admitem, mas muitos sentem. Não é a nudez em si; é o que ela desloca. Quando um corpo aparece livre de ornamentos, sem o código habitual das roupas que anunciam funções e pertencimentos, parece surgir uma pequena rachadura na ordem simbólica que sustenta a vida social.
É difícil não pensar em como as culturas constroem fronteiras. A antropóloga Mary Douglas, ao explorar a lógica da pureza e da impureza, mostrava que tudo aquilo que escapa à classificação nítida costuma ser tratado com suspeita. A nudez naturista se encaixa exatamente nesse intervalo: não é erótica, não é ritualística, não é médica. Não oferece um “lugar” claro no esquema cultural — e justamente por isso desperta um desconforto discreto, quase emocional, como se devolvesse ao corpo uma simplicidade que a sociedade não sabe muito bem onde guardar.

Mas essa reação também tem raízes históricas. O processo civilizador descrito por Norbert Elias deixou marcas profundas na forma como o ocidente passou a administrar gestos, posturas e até a distância social entre os corpos. Ao longo dos séculos, esconder-se tornou-se uma espécie de reflexo moral. Mostrar-se parecia violar um pacto implícito de autocontrole. Quando o naturismo retira esse filtro, ainda que por algumas horas e em locais específicos, ele faz algo delicado: revela a nudez como fato e não como transgressão. E é impressionante como esse simples deslocamento ainda desarruma uma herança inteira de condicionamentos.

Há também um aspecto mais silencioso: o olhar. Michel Foucault trazia que os corpos são moldados antes de qualquer gesto — são observados, comparados, corrigidos. Quando o naturismo suspende esse ritual de vigilância, o que se vê é quase um corpo inaugural, menos hierarquizado, menos funcionalizado. Um corpo que não está tentando dizer quem é, mas apenas existir. Para muitos, isso é libertador; para outros, é quase desconcertante, como se faltasse um roteiro para interpretar o que se apresenta.
Talvez a inquietação venha justamente dessa ausência de narrativa. A nudez naturista não pede explicações, não seduz, não argumenta. Apenas desmonta, de maneira suave, a engrenagem cultural que ensina cada um a se proteger — e, ao mesmo tempo, a se esconder. De repente, percebe-se que boa parte das tensões não está no corpo, mas na infinidade de significados que o envolvem.

No fim, o naturismo não pretende ser ruptura nem bandeira. Ele apenas lembra, com uma calma quase ancestral, que o corpo é o primeiro território que habitamos — e o último que realmente enxergamos. Talvez incomode porque é simples. E, numa época acostumada à camuflagem constante, a simplicidade do corpo pode ser a forma mais sutil de verdade.
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