Por Paula Silveira
Autor: Gustavo M. Sá (jornalista, naturista e aprendiz atento da vida humana)
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O naturismo costuma provocar um desconforto que raramente se explica apenas pela nudez. Em uma sociedade acostumada a ver corpos o tempo todo — filtrados, erotizados, performáticos — seria simplista atribuir o incômodo apenas ao fato de alguém estar sem roupa. O problema parece surgir quando a nudez aparece fora do circuito sexual e fora do espetáculo. Uma nudez sem intenção, sem convite, sem narrativa pronta.
O corpo, no cotidiano social, funciona como linguagem. Ele comunica desejos, posições, limites. O naturismo, ao retirar esse repertório, cria um vazio interpretativo. E é nesse vazio que surgem confusões. Para alguns, a ausência de roupa é imediatamente lida como disponibilidade sexual — uma leitura que não pertence ao naturismo, mas que insiste em se impor sobre ele.
Essa deturpação não incomoda apenas setores mais conservadores da sociedade. Incomoda também — e talvez sobretudo — os próprios naturistas. Porque uma coisa é a convivência baseada em respeito, regras claras e ética coletiva; outra, bem diferente, é o uso do espaço naturista como pretexto para práticas que nada têm a ver com esse movimento. Quando isso acontece, o conflito não é entre nudez e moral, mas entre naturismo e sua distorção.
É nesse ponto que a discussão se desloca de forma problemática. Em vez de enfrentar a confusão — que envolve fiscalização, presença do Estado e aplicação de regras —, opta-se frequentemente por eliminar a própria prática. O corpo nu passa a ser tratado como origem do problema, quando, na verdade, ele é apenas o elemento mais visível de uma falha mais ampla de gestão e de compreensão.
A decisão recente envolvendo a Praia do Pinho, em Santa Catarina, ajuda a ilustrar esse mecanismo. Reconhecida historicamente como a primeira praia de naturismo do Brasil, ela teve seu status alterado após debates públicos marcados por queixas relacionadas a comportamentos inadequados. O que se perdeu, nesse processo, foi a distinção fundamental entre a prática naturista — regulamentada, conhecida, com regras próprias — e condutas que, quando ocorrem, são crimes independentemente do local.
Ao optar por “cortar pela raiz”, o poder público acaba transmitindo uma mensagem ambígua: não a de que comportamentos inadequados serão combatidos, mas a de que a própria existência do naturismo é o problema. Essa escolha ignora tanto a história do espaço quanto o fato de que crimes não se resolvem com a supressão de direitos, mas com presença, fiscalização e responsabilização.
Talvez seja aí que o naturismo incomode mais do que deveria. Não por excesso, mas por exigir distinção. Ele obriga a separar nudez de sexualização, liberdade de permissividade, convivência de desordem. Em um debate público pouco disposto a nuances, essa separação dá trabalho. E, quando dá trabalho demais, costuma ser substituída por soluções mais rápidas — ainda que menos justas.
No fim, o desconforto não está apenas no corpo nu, mas na dificuldade de sustentar diferenças sem reduzi-las. E essa dificuldade diz menos sobre o naturismo e mais sobre a maneira como lidamos com aquilo que não cabe em leituras fáceis.
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