Por Eneida Roberta Bonanza
Você não nasceu suportando demais.
Você aprendeu.
Aprendeu em ambientes onde sentir não era seguro, onde faltar era mais aceitável do que precisar, onde ser forte era a única forma de permanecer pertencendo. O corpo entendeu rápido: para continuar amando, seria preciso se calar.
Esse aprendizado não fica só na mente.
Ele se instala no sistema nervoso.
Quando uma pessoa aprende que não pode parar, o corpo entra em modo de sobrevivência. O eixo do estresse permanece ativado, o cortisol se mantém alto, a musculatura vive em alerta e o descanso deixa de ser reparador. Por isso dormir não resolve. Por isso férias não curam. Por isso o cansaço volta.
A exaustão, nesse ponto, não é física.
Ela é adaptativa.
É o corpo sustentando um padrão emocional antigo: o de aguentar para não perder vínculo, amor, reconhecimento ou lugar. Muitas mulheres adoecem não porque fazem demais, mas porque sentem demais e não têm espaço para existir com isso.
O corpo então cria sintomas que obrigam a parada.
Dor, inflamação, ansiedade, distúrbios hormonais, alterações digestivas, perda de libido, desânimo.
Não como castigo, mas como limite biológico.
O processo terapêutico começa quando a pergunta muda.
Não é “como eu volto a dar conta?”, mas “de onde vem essa necessidade de suportar tudo sozinha?”
Quando essa origem é olhada, algo se reorganiza.
O sistema nervoso começa a sair do estado de alerta.
O corpo aprende que agora existe escolha.
Que parar não é abandono.
Que pedir não é fraqueza.
Que sentir não ameaça a vida.
Cura não é desistir de ser forte.
É parar de usar a força como armadura.
O movimento terapêutico real não é fazer menos.
É se incluir no que se faz.
É sair do automático.
É devolver ao corpo a permissão de existir sem tensão.
Porque ninguém te pediu para aguentar tudo.
Mas hoje, conscientemente, você pode desaprender.
E quando isso acontece, o corpo finalmente descansa.
Não porque a vida ficou leve, mas porque você deixou de carregar o que nunca foi seu.



