Por Larissa França
Nem toda traição começa com outra pessoa.
Muitas começam quando alguém aprende a silenciar a própria dor para manter um vínculo que já deixou de ser lugar de cuidado.
Na clínica, é comum escutar histórias de pessoas que nunca foram “traídas” no sentido clássico, mas que se sentem profundamente abandonadas. Não porque o outro saiu, mas porque elas mesmas precisaram sair de si para caber no vínculo.
A traição, nesses casos, acontece quando o sujeito silencia o que sente, negocia limites essenciais e aprende a se adaptar para não perder o lugar que ocupa na relação. Aos poucos, a pessoa deixa de ser quem é para continuar sendo escolhida.
Do ponto de vista clínico, esse movimento costuma estar ligado a vínculos marcados por insegurança afetiva, medo de abandono e repetição de padrões aprendidos cedo: amar se confundindo com suportar, permanecer se confundindo com sobreviver.
Por isso, muitas pessoas toleram relações que machucam sem perceber que o custo é interno. A dor não vem apenas do que o outro faz, mas do afastamento gradual de si mesma. Quando o vínculo exige auto abandono constante, algo já está ferido.
Na psicoterapia, não falamos apenas de “perdoar ou ir embora”. Falamos de identificar onde o sujeito deixou de se escutar, de se proteger e de se reconhecer. Porque, antes de qualquer decisão externa, existe uma ruptura interna que precisa ser cuidada.
Quando a pessoa volta a ocupar o próprio lugar, a relação muda de status: deixa de ser sobrevivência e passa a ser escolha. E quando isso não acontece, a dor deixa de ser confusa e passa a ter nome.
Por que dói tanto quando não houve uma traição “de verdade”?
Porque a maior ruptura, muitas vezes, não é com o outro é consigo.
Trair a si mesma para manter um vínculo cobra um preço emocional alto. O sofrimento surge quando o amor exige que o sujeito desapareça.
Se você se reconhece nessas vivências, talvez a pergunta não seja “devo ficar ou ir?”, mas “em que momento eu precisei me abandonar para continuar?”. Relações feridas pedem clareza emocional, não decisões apressadas. O cuidado começa quando você volta a se escutar.
Onde há dor, há algo pedindo clareza.
Psicóloga Larissa França
CRP 03/33953
Psicoterapia com foco em traumas, luto e vínculos adoecidos
Instagram: @larifranca.psique
Agendamentos: (75) 98704-5012



