Por Carla Perin
@cacaperin
O Carnaval é culturalmente reconhecido como um tempo de extravasamento. Sons intensos, ruas cheias, rotinas quebradas, excesso de estímulos e uma suspensão temporária dos limites cotidianos. Para muitos humanos, representa alegria, liberdade e celebração. Para os cães, no entanto, esse período pode significar desorganização, insegurança e sobrecarga emocional.
Na Medicina Veterinária Sistêmica, compreendemos que os animais fazem parte do sistema familiar e respondem diretamente às mudanças emocionais, energéticas e comportamentais dos humanos com quem convivem. Os cães são especialmente sensíveis à perda de ritmo e de previsibilidade. Eles vivem ancorados na presença, na repetição e na coerência do ambiente. Quando o humano se desorganiza, o sistema inteiro sente.
Durante o Carnaval, é comum observar aumento de sinais clínicos e comportamentais nos pets: ansiedade de separação, tremores, vocalizações excessivas, distúrbios gastrointestinais, dermatites, apatia ou hiperatividade. Embora o barulho e os fogos sejam fatores importantes, a visão sistêmica nos convida a olhar além do estímulo externo e perceber o que acontece no campo emocional do sistema familiar.
Segundo as Leis Sistêmicas descritas por Bert Hellinger, todo sistema busca equilíbrio. Quando o adulto se ausenta — física ou emocionalmente — alguém tenta compensar essa ausência. Muitas vezes, esse papel recai sobre o animal. O cão passa a vigiar, proteger, alertar ou sustentar emocionalmente o ambiente, assumindo funções que não lhe pertencem.
Esse movimento não é consciente. Ele nasce da lealdade profunda ao sistema e do desejo de pertencimento. O cão prefere adoecer, se agitar ou sofrer do que “abandonar” o campo familiar. Quando o excesso humano cria um vazio — de presença, de limites ou de responsabilidade — o animal entra nesse espaço tentando manter a coesão do sistema.
O Carnaval também expõe algo importante: a incoerência emocional. Muitos humanos oscilam entre euforia intensa e exaustão profunda, entre presença social exagerada e desconexão interna. Os cães, que não usam máscaras e vivem no agora, percebem essa instabilidade. O corpo do animal se torna, então, o lugar onde essa incoerência se manifesta.
Na prática clínica sistêmica, aprendemos que o animal raramente adoece sozinho. Ele expressa aquilo que o sistema não consegue simbolizar. O excesso de estímulos externos frequentemente encobre um excesso interno: ansiedade, fuga de si, dificuldade de sustentar limites e presença consciente.
É importante dizer: o Carnaval não é, em si, um problema. A celebração faz parte da vida. O adoecimento surge quando o humano abdica de sua posição adulta dentro do sistema. Celebrar não precisa significar abandonar a responsabilidade emocional nem expor o animal a situações que ultrapassam sua capacidade de autorregulação.
Cuidar de um cão durante o Carnaval é oferecer ordem em meio ao caos. É manter rotinas mínimas, respeitar limites sensoriais, garantir espaços de silêncio e segurança. Mas, acima de tudo, é sustentar presença emocional. Um tutor presente organiza o campo. Um campo organizado permite que o cão descanse.
Na Medicina Veterinária Sistêmica, entendemos que o verdadeiro cuidado vai além da proteção física. Ele envolve ocupar o lugar correto dentro do sistema familiar. Quando o humano assume sua liderança com consciência e respeito, o animal pode permanecer no lugar que lhe traz paz: o lugar de ser cuidado.
Talvez o maior ensinamento que os cães nos oferecem durante o Carnaval seja simples e profundo: menos excesso, mais presença. Menos fuga, mais enraizamento. Eles não precisam de festas, nem de estímulos constantes. Precisam de coerência, limites claros e segurança emocional.
O Carnaval passa. O corpo do animal permanece. E ele sempre contará, através de seus comportamentos e sintomas, como o sistema viveu esse tempo.



