Por Eneida Roberta Bonanza
Nos últimos anos, as chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam espaço nas clínicas e nas conversas. O que começou como uma proposta para controle metabólico e perda de peso revelou algo maior, mais silencioso e profundamente interessante.
Na prática clínica, algo começou a chamar atenção.
Pacientes que utilizavam tirzepatida não relatavam apenas redução do apetite. Eles descreviam uma diminuição da urgência. Uma espécie de desaceleração interna. Uma pausa entre o impulso e a ação.
E essa pausa mudava tudo.
Relatos de menor desejo por álcool. Redução do impulso por jogos. Menor fissura por compras compulsivas. Diminuição do uso de substâncias. Uma serenidade inesperada diante de gatilhos antigos.
Não era apenas sobre comida. Era sobre pulsão.
O que está acontecendo no cérebro?
A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores de GLP-1 e GIP. Esses hormônios intestinais, conhecidos como incretinas, participam da regulação da glicose e da saciedade. Mas o intestino não conversa apenas com o pâncreas. Ele conversa com o cérebro.
Existe um eixo sofisticado chamado eixo intestino-cérebro. Nele, sinais hormonais e neurais influenciam diretamente regiões como o sistema mesolímbico, núcleo accumbens, área tegmental ventral, amígdala e córtex pré-frontal.
Essas áreas estão envolvidas no circuito da recompensa e da motivação.
O GLP-1, ao atuar no sistema nervoso central, modula a liberação de dopamina. A dopamina não é apenas o neurotransmissor do prazer. Ela é o neurotransmissor da antecipação da recompensa. Do querer.
Quando essa sinalização se torna menos intensa, a busca compulsiva também diminui.
É como se o cérebro deixasse de gritar por estímulo o tempo inteiro.
Compulsão não é falta de caráter. É neurobiologia.
Toda compulsão tem um componente de regulação emocional. O comportamento compulsivo funciona como tentativa de anestesia ou de autorregulação.
Comida. Álcool. Drogas. Jogos. Compras. Sexo. Redes sociais.
Todas essas experiências ativam o mesmo circuito dopaminérgico.
Ao modular esse circuito, a tirzepatida parece reduzir a hiperativação do sistema de recompensa. Isso não significa ausência de prazer. Significa menos urgência, menos descontrole, mais espaço interno para escolha.
E quando existe escolha, existe consciência.
O impacto clínico que começou a aparecer.
O que inicialmente foi observado como um efeito colateral positivo passou a se repetir em diferentes perfis de pacientes. Pessoas que não estavam buscando tratar compulsões começaram a relatar mudanças emocionais significativas.
Mais estabilidade. Menos impulsividade. Menor ansiedade antecipatória. Redução da ruminação alimentar e comportamental.
Isso sugere que os agonistas de GLP-1 podem atuar também na modulação da impulsividade e do controle inibitório, possivelmente por influência sobre o córtex pré-frontal.
Em termos simples, o freio passa a funcionar melhor.
Corpo, emoção e metabolismo nunca estiveram separados.
Existe uma ilusão de que emagrecimento é algo puramente estético ou metabólico. Mas o metabolismo está profundamente conectado ao sistema nervoso.
A inflamação crônica de baixo grau, a resistência à insulina e a desregulação glicêmica impactam diretamente o humor e o comportamento. Quando esses parâmetros melhoram, o cérebro também responde.
Equilíbrio glicêmico reduz flutuações bruscas de energia. Redução da inflamação modula citocinas pró-inflamatórias que interferem no humor. Melhora da sinalização hormonal estabiliza o sistema nervoso autônomo.
O que parecia apenas uma intervenção metabólica se revela também uma intervenção neuroemocional.
É fundamental compreender que a tirzepatida não é tratamento isolado para dependências ou transtornos psiquiátricos. Ela não substitui psicoterapia, acompanhamento médico ou abordagem multidisciplinar.
O que a prática clínica vem mostrando é que, ao reduzir a intensidade da pulsão, cria-se um terreno mais fértil para o trabalho terapêutico.
Quando o impulso diminui, o paciente consegue olhar para o que está por trás dele.
E é aí que começa a verdadeira transformação.
Talvez o maior benefício emocional dessas medicações não seja a perda de peso. Seja a pausa.
Aquele segundo entre o desejo e a ação.
Aquele espaço em que o corpo já não está em estado de urgência.
Aquele momento em que a pessoa percebe que pode escolher.
E quando alguém experimenta a própria capacidade de escolha, algo muito profundo se reorganiza por dentro.
As canetas que começaram falando de peso estão, silenciosamente, tocando o território das emoções.
E isso nos convida a olhar para o ser humano como ele realmente é:
Inteiro.
Metabólico.
Neural.
Emocional.
Relacional.
Tudo ao mesmo tempo.



